Mostrar mensagens com a etiqueta José Gomes Ferreira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Gomes Ferreira. Mostrar todas as mensagens

sábado, 28 de novembro de 2015

Uma sugestão e um bom fim de semana



Belíssima exposição individual , na Barbara Gallery,  Lisboa, do fotografo, Arno Rafael Minkkien , nascido da Finlândia em 1945. AQUI
Não sei se será este o tema, mas não deve andar longe. Irei. Vai estar até Janeiro.


Viver sempre também cansa!

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."


José Gomes Ferreira

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

"porque a Poesia é mortal.... "

É curioso. Com a velhice (ou melhor: com esta aparência branca de velhice nos cabelos), os amigos antigos afastaram-se (onde estais e que mal vos fiz?) e começo a ser esquecido... postergado... Ah! Sinto-o bem.
Dantes a velhice era uma atracção. Agora, não passa do começo da morte .
                
                       *

No entanto sinto que arde misteriosamente, não sei onde, um rastilho qualquer independente de mim - que faz vender os meus livros de Poesia.
E ainda bem que os vejo vender em vida, porque a Poesia é mortal - e a labareda que os acende morrerá comigo.

José Gomes Ferreira, em Passos Efémeros, 20 de Dezembro de 1966

E ainda era tão novo...

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Leituras breves... «Os Josés»...

21 de outubro de 1965

Na República 17 de Outubro o Alberto e eu éramos alternadamente eleitos Presidentes... Numa das ocasiões em que eu chefiava o o Estado, aproveitei a ausência do Alberto em férias e zás, proclamei-me  Ditador... Até mandei cunhar moedas especiais: os «Josés»!!!
O poder, mesmo teórico, apodrece as almas e as convicções! (Nessa altura eu era romanticamente republicano à Victor Hugo.)
Os «Josés»... Coro de vergonha atrasada.

José Gomes Ferreira, em Dias Comuns-1

domingo, 13 de outubro de 2013

Leituras breves.Olhares. José Gomes Ferreira. Sub ou sobrevalorizado....?

 13 de outubro de 1965

Releitura de Cesário, antes de me entregar ao imbecil trabalho de todos os dias:
      
Se eu não morresse nunca! E eternamente
buscasse e conseguisse a perfeição das coisas.

Das coisas - notem bem - que depois, por sua vez, talvez aperfeiçoassem o Homem.
Fotografias tiradas em Monserrate, Sintra.

Excerto de texo de José Gomes Ferreira, em Dias Comuns -1

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Asas do desejo...

4 de Julho de 1966

   Esguedelhado na desordem geral das escolas, modas e experiencialismos literários, pela primeira vez sinto na pele a desilusão do desejo ardente de me isolar e seguir, humilde, as pegadas do meu pequenino rasto, para não me perder na tempestade de areia...
   Pela primeira vez, vou talvez recitar o conhecido monólogo que começa invariavelmente por esta frase de meditação tola:
- Eu que estou acima das escolas...
Ah! mas que pena as asas servirem, quase sempre, para fugirmos do mundo!

De José Gomes Ferreira, em Passos Efémeros, Dias Comuns-1

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Faz hoje 45 anos que José Gomes Ferreira escreveu no seu diário. As palavras dos outros

6 de junho de 1965

Reunimos-nos todas as tardes na cave do Martinho - por necessidade de família fora da família.
Núcleo principal: o Abelaira, o Carlos, o Nikias, eu...
Muitas vezes o Manuel de Azevedo - leonino de  barba por rapar, desgravatado... Outros, o gigantão Baptista-Bastos cujos« soglans» indiscutivelmente contaminaram o actual  jornalismo portugês de sabor sensacional.
Volta e meia também vimos descer a escadaria o magramente solene Pinheiro Torres, de óculos desconfiados e pasta larga debaixo do braço.
O Magalhães Godinho aparece também com os seus trocadilhos de meia hora de férias diárias. Mas nenhum de nós quer ouvir trocadilhos! Só nos interessa discutir as últimas  notícias dos jornais, dissecar os boatos políticos, comparar opiniões sobre sobre o livro recém- saído...
Por fim, o Manuel Azevedo leva-nos de carro...
Tudo tão espectral, mesmo no momento  em que a vida se desenrola - objectiva e papável.

In, Passos Efémeros, Dias Comuns- 1
De José Gomes Ferreira
Publicações D. Quixote

Óleo de Nikias SkapinaKis, "25 de Abril", 1974


sexta-feira, 24 de maio de 2013

Basta! Basta! Basta! Bom fim de semana



Quero voar
-mas saem da lama
garras de chão
que me prendem os tornozelos.

Quero morrer
-mas descem das nuvens
braços de angústia
que me seguram pelos cabelos.

E assim suspenso
no clamor da tempestade
como um saco de problemas
-tapo os olhos com as lágrimas
para não ver as algemas...

Mas qualquer balouçar ao vento me parece Liberdade.