domingo, 24 de junho de 2018

Os Santos Populares - S. João à moda de Pessoa.

São João

....

Mas, desçamos à terra,
Que, por enquanto, o ceu aterra, 
Porque antes d 'isso mette a morte.
Ha muita coisa desconhecida
Na tua vida.
Tens muita sorte
Em ninguem saber da partida
Que em mil setecentos e dezassete
Tu fizeste à Egreja constituida

Estás, eu bem sei, cansado
com o que a Egreja se intromette
Com tua vida e o teu divino fado.


(e) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assignado,
Mas cuja assinatura se erra
Quando em teu dia, S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambolico

Eu a julgar-te até catholico,
E tu sahes-me maçon.
Bem, ahi é que há espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vario.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Prompto a fazer fallar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo  que torna o homem precario.
Se és maçon - eu sou templario.


Esquece-te santo
Deslembro o teu indefinido encanto.

Meu irmão, dou-te o abraço fraternal.


(excerto integro e ortográfico de um poema de Fernando Pessoa, do livro acima mostrado e escrito em 12-0-1919 )

"A Criança Eterna acompanha-me sempre"

(Alberto Caeiro)

sábado, 23 de junho de 2018

Mergulhar, é principio de verão. Aconteceu hoje

"por isso te digo que vou levar-te o mar 
  na concha das minhas mãos, azulíssimo, 
           para que nele descubras o meu nome
entre os seixos os búzios os rostos que já tive ."

Vasco Gato, Búzio

Hoje, para mim começou o verão . 

Verão , é para mim a" doçura" da água salgada , quando nela posso mergulhar e que me liberta das dores de alma e linhas entrelaçadas que cobrem o meu esqueleto. 
Verão, não é excesso de calor... 


Na minha praia, supervisionada por um não nadador, mas um verdadeiro salva vidas, o meu pequeno Gabriel. 

Aos amigos que passam , os poucos que visitava, com gosto e carinho, a minha ausência não é esquecimento, mas só alterações de dia a dia que me consomem alguns prazeres. 
  Breve passarei. Bom fim de semana.

Sorrindo, sorrindo...


sábado, 16 de junho de 2018

O riso e os seus riscos...


Adicionar legenda
O QUE É RISO?


  " Hobbes afirma que este movimento brusco dos pulmões e dos músculos da face é o efeito da «visão imprevista e bastante clara da nossa superioridade perante outro homem» (Da Natureza Humana). Este contraste, vantajoso para nós, faz com que desfrutemos da nossa própria superioridade. Se a infelicidade de outro homem é tão grande ao ponto de nos levar a pensar que também podemos ser infelizes, então deixa de haver fruição da nossa superioridade e há, pelo contrário, uma visão da infelicidade e o riso cessa.
   O cómico deve ser  exposto com clareza (entendo por cómico tudo  que provoca riso: um gesto, uma palavra, uma expressão). A imagem da nossa superioridade sobre outrem deve pela mais ínfima reflexão ser nítida e rápida. Mas essa superioridade sobre outrem deve ser nítida e rápida. Mas essa superioridade é algo tão fútil e facilmente destrutível pela mais ínfima reflexão que se impõe que a visão nos seja apresentada de uma forma imprevista,
   Eis os únicos limites do riso: a compaixão e a indignação.
   Num estado de indignação, pensamos em interesses mais directos e importantes, pensamos em nós numa situação de perigo."
   
Excerto.  DO RISO: UM ENSAIO FILOSOFICO SOBRE UM TEMA DIFICIL

(

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Mundial a rimar com Portugal


A excepção à regra. Nunca vejo futebol . A não ser a Selecção.
Sorte .

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Santo António... e um blogue com 10 anos

Desenho do programa das Festas de Lisboa, 1934. Almada Negreiros - (França, José Augusto (1974), Almada o Português sem Mestre. Lisboa: Estúdios Cor).  
Milagre das Bilhas - Uma jovem ia à fonte com a bilha no regaço, buscar água.  Ao chegar, partiu a bilha e ficou a chorar. Santo António apareceu e perguntou-lhe a razão do seu pranto. Cheio de compaixão, Santo António consertou a bilha.


E...


Tronos de Santo António, 1º prémio, 1952. Calçada do Jogo da Péla, freg. Santa Justa -Arquivo Municipal de Lisboa (foto de António Castelo Branco)
Peças de aspecto popular, os tronos, eram executadas por crianças dos bairros antigos de Lisboa, firmados na devoção ao santo. A quem passava, as crianças pediam um tostãozinho para o santo. Vem o costume, segundo se diz, do peditório que em toda a cidade se fez, por altura do terramoto de 1755, para ajudar na reconstrução da sua igreja. 

Foi nos anos 30, do século XX, que Leitão de Barros, orientador desta tradição, fomentou concursos de tronos e de janelas enfeitadas, nos quais colaboravam as colectividades de cada bairro.

Em pleno século XXI, os tronos continuam a merecer a atenção e admiração popular.

Informação DAQUI

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Ser professor....

"Se não morre aquele que escreve um livro e planta uma árvore, com mais razão não morre o educador que semeia vida e escreve na alma."
Bertolt Brecht
Hergé , visto por Lança Guerreiro, 2016

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Tempo de cerejas ? Aqui, sim..





Felix Vallotton, " Cesto de Cerejas", 1921

quarta-feira, 6 de junho de 2018

"Monoral" e "Binaural", afinal o que é ? Conversas de João Oliva...

Uma boca dois ouvidos


   "Monoral" e "binaural" bem podiam ser duas palavras para traduzir características anatómicas com que a Natureza brindou, generosa e generalizadamente, as espécies animais e, particularmente, a humana. Mas a primeira, que o autor saiba,não existe, ainda que a segunda, apesar da sua escassa utilização, esteja dicionarizada e se refira, de facto e de forma genérica, à existência de dois ouvidos e, em particular, a técnicas a ela relativas.
   A sua utilização nestas páginas terá, porém, outro significado, embora ainda relacionado com a audição. É que Binaural é também o nome da Associação Cultural, pólo desconcentrado de artes e ideias, que irradia a sua actividade a partir da aldeia de Nodar, no concelho de São Pedro do Sul, distinguida com o prémio Miguel Portea 2013, a propósito do qual o respectivo júri salientou "a qualidade e rigor e a exigência da experimentação de novas linguagens artísticas com um contexto do interior do país, esquecido pelos roteiros habituais das manifestações culturais em Portugal".
   E a relação com os" dois ouvidos" resulta do facto de o seu trabalho de uma década se centrar, embora sem exclusividade, na investigação, criação e divulgação de artes sonoras, uma prática com pouco exercício neste oeste europeu; embora já algum, como se reconhece - a mero título de exemplo e a propósito do simpósio internacional InvisiblesPlaces/ Souding Cities e dos Jardins Efémeros de 2014 e que se integrou - na investigação de Raquel de Castro e no trabalho de terreno de Luís Antero.
  De facto, se a proximidade do espaço rural com a Natureza permite uma depuração das paisagens de som que é indispensável à sua (re)consideração e interpretação, também um desconcentrado horizonte de reflexão evita ruídos, desta vez mentais, que ensurdecedoramente  povoam os media e as modas ( não os modos) de criação artística, sobretudo no que diz respeito às artes contemporâneas experimentais.


Excerto do livro de João Oliva, Artes e ideias da desconcentração
PRÁTICAS CULTURAIS DE OUTROS CENTROS

E, desta, acrescento eu, mesmo da região centro.

Binaural - literalmente significa "possuindo ou sendo relacionado às duas orelhas".
audição binaural, juntamente com a filtragem de frequências, permite aos animais determinar a direção da origem dos sons. É uma técnica de gravação e reprodução sonora bastante interessante, pois, com apenas dois microfones, é possível criar o efeito de som ambiente. Alguns áudios binaurais também são usados em terapias; tais áudios têm o poder para acessar em uma certa frequência o subconsciente humano, podendo alterar coisas no corpo como a liberação de endorfina, também usados para meditação. Para a gravação são colocados dois microfones acoplados à cabeça de um manequim ("dummy head"). Os microfones devem ser colocados na posição das orelhas. A banda Pink Floyd tem um álbum gravado com essa técnica, The Final Cut, bem como a banda Pearl Jam, que gravou um álbum utilizando esta técnica e o batizou com o próprio nome da técnica, Binaura

terça-feira, 5 de junho de 2018

Viva ...

ANTOLOGIA DE GUACHES 1950-2018

Nikias Skapinakis

Fundação Carmona e Costa, Lisboa, até 14 de julho


Não morri... Somente vou andando por aí. Mais desatenta e quase a perder este Mar de vista...

terça-feira, 22 de maio de 2018

Morreu hoje o pintor Júlio Pomar, e com ele o pintar e poemar...

Não é para Contar uma Estória que tu Escreves

          Não é para contar uma estória que tu escreves 
e eu pinto 
nem para nos apontarem a dedo que limamos 
o bico aos pregos no avesso do mundo, nem a terra 
é o centro deste. O universo não usa 
adereços de cena 
nem liga a espelhos. Tem mais que fazer 
que nos copiar e tão-pouco ao fado pois ele é 
velho, não tem dentes, e tresanda 
ao ranço de uma açorda 
salgada e sem coentros. 


Júlio Pomar, in "TRATAdoDITOeFEITO" 

(imagem tirada do Funchal Notícias)

Lisboa nunca mais foi a mesma... Expo 98, 20 anos


"Aqueles foram tempos dos mais entusiasmantes da minha vida e por isso não tenciono ser imparcial neste texto. " (Ana Sousa Dias)
  Eu poderia dizer a mesma coisa.... Fazer uma crónica quase parecida ...
 Passava anos a fio no comboio da Linha do Norte para ir até Coimbra ou Figueira . Era aflitivo o abandono e sujidade daquela zona oriental de Lisboa. 
  Até que surgiu a ideia concreta da Expo 98. Alegria. Uma Expo. Eu que não tinha conseguido ir a Sevilha. Uma eterna "tesa" e com medo do calor.... "Estão verdes, só os cães lá podem chegar", excusava-me eu.

Dava aulas na altura na mais bela escola de Lisboa, de 1990 a 2000 . Dentro do Castelo de S. Jorge. 
Acompanhava as obras. Sempre fui uma "fiscal de obra"... CCB e mais tarde da Expo, sempre por via dos transportes para trabalhar ou trabalhar os afectos a Centro.
Conheci cedo António Costa e Fernanda Tadeu que comigo trabalhou 2 anos na minha Escola. Ele era um jovem a que eu com humor mas também conhecimento, augurava um futuro em grande, como 1º ministro ou PdaR... 
Fernanda dizia-me, "não digas isso, que o meu homem só quer ser Presidente de uma Câmara"... Esta conversa foi talvez em 1991/92. Só ainda não chegou a PR. 
Não queria acreditar que as obras estivessem prontas a 22 de Maio. Passava lá todos os meses. 
  Por ironia, quando houve uma pré inauguração, penso que a 20 de Maio, lá estava eu. António Costa em substituição de António Guterres, então 1º Ministro e acompanhado de sua Fernanda no lugar de 1 dama, fez-me sorrir ou rir a bom rir. Tenho para mim, que só não acerto , por ora , no euromilhões... E jogo. 
Foi tal o meu enamoramento pela Expo , que tirei uma assinatura permanente e sempre que podia, muitas , muitas vezes, saìa da escola, descia Alfama e apanhava o 28 para a Gare do Oriente.
Tentei andar no sentido contrário das multidões. Vi grandes, grandes espectáculos e alguns com o meu jovem filho , que tinha 19 anos na altura e ainda ía prazerosamente aos mesmos espectáculos que eu. Os mais emblemáticos. 
Eu era fascinada com os OLHAROPOS e com APEREGRINAÇÃO. OS TRABALHOS MULTIMÉDIA, deixaram-me de rastos de prazer ... Levei os meus pequenos alunos várias vezes até lá e sei que fui uma cicerone apaixonada , plena de orgulho , fascinada com os jovens que por lá trabalhavam. Não aceitava  uma opinião negativa.
Lisboa, nunca mais foi a mesma. 
  A Gare do Oriente um fascínio. Desagradável, mas eu continuo cliente de S. Apolónia...
A Expo, pode ser como Veneza.... Onde podem começam grandes amores e ir até lá também para os acabar .
Ler AQUI crónica de Ana Sousa Dias

Fotografia de minha mãe, na altura com 70 anos, e sempre vibrante.

sábado, 19 de maio de 2018

com a rtp2 , fico mesmo mais culta e adulta...

Bom domingo a quem passa e queira ficar um pouco ...

bom fim de semana a quem passa

Da ceramista ceramista Isabelle Decencière

PRIMAVERA

Primavera que Maio viu passar
Num bosque de bailados e segredos
Embalando no seio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha.

Tudo me é uma dança em que procuro
A posição ideal,
Seguindo o fio de um sonho obscuro
Onde invento o real.

À minha volta sinto naufragar 
Tantos gestos perdidos
Mas a alma, dispersa nos sentidos,
Sobe os degraus do ar...


Poesia, Sophia de Mello Breyner Andersen, ASSÍRIO E ALVIM


sexta-feira, 18 de maio de 2018

"Codigo dos Homens Honestos", leitura breve....

   Nos tempos que correm dinheiro é sinónimo de prazer, reconhecimento, sucesso, inteligência. Esse doce e ambicionado metal pode ser objecto constante de amor e respeito dos mortais, em qualquer idade ou condição social, desde reis a costureirinhas ou de grandes proprietários a emigrantes.
   No entanto, esse mesmo dinheiro, fonte de todos os prazeres, e origem de muitas glórias, também é objecto de todas as ambições e disputas.
   A vida pode ser vista como um contínuo combate entre ricos e pobres, com os primeiros dentro de uma praça-forte, cheia de munições e cercada por muralhas de  de bronze; os segundos observam, avaliam, atacam, derrubam muros e portões, apesar dos fossos e  da  artilharia, raramente os assaltantes, esses cossacos do estado social, saem sempre de mãos vazias.
   O dinheiro subtraído por esses refinados corsários está perdido para sempre. Penso que é uma causa inglória tentar evitar estes rápidos e habilidosos ataques. Neste sentido e com o objectivo mais amplo, de dirigirmos todos os esforços para defender as pessoas honestas, tentaremos retratar as manobras desses hábeis Proteus.

Excerto da Introdução de um texto de Honoré de Balac, publicado em 1825 , teria talvez 25 ou 26 anos

segunda-feira, 14 de maio de 2018

leituras breves mas profundas...

"– Há uma coisa muito mais importante que a inteligência, avô, é a bondade.
O meu pai contou-me isto comovido
– O miúdo tem razão, o miúdo tem razão
e tinha: a bondade é muito mais importante que a inteligência. Este episódio veio-me à cabeça por causa do Zé Tolentino: ele tem as duas coisas em grau altíssimo, o malandro. Uma bondade enorme e a inteligência metida lá dentro. De que serve ela, aliás, fora disso? A bondade
(e, já agora, a modéstia)
rodeiam-no como um halo, 
a inteligência possui uma descrição e uma delicadeza que não sei se encontrei em mais alguém. Para além disto
(ele, de facto, é escandalosamente rico)"

EM, VISÂO, crónica de António Lobo Antunes  (AQUI)

domingo, 13 de maio de 2018

Caminha-se para mais uma semana primaveril...

Pintura de Rogério Ribeiro, O Mar de Ìcaro, 2000

O tempo falta, os dias passam,  com dores e sorrisos.
E, veio-me á memória o provérbio, "lágrimas com pão, bem vão", por isso os dias têm que fluir, de preferência com beleza...

segunda-feira, 7 de maio de 2018

boa semana a quem passa e bons olhares...

                                    Marius Borgeaud, pintor suíço (1821-1924), uma descoberta que muito me agradou. 

terça-feira, 1 de maio de 2018

O 1º de Maio aqui pelo Mar .... A todos que passam, saúdo...

"o 1º de Maio é o dia em que a Natureza revive em cada poro, em cada átomo. O Inverno, que simboliza a noite milenária da Idade Média, com todos os seus horrores da escravidão, fome e morte, passou, com os seus gelos desolados e a sua nudez; está-se na Primavera - a quadra da beleza e da esperança, e das promessas de frutos deliciosos que hão-de sustentar as vidas; e esta quadra também simboliza a esperança e a promessa de muitos frutos que havemos de colher no Estio e no Outono da nossa futura mas próxima revolução " (14)
(14) O 1º de Maio, Porto, Maio, 1893 (nº único). Cf. Carlos da Fonseca , cit. pag. 46
Excerto das pag. 251/252 do livro O CÉU DA MEMÓRIA, de Fernando Catroga
"E a feminista Matilde de Jesus Pereira declamava: "Maio, o deslumbrante mês em que as flores embalsam o ambiente com os seus perfumes, foste tu o escolhido para as unânimes reclamações do povo trabalhador".
Dir-se-ia que, à mentalidade ainda rural de muito trabalhador português, não repugnaria aceitar, como o fazia o jornal das tabaqueiras do norte, que "certamente, desde longínquas datas, o primeiro de maio tinha o seu culto, remontando talvez na Irlanda à adoração de Baal, coincidindo, durante a Idade Média, com a abertura dos chamados jogos florais e cortes de amor, que importavam ainda assim o princípio da dignificação da mulher. Na Itália entregam-se neste dia ramos de flores, como forma de saudação amigável. Em Portugal, enfeitavam as portas e as janelas com flores e giestas, conservando-se por quase todas as nossas províncias ainda a tradição que se perde nos tempos" (13)

(13) Marius, "O 1º de Maio", in A Voz do Proletariado, XIII anno, nº 642, 1908
Do livro CÉU DA MEMÓRIA, pág. 251, de Fernando Catroga

domingo, 22 de abril de 2018

Caminhando para o dia 25 de Abril.... Quase, quase lá.


João Abel Manta e uma das suas formas de ver o 25 de Abril de 1974

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Dia Mundial do Livro quase aí, mas já há festejos ....

   No âmbito do Dia Mundial do Livro que se festeja dia 23, deixo AQUI um apontamento da razão da sua existência. Coisa recente...
   Resolvi entrar na festa,  partilhando o livro que ando a ler . Apresentações para quê ? O autor é cá da casa, entenda-se o espaço dos livros...
   Tinha registado a dissertação sobre a cor da cidade de Lisboa, na página 15, a qual também tinha e tenho por hábito de chamar "cidade branca", por três razões :
1ª. porque gosto do branco. 
2ª por influencia do filme , como refere MdeC.
3ª por ternura pela cidade que realmente de "branca" tem pouco. 

Passo a transcrever o que tão bem o escritor descodifica, o homem que também me fez aprender a cor "magenta", através da leitura do seu livro, "A Sala Magenta". Cor de que parece muito gostar.

"Quanto à cor de Lisboa, de tons sempre variáveis com o fluir das estações e os caprichos dos sóis e das atmosferas, disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é. Basta subir-se ao miradouro da Senhora do Monte, ali a S. Gens, ou ao terraço do Hotel Sheraton, ou àquele enorme edifício azul que fecha a alameda dom Afonso Henriques nos altos da Barão de Sabrosa, ou mesmo ao humilde convés dum cacilheiro, para poder verificar que a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosas-suaves, os verdes esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista. Lá terá as suas brancuras aqui e além, mas estão preciosamente colocadas, para compor o todo.
   Mas isto dos gostos e de cores, parece que não é para discutir. Já foi, mas agora não é para discutir.

...

O que importa asseverar por agora é que,  ainda que a cor magenta não venha nos dicionários, o que quase a candidata à inexistência, lançada naquela rua, desmerece tanta gritaria e intolerância

Sempre gostei de Lisboa. Uma aprendizagem com o tempo e as circunstancias. Não sou lisboeta, mas quase... De cá para lá e de lá para cá, Lisboa/Cascais, mais a itinerância da vida de professora. E foi a atravessar o Tejo, de cacilheiro, durante quatro anos, e que a partir de Maio eu já me bronzeava e olhava apaixonadamente a partir do exterior do barco, a cidade, o Castelo de S.Jorge. Um enamoramento que por ironia do destino ou dos concursos,  atirou comigo e em boa hora , para a escola da freguesia do Castelo, para uma escola desconhecida de muitos e muito bonita, onde fiquei durante 10 anos. 
  Dali, a cidade não parecia branca, mas "grená rugoso dos telhados".

domingo, 8 de abril de 2018

"musas consentidas" . Uma leitura breve mas gostosa no dia de hoje. Assim era Picasso...



Belissimo artigo que CFA * fez para o jornal Expresso desta semana, Revista, sobre a relação de Picasso para com as mulheres, a sua compulsão feminina, misoginia, e o sofrimento dessas mulheres , consentido . "Viver com ele era difícil, mas sem ele era pior . Com Picasso o mundo era a cores, sem ele reinava o cinzentismo".
Para além da obra pictórica que sempre me arrastou para um outro além, para além de algum tempo de vida com arte e artista que fez parte de um percurso de vida , e porque há sentimentos transversais aos artistas , em qualquer arte, a sua personalidade sempre me aguçou a curiosidade e o desejo de saber mais.
Comecei há tempo a ler uma grande biografia de Picasso que continuou em stand-by ...

Excerto.

Após uma visita de Marie-Thérése a Dora Maar
....
   - Há muito tempo que me prometes casamento - disse-lhe ela tranquilamente . - (Marie-Therése)
Talvez pudesses tratar do teu divórcio .
   Picasso defendeu-se como podia : tinha sessenta e um anos. Já não tinha idade para casar. foi então que apareceu subitamente Dora. Ela queria intervir na discussão, mostrar que a questão do casamento  de Pablo com Marie-Thérèse nem sequer se punha :
   - Mas então Picasso, tu amas-me - dizia-lhe ela.
    Então Picasso, que se sentia intimidado a escolher, aplicou o golpe de misericórdia a Dora e disse-lhe :
   - Dora, sabes bem que a única que amo é Marie-Thérèse , aqui presente ...
    Esta última tirou da declaração do amante a força necessáriaa para dizer a Dora, apontando-lhe a porta:
   - E agora, saia !
   Que se iria passar? Picasso saboreou aquele instante.
    Dora recusou sair.
Marie-Thérèse voltou a pressioná-la.
Nova recusa.
As das mulheres empurram-se violentamente e deram uma bofetada uma à outra.
Mas Marie-Thèrèse, que fazia ginástica e tinha uma musculatura mais desenvolvida, era decididamente mais forte.
   Um empurrão lançou Dora para o patamar e a porta fechou-se com um estrondo.
   E em seguida ?
   Em seguida, nada se passou. Marie-Thérèse, depois de ter  ouvido Pablo dizer-lhe: «Sabes o  quanto te amo», fórmula em que não era avaro, restava-lhe descer, como habitualmente, as escadas do metropolitano, onde se juntava à enchente de passageiros ... Dora voltou para a Rue de Savoiene deitou-se na cama. Choraria durante muito tempo.
No dia seguinte, Pablo telefonou a Dora Maar para o ritual do almoço no Catalan, como se não tivesse passado nada. Mas, no fim de contas, segundo as suas pr´prias palavras, não são as mulheres«máquinas de sofrer»?



...

Eu,  acrescento no dia de hoje, querido Pablo, 45 anos após a tua morte, 8 de Abril de 1973,  meu" monstro" de duplo sentido, que a relação homem/mulher , mudou . Não tanto como o desejado, mas as relações sadomasoquistas e outros sentimentos,  fazem parte da natureza humana ...
Já fiz viagens para ver exposições tuas. Para esta em Londres não dá....  Na minha tão gostosa Tate. Aguardo o catálogo. 


* Clara Ferreira Alves
Imagens do texto na Revista do Expresso.

Excerto do livro PICASSO, de Henry Gidel

sábado, 7 de abril de 2018

"Os que amei onde estão ?"


Hoje, a freguesia de São Miguel do Rio Torto, concelho de Abrantes, homenageou dois filhos da terra. 
Ambos dois bons amigos, mas Fernando Catroga, de muito longa data, assim como sua mulher, a minha mais antiga e única amiga de adolescência, a Ana.  Sou um "bibelot" que de tempo a tempo enfeita a sua casa e partilha emoções. Por isso, não posso deixar passar este dia em branco, no qual também fui atirar o meu foguete. 
Deixo-vos o texto e poema de Antero que Fernando Catroga leu à porta da casa onde nasceu , assim como seu irmão Eduardo. Esta a sua ideia de pertença. Uma pérola.





 Esses que amei

         Pode-se ter dúvidas sobre o sentido da vida, mas elas diminuem quando existe um diálogo sadio com as nossas raízes. A “terra dos pais” é a nossa primeira pátria e alicerce da nossa “Pátria Grande”. E não se pode esquecer que ter pátria é ter memória, pois cada ausente traz consigo, colado à sola dos sapatos, o pó do solo sobre o qual aprendeu a cair, para se levantar do chão e caminhar de novo. E quem fica a amar a terra que o fez nascer nunca sai, verdadeiramente, do sítio de onde partiu.
De certo modo, ele é a nossa “mátria”, significado que a simples, densa e telúrica expressão a “minha terra” bem exprime. Daí que, mesmo nos casos em que esta foi ingrata para muitos dos seus filhos, perdure uma sensação de dívida e de gratidão para com um lugar simultaneamente físico e simbólico, revivificado pela sucessão das gerações, mas também pelas lições de futuro que podem ser bebidas na evocação do melhor do seu passado.
Por tudo isto, ao deambular por estas ruas, e ao olhar para as marcas do tempo inscritas nas rugas das casas e nos rostos de quem as habita, também vejo o invisível, e, seguindo o magistério de Antero de Quental, dou por mim a perguntar:

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
levados, como em sonho, entre visões,
na fuga, no ruir dos universos…

 Mas se páro um momento, se consigo
fechar os olhos, sinto-os a meu lado,
de novo. Esses que amei: vivem comigo,

vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
juntos no antigo amor, no amor sagrado,
na comunhão ideal do eterno Bem.

sexta-feira, 30 de março de 2018

dias a vosso jeito...

Meus dias andam por aí... 
Navegando.

Dias a vosso jeito.

sábado, 24 de março de 2018

Para o fim de semana, dou-vos um verso



O rouxinol não sabe
que o seu canto
é  verde

Alberto Martins

(Rouxinol-do-Japão )

terça-feira, 20 de março de 2018

Dia Mundial Da Poesia - Portugal -




    Portugal
    Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
    oitocentos
    Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
    África
    só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
    e nunca mais voltasse
    Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
    que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
    e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
    Portugal
    Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
    (que os meus egrégios avós me perdoem)
    Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
    Anda na consulta externa do Júlio de Matos
    Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
    aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
    rosas
    Portugal
    Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
    Império
    mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
    Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
    das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
    Portugal
    Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
    Sabes
    Estou loucamente apaixonado por ti
    Pergunto a mim mesmo
    Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
    mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
    e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
    Portugal estás a ouvir-me?
    Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
    de ressentimentos
    um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
    Portugal
    Sabes de que cor são os meus olhos?
    São castanhos como os da minha mãe
    Portugal
    gostava de te beijar muito apaixonadamente
    na boca




    jorge de sousa braga

Escolha de Pedro Mexia, para a efeméride , no Express Diário de hoje.