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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Pelo novembro dentro entra Rodrigo Leão

Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge Sousa Braga, Portugal


domingo, 1 de novembro de 2015

Poema de Finados

Óleo de Vincent Van gog
POEMA DE FINADOS

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

© MANUEL BANDEIRA
In Libertinagem, 1930 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

"és uma fonte de inspiração"...

Fotografia de Erwin Olaf


És uma fonte de inspiração como rodilhas de cozinha
para um fotógrafo gasto pela película velha de uma azinheira
em combustão. Ah, se eu sei como buscas crédito
entre os fantoches de um palco carcomido e pouco iluminado
como mandam os bons costumes de uma decadência encenada.
Escreveres, lá isso escreves, como quem limpa o cu,
como se fosse uma ardósia de maus costumes (e tu achas isso
adorável!) e esperas que te aplaudam ao som de brindes
dos novos gins num strip-tease que a idade, as mamas
de plástico e os cabelos engraxados não perdoam. Ai, prosador
de piscinas vazias pelos calotes tu sabes que um verso
é tão doloroso como a falta de hábito de ter tesão. Lamento por ti!
Mas isto de andar pelo mundo quando o mundo já passou
por ti sem que te desses conta não é fácil. É bom ver-te
ao longe nas festas das abóboras endinheiradas a falares de penicos
como quem enche a boca de genialidades literárias
ou frequentares os salões dos prémios na esperança que te toque
um ramalhete de clitóris rapados e surja na ponta
dos teus dedos repletos de artroses o texto sublime
para a antologia das alfaces voadoras e brasonadas
que tantas noites de insónia te provocaram nessa dolorosa
cama de pregos. O teu charme irresistível
de principezinho na reforma perde-se no teu sexo em vírgula
murcha com o valor da pausa que já não controlas.
Escreveres assim já não é tão natural como a tua sede.
Ólarilolé!
Luís Filipe Sarmento, «Gabinete de Curiosidades», 2015 ( surripiado no FB, porque muito gostei.)

terça-feira, 22 de setembro de 2015

olhares. .terras do Barroso, Tourém



Poema da Lavadeira

Lava, lava, lavadeira,
Com a alma, com a mão.
Água canta na torneira
Sua líquida canção.

Lava, lava, lavadeira,
Sem descanso, sem razão.
Sua história verdadeira
Escreve-se com sabão.

Água canta na torneira
Sua líquida canção,
Lava, lava, lavadeira,
Com a alma, com a mão.

A manhã é transparente,
Brilha o sol com seu calor.
Tanto sonho de repente
Misturado com suor.

Lava, lava, lavadeira,
Sua roupa-ganha-pão,
Você tem a vida inteira,
Pra cumprir sua missão.


Cícero Alvernaz

Poema tirado do blogue ATRIUM MEMÓRIA, ASSOCIAÇÃO CULTURAL.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Aquele mar...

AQUELE MAR

Aquele mar da minha infância,
bom camarada e meu irmão
a sua voz, o seu olor, sua fragrância
tanto os ouvi e respirei
que trago em mim o seu largo ritmo,
seu ritmo forte,
como se as praias onde espuma
quase me fossem
praias sem fim dentro de mim
ocultas praias, largas praias
do tumultuoso coração…
Aquele mar
meu confidente de horas idas
tudo escutava e adivinhava
do meu pueril e ingénuo anseio.
Nada sonhei que o não dissesse
– frémito de alma, grito ou prece –,
às madrugadas e aos poentes,
ao sol, às nuvens, ao luar,
ora nascendo, ora morrendo
nos longos, longos horizontes
em que se perdia o meu olhar…
Aquele mar
na calma azul, no temporal,
nunca mentia: era um só beijo,
hálito puro, largo harpejo
que me entendia e respondia
no seu inquieto marulhar…
Moço e menino, solitário,
rochas, falésias, areais
eu coroava-os de alegria
nos meus passeios matinais.
Ou nalgum barco pescador,
velas abrindo a todo o pano,
do oceano então era senhor,
largava a escota, navegava,
no vão desejo de aventuras,
que não chegava a realizar…
Mas era meu, e eu pertencia-lhe,
àquele mar,
era seu filho, escravo e dono,
sorria à sua Primavera,
amava a luz do seu Outono,
o vivo lume dos estios
a violência dos Invernos
longos clamores de temporais.
Aflito voo das gaivotas
junto das negras penedias,
também como ele me perdias,
nas tardes tristes e sombrias,
na bruma gélida das noites…
E a eternidade então ouvia
humano sonho sempre esquecido
na eterna voz que fala o mar.




NOTA: Edição de “Mar Alto” – Figueira da Foz,

1 de Junho de 1969, no dia da Festa da Cidade ao poeta. (que era figueirense)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

"Exausta de amar"...





Exausta de amar me reclino

no amparo desse abraço feito tempo

olhando as horas que galgam líquidas

por sobre as pedras da vida

escondo-me no regaço do tempo passado

choro a forma como ele me enlaça me abraça

exausta de amar recuo e me redimo

dessa pressa com que treslouca corri

sem parar por um momento persegui

 estrelas cadentes  astros brilhantes

luas vermelhas sonhos ardentes

 sem vacilar me entreguei

sem temer mergulhei

sem vergonha tomei

sem contar perdi

a conta ao que vivi

ib (Isabel Bento), boa amiga, in FB

terça-feira, 12 de maio de 2015

Esteban Vicente...


... criador de estados de alma tão diferentes e sombrios...

Vieste como um Barco Carregado de Vento

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo 
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa 
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste 
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro 

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste, 
se partiste, 
que dentro de mim se acanham as certezas e 
tu vais sempre ardendo, embora como um lume 
de cera, lento e brando, que já não derrama calor. 

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar 
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes; 
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha: 
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar, 
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam 
no cais como se transportassem no corpo o vaivém 
dos barcos. Dizem-me os seus passos 

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam 
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei 
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde 
para quase tudo. Por isso, vou para casa 

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite. 

Maria do Rosário Pedreira, in 'O Canto do Vento nos Ciprestes' 

domingo, 8 de março de 2015

Mulher...

"a fotografia não é feliz"... (in Jornal Expresso)
Neste dia Mundial da Mulher, tanta coisa para pensar...

Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.

Daniel Faria

sexta-feira, 6 de março de 2015

para a Mãe do "mensageiro"... o tal anjo...

ONDE ESTÁ A MÃE?
A Mãe está onde está a camisa púrpura
e onde a tempestade sacode a espuma dos gerânios.
Onde se apagou a lareira e esse fogo bom
na parede dos ossos. Está no musgo que cresce
nos velhos pinheiros de onde a noite pende.
A Mãe está nas arestas do corpo onde
o toiro respira e se espreguiça a andorinha.
Onde a ansiedade apoquenta, onde resvala
o coração sujo de melancolia, negro,
negro como o motor de um corvo. Está
no Livro da Morfina, nos tocadores de viola
com grandes pés de anjo e nos operários construindo
paredes de lume em andaimes de cinza.
A Mãe está onde o moinho escondido
trabalha no peito com a roda do olhar.
Onde ainda arde a madeira verde das estrelas.
Onde o tiro parte e se agita o vento. A Mãe
está na noite que vaza as veias por uma ferida
no ventre. No parto dos pássaros. No som
dos ossos quando partem. A Mãe está nua
interrogando-se como um navegador sem sexo
onde o cão lambe o medo desses peixes azuis.
Na insatisfação e no martírio de uma água inteira.
Nas margens da minha cabeça. No aroma fixo
dos espelhos. A Mãe está na viagem das semanas.
No pólen e na rede. Na pedra parada. Na pedra que voa.
Está na paixão dos olhos. Nos bosques do sangue,
nas clareiras do sangue, na chuva em catedral.
A Mãe está no crime dos heróis. Nos joelhos
do rio. Na cama, na doce cama dos salgueiros.
Nos riachos do orvalho. No lume da cebola. A Mãe
está nos ombros de cada um dos meus instantes.
Onde a emoção se diz e se suspende. Onde
a noite e a língua se observam. Onde nascem
equilíbrios. Onde os crânios e as lâmpadas arriscam.
A Mãe está nos pulmões do meu abismo. Está
no lenço rasgado das roseiras. E na ira do frio.
No chicote das palavras. No silvo. No sítio
do poema. Onde tudo é brusco e arde. Aí,
nessa carne da dúvida, sem dúvida, está a Mãe.
*
in 125 POEMAS e O POUCO É PARA ONTEM, Joaquim Pessoa

quinta-feira, 5 de março de 2015

Leituras breves... mas profundas

Harold Gilman, Mãe e Filho, 1900
Pequeninura do morto e do vivo

O morto abre a terra: encontra um ventre

O vivo
abre a terra : descobre um seio

Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

"creio que tudo é eterno num segundo"...

CREDO

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na Deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.


Natália Correia
Pintura de Picasso

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

... "nenhum gesto a um gesto corresponde"...

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.
E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,
de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum –
– que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, Desencontro, poema

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

como eu gosto dos homens...

    
Jean Flandrin Hippolyte ( 1809-1864) , Jovem nu sentado à beira-mar, 1836 Museu do Louvre
.
Gravatas amadas, gravatas odiadas, mas como eu gosto mesmo dos homens.... Nuinhos e à beira-mar sentados... 
E, tudo parece ter vindo da China. AQUI, ou,  outrora, não fossem os chineses os vendedores de rua por excelência ,de "glavatas balatas".
Quem por Coimbra passou ou viveu, sabe bem disso.

               Em Todas as Ruas te Encontro

.....
Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco 

Mário Cesariny, in "Pena Capital" (excerto)



quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

87 belos anos, hoje, os de minha Mãe

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apagas
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

sexta-feira, 21 de março de 2014

Olhares com poesia...


Ontem andei a fotografar a Primavera já instalada e despedir-me do Inverno. 
Por aqui, todas as estações do ano são belas, mas o Outono e a Primavrera, deslumbram.

Hoje é o dia Mundial da Poesia... Sinto-lhe o cheiro através da audição... Metáfora? Claro. Maior metáfora da vida que a dos poetas e sua poesia?
Olhem, é só a minha opinião...

Escolho hoje um poeta amigo, apesar de virtual, mas muito querido, que podem visitar AQUI.


UMA FLOR VERMELHA NAS PAREDES DO CAIS

Não sei quem és
mas pelos gestos vieste por bem
rasgar o vento com as mãos
a neve dos meus cabelos
e eu cansado de florestas apócrifas
das palavras em bando
comecei a plantar árvores
vi os pássaros regressarem
em acordes
a luz das noites que não dormem

na partilha de horizontes
o amor é revolucionário
voa nos mastros mais altos
garatuja búzios de sons
intervém por causas
muito para lá das utopias
e se levanta resiste
ao pôr do sol
mesmo que os barcos entristecidos
estilhacem
nos espelhos da água
algumas pedras com vida por dentro

registo por um instante
o ar que se move

pinto com a boca
na tua boca

uma flor vermelha
nas paredes do cais

Eufrázio Filipe, também poeta

Fotos, Jardim dos Passarinhos, Monte Estoril

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Angústia... uma palavra que nos vai acompanhar neste findar de ano.... para o próximo, encontraremos outro adjetivo

                                                        "Angustia" de Paul Klee

Esta Velha Angústia
Esta velha angústia, 
Esta angústia que trago há séculos em mim, 
Transbordou da vasilha, 
Em lágrimas, em grandes imaginações, 
Em sonhos em estilo de pesadelo sem terror, 
Em grandes emoções súbitas sem sentido nenhum. 

Transbordou. 
Mal sei como conduzir-me na vida 
Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma! 
Se ao menos endoidecesse deveras! 
Mas não: é este estar entre, 
Este quase, 
Este poder ser que..., 
Isto. 

Um internado num manicômio é, ao menos, alguém, 
Eu sou um internado num manicômio sem manicômio. 
Estou doido a frio, 
Estou lúcido e louco, 
Estou alheio a tudo e igual a todos: 
Estou dormindo desperto com sonhos que são loucura 
Porque não são sonhos. 
Estou assim... 

Pobre velha casa da minha infância perdida! 
Quem te diria que eu me desacolhesse tanto! 
Que é do teu menino? Está maluco. 
Que é de quem dormia sossegado sob o teu teto provinciano? 
Está maluco. 
Quem de quem fui? Está maluco. Hoje é quem eu sou. 

Se ao menos eu tivesse uma religião qualquer! 
Por exemplo, por aquele manipanso 
Que havia em casa, lá nessa, trazido de África. 
Era feiíssimo, era grotesco, 
Mas havia nele a divindade de tudo em que se crê. 
Se eu pudesse crer num manipanso qualquer — 
Júpiter, Jeová, a Humanidade — 
Qualquer serviria, 
Pois o que é tudo senão o que pensamos de tudo? 

Estala, coração de vidro pintado! 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pess
o
a

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Entre "UMA VEZ" e outra vez, alguma vez há-de ser "ERA"...



SOFIA E CARMO

Pudesse eu levar-te sempre flores
àquele lugar enfeitado de saudade
onde adormeces
companheira de eternidade
de minha irmã levada antes do tempo

Lugar que parece só eu conheço
alguns seixos e conchas de mar enfeitam a tua pedra nua


ouvi dizer que te vão levar dali
e outros poderão levar flores também
(nada mais justo)

porém... cada vez que eu subir essa colina e ficar por ali a meditar
junto daquele moinho arruinado
vou recear
que ela se sinta mais sozinha
e já não digam poemas ao luar
Poema de , ERA UMA VEZ... mas eu sei o seu nome verdadeiro. Força, amiga . Espero sempre por si...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

"espera-me uma insónia do tamanho dos astros"...

InsóniaNão durmo, nem espero dormir. 
Nem na morte espero dormir. 

Espera-me uma insónia da largura dos astros, 
E um bocejo inútil do comprimento do mundo. 

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite, 
Não posso escrever quando acordo de noite, 
Não posso pensar quando acordo de noite — 
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite! 

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer! 

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo, 
E o meu sentimento é um pensamento vazio. 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam 
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo; 
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada, 
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo. 

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro. 
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo. 
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda. 
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer, 
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir. 

Estou escrevendo versos realmente simpáticos — 
Versos a dizer que não tenho nada que dizer, 
Versos a teimar em dizer isso, 
Versos, versos, versos, versos, versos... 
Tantos versos... 
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim! 

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir. 
Sou uma sensação sem pessoa correspondente, 
Uma abstracção de autoconsciência sem de quê, 
Salvo o necessário para sentir consciência, 
Salvo — sei lá salvo o quê... 

Não durmo. Não durmo. Não durmo. 
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma! 
Que grande sono em tudo excepto no poder dormir! 

Ó madrugada, tardas tanto... Vem... 
Vem, inutilmente, 
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta... 
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste, 
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança, 
Segundo a velha literatura das sensações. 

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança. 
O meu cansaço entra pelo colchão dentro. 
Doem-me as costas de não estar deitado de lado. 
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado. 
Vem, madrugada, chega! 

Que horas são? Não sei. 
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio, 
Não tenho energia para nada, para mais nada... 
Só para estes versos, escritos no dia seguinte. 
Sim, escritos no dia seguinte. 

Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte. 
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora. 
Paz em toda a Natureza. 
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras. 
Exactamente. 
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras. 
Costuma dizer-se isto. 
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece, 
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece. 
Exactamente. Mas não durmo. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa
Óleo de Edward Hopper, Morning in the Sun