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Duas cartas e sete perguntas para Drummond
Jornal Tornado
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quarta-feira, 31 de outubro de 2018
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Armando Silva de Carvalho , 1938-2017, - o poeta -
W.C.
Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.
Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma.
Armando Silva Carvalho, in 'Sentimento de um Acidental'
Peça do Museu de Arte Nova de Aveiro, as minhas fotografias
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.
Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma.
Armando Silva Carvalho, in 'Sentimento de um Acidental'
Peça do Museu de Arte Nova de Aveiro, as minhas fotografias
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8-2017,
Armando Silva de Carvalho,
poeta,
VA,
vao do sec. XIX
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
O pintor e poeta que foi cantado por José Afonso . António Quadros.
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| Pintor António Quadros (1933-1994 ) AQUI |
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| Riscos, Rabiscos e Sarrabiscos, Homenagem a Eduardo Luís (o amigo Oliva) , 1992 |
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| Torcinário Depondo Troféus No Altar da Pátria, 1972 |
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| Velha Gaiteira com Chave, 1980 |
Guardei a sua postura e forma de vestir pela diferença que fazia. Boina, cabelo grande, óculos de massa e camisa de fazenda aos quadrados como a dos pescadores.
Quando conheci Zeca e soube das afinidades com o pintor e poeta, imaginei-os "clones"um do outro.
Os feitios de ambos também não eram fáceis...
"Vida", dirá o meu amigo Oliva, a viver em Viseu e a quem António Quadros dedica o primeiro quadro que aqui vos deixo.
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terça-feira, 24 de março de 2015
" e assim as árvores chegam ao céu", Herberto Hélder. 1930-2015
«Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue.»
(...) A costura cirúrgica da garganta é sinónima da corola cesariana. É pela boca que se manifesta o poder do corpo, no corpo reside o poder da linguagem poética. Herberto Hélder é o poeta que mais longe foi na exploração das potencialidades metafóricas da linguagem do corpo, que, o mesmo será dizer, mais longe foi na exploração do desejo.
in «DIÁRIO POPULAR», 28/09/1978
A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
(...)
Sou os mortos - diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu.
HH, «Húmus», 1966/67 (introdução do livro O CORPO O LUXO A OBRA )
quinta-feira, 12 de março de 2015
olhando ou não as pedras da calçada...
Ninguém Meu Amor
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
.
Sebastião Alba, in ‘A Noite Dividida’
Hoje foi dia de lição nova para mim, pois não conhecia Sebastião Alba. E tudo aconteceu AQUI.
O inconformista, é para mim a pedra solta na calçada, na qual eu tropeço mas não caio e me deixa a pensar ....
domingo, 27 de abril de 2014
Vasco Graça Moura (1942-2014), o poeta, o intelectual... *
Soneto do amor e da morte
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura
* Do que eu não gostava, ele saberia porquê...
(imagem cujo autor perdi )
Poema retirado do mural de Manuel Monteiro via FB
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Vasco Graça Moura
sexta-feira, 4 de abril de 2014
ei-los que partem...1949-2014
Memória descritiva
E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.
[Longe do mundo; frenesi, 2004]
Sul
O Sul não existe.E ninguém o explicou melhor que Montalbán.
Terá sido inventado pelos povos do Norte, e posto à venda pelas agências de viagens.
Também não fui indiferente ao Sul.
Mesmo que ele não fosse mais do que uma palavra.
Ataviei-me de cores e de cheiros minuciosamente elaborados na Beira, e parti para o Algarve.
O Sul.
Cedo me dei conta de que havia mais sul a Sul.
Mas apenas transpus o Estreito, seguindo a rota delineada pelos profetas da minha geração.
Paradoxalmente, esse outro Sul, a sul das praias de Tarifa, apenas me devolvia ao Norte.
Neste caso, o de África.
Os labirintos sempre me fascinaram, mas eu preferia mil vezes partir à procura do fim do arco-íris, do que decantar os vasos comunicantes do horizonte.
[Longe do mundo; frenesi, 2004]
Palavras de Jorge Fallorca que partiu para um mundo sem livros... AQUI, ou não?
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