domingo, 11 de março de 2018

Bom domingo. Para e ler... (Herberto Helder )

herberto
(Publico este poema a pedido de uma leitura desta página que, argumentou, que em certas alturas a política lhe causa tédio. E tem razão. Este fim de semana a Dona Cristas têm-nos enchido os horizontes do olhar, e o tédio surge; não por ela ser mulher, mas talvez por ela querer fazer política repetindo e mesmo amplificando todos os vícios que podem ser assacados aos homens. Por isso aqui fica Herberto e a mulher, essa mulher com que muitos sonham mas que poucos almejam encontrar.
Estátua de Sal, 11/03/2018)

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas –
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.
Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.
Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
– Então cantarei a exaltante alegria da morte.
Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
– Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.
Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo –
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.
Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.
Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.
Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.
Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.
Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.
Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
– o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.
Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
– E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.
Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
– No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.
Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
– aspiram longamente a nossa vida.
Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
– no amor mais terrível do que a vida.
Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.
De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável –
em cada espasmo eu morrerei contigo.
E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água – e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Leitura do blogue Estátua de Sal

sexta-feira, 9 de março de 2018

quinta-feira, 8 de março de 2018

efeméride ou nem por isso , 8 de Março

QUANDO LÉLIA TRABALHA

Quando Lélia trabalha , a vender o seu corpo ,pagam-lhe pouco ou pagam-lhe com uma sova. E quando rouba , os polícias roubam-lhe o que ela roubou além disso roubam-lhe o corpo. Diz Angélica , dezasseis anos , atirada para a rua da cidade do México :

- Eu disse à minha mãe que o meu irmão tinha abusado de mim , e ela pôs-me fora de casa . Agora vivo com um rapaz e estou grávida. Ele diz que me vai apoiar, caso eu tenha uma menino. Se for menina , não sei.


MULHERES, de Eduardo Galeano
Pintura de Fernando Botero




MÁRMORE QUE RESPIRA

Afrodite foi a primeira mulher despida da escultura grega.
Praxiteles talhou-a com a túnica tombada a seus pés , e a cidade de Cós exigiu que a vestisse . Mas outra cidade , Cnido, deu-lhe as boas-vindas e ofereceu-lhe um templo ; e em Cnido viveu a mais mulher das deusas , a mais deusa das mulheres.
Embora estivesse encarcerada e muito bem guardada , os guardas não conseguiram evitar ainvasão dos que estavam loucos por ela.
Num dia como o de hoje , farta de tanto assédio , Afrodite fugiu .
Mulheres, Eduardo Galeano

terça-feira, 6 de março de 2018

"para que queres cão se não tens pão ? " ou o fungaga da bicharada ...

   Por ser um assunto que me tem passado ao lado , a hipótese de animais de estimação poderem passar a frequentar restaurantes, por estar retida em casa há bastante tempo por questões de saúde muito antipáticas, e por predisposição na noite de ontem para ouvir Pròs e Contras , deixei-me ir até ao fim por aquele paripatético  programa.
   Gosto de animais .   Por ser neta de lavradores e possuidores de vacas leiteiras,  pelo lado paterno, sempre convivi directamente com bois, vacas, porcos galinhas, burros burritos,
Também em casa da minha avó materna, havia cães, galinhas e galos, e uma cabrinha,  que dizem, vinha chuchar no dedo grande do meu pé, quando a minha mãe me punha deitada no chão, de bela perna ao léu . (gostaria de saber se o meu prazer seria o mesma do dito animal ?).... :)
   Lembro-me do rafeiro cão "Pepsodente", que me defendia canideamente das sapatadas da minha mãe. Quantas vezes idealizei que ele me vingasse...
   Virei menina e mulher urbana . Nunca mais houve animais em casa a não ser canários e o recorrente provérbio que continuo a perfilhar, "PARA QUE QUERES CÃO SE NÃO TENS PÃO ? "

   Passaram-se os  anos e um filho surgiu . Com ele, à medida que ía crescendo, alguns animais menores foram passando cá por casa, mas a criança debitava em mim os seus cuidados. Aprendi.
Ao longo da vida privei com pessoas amantes de cães ou gatos, e donos. Relações entre estes bichos,  conheci,  que me faziam imensa confusão . Amores doentios, lutos sem fim , que superava os relacionamentos com os humanos seus familiares. A meu ver e sentir, claro. Aprendi a silenciar mas também a desconfiar e a não alimentar conversas para preservar as amizades...
Desconfiar? Sim, sim. Os donos de cães são tão cegos no amor aos seus animais, que quando se pergunta "morde?", não nunca mordem, ou então aconteceu algumas vezes, mas o bicho continua a passear-se na maior das impunidades  até á próxima dentada. 
   Exemplo. Há uns 12 anos, minha mãe passeava-se tranquilamente com amigos na Nazaré , e um cãozito veio por trás e ferrou-a.  Foi para o Centro de Saúde, os donos do bicho assumiram , e também assumiram que a ´ultima mordidela tinha sido à sogra do Dr. Juíz da Nazaré... Sei , que nunca vi ferida tão feia na vida, demorou meses a fechar  e eu tive quer ir para a Figueira cuidar da minha mãe . Os donos do bicho ainda pagaram os primeiro curativos, depois entraram em calote. Pescadores e safra ía mal.
    Não vos vou falar de pânicos que tive ao encontra-me com cães em ruas desertas por onde tinha que passar e que uma vez telefonei á policia a dizer que queria entra em casa e tinha um pastor alemão á porta. Surrealista. Mas ajudaram-me. (felizmente , esses cuidados de animais á solta a passear, tornou-se raro para os meus lados )
   Resisti ao massacre do meu filho António por volta dos seus 19 /20 anos, que dizia ir trazer um cão cá para casa , de uma raça de  que até gosto muito, Golden Retriver , com veterinário de graça e descontos na alimentação , etc ...  Uma luta. 
   Viver num andar, ir dar aulas cedo para Lisboa, ter já filho na faculdade e eu poder fazer os meus programas pós laboral, ter um cão mesmo de parceria com o António, ir leva-lo a passear de manha , cedo , e pela noite.... Não, gosto de animais ao ar livre, ou com hipótese de nele também poderem viver de parceria com os donos. 
   Também me horrorizam os dispendios com um animal  para manter a sua saúde ou pagar a sua doença . Costumava dizer.... "se ainda a ADSE comparticipasse.... " . Talvez um dia venha a acontecer pela evolução " da humanização dos animais ou vice versa.... 
  Ganhei a batalha cá em casa. Argumentos sem contraditório.
  O António andava na altura a tirar a o seu curso em Tires,  de piloto de LA (PLA) . 
  Disse-lhe : _ Ok. trazes o cão, mas leva-lo para o aeródromo , deixas o animal no carro à tua espera. As condições atmosféricas nem sempre respeitam as horas das aulas de voo. Põe-te no lugar do cão.
Remédio santo. 
Continuo a viver sozinha , não sou egoísta, de modo algum, mas é uma opção e a certeza dos custos de ter um animal . Psicológicos e materiais.
 Talvez um gatinho, um dia, para envelhecer, e que já não dê para me importar com a fase destrutiva das suas unhas felinas . Ou,  então,  um gatarrão de mãos leves e macias e unhas aparadinhas todas as semanas .

  

sábado, 3 de março de 2018

Será sempre dia de festa, faça chuva ou sol ....




Até ontem,  o meu pequeno Gabriel fazia o "V" com os seus dedinhos para dizer que tinha 2 anos. Mas, entretanto foi aprendendo a posicionar os dedos para dizer que hoje já teria 3 anos. 
Netos, são uma benção . Netos, são os filhos do meu filho e da bela mulher que escolheu para mãe dos mesmos e para outros projectos de vida.
Soubesse eu desenhar, sem génio, mas só com algum engenho, à minha maneira, também compulsivamente, pois tenho todo o tempo do mundo, faria como Picaso, que aos 73 anos descobriu o encanto da família e da paternidade, desenhou e pintou os filhos Paloma e Claude , sem parar .



"Il faut être enfant tout sa vie
tout en ètant un homme"
Matisse

sexta-feira, 2 de março de 2018

"Para todas as vossas enfermidades, dou-vos risos."

O que aflitivamente falta no mundo actual é grandeza, beleza, amor, compaixão e liberdade. O tempo dos grandes indivíduos, dos grandes líderes e dos grandes pensadores já passou. No seu lugar estamos a criar embriões de monstros, assassinos, terroristas: a violencia, a crueldade e a hipocrisia parecem inatas. Quando invocamos os  nomes de figuras ilustres do passado tal como Péricles, Sócrates, Dante, Abelardo, Leonardo Da Vinci, Shakespeare, William Blake, ou até do louco Ludwig da Baviera , esquecemo-nos de que mesmo nos tempos mais gloriosos havia inacreditável pobreza, tirania, crimes, inomináveis, os horrores da guerra, malevolência e traição. Bem e mal, fealdade e beleza, o nobre e o ignóbil, esperança e desespero. Sempre. A não coexistência destes extremos naquilo a que chamamos um mundo civilizado parece impossível.
   Se não podemos melhorara as condições em que vivemos podemos pelo menos oferecer uma saída imediata e indolor. Há saída através da eutanásia . Porque é que não é oferecida aos milhões de desesperados e miseráveis para quem não há qualquer hipótese de desfrutar nem sequer de uma vida de cão? Não pedimos para nascer - então porque deve ser-nos recusado o privilégio de sair quando as coisas se tornam insuportáveis? Temos de esperar que a bomba atómica nos liquide a todos em simultâneo ?



 Não quero acabar num tom amargo. Como os meus leitores bem sabem, o meu mote tem sido sempre este: "Sempre alegre e brilhante". Talvez por isso nunca me canse de citar Rabelais : "Para todas as vossas enfermidades, dou-vos risos."

Excerto do belo e pequeno livro de Henry Miller, Viragem aos Oitenta . Um pequeno livro que amo.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Uma escolha de leitura no dia de hoje


DO QUE ANDO A LER
"O que o país quer é um candidato que não se deixe ferir por investigações ao seu passado, para que aos inimigos do partido seja impossível desencantar uma história que não seja de todos conhecida. Se, à partida, se souber o pior acerca de um candidato, todas as tentativas de o surpreender serão derrotadas. Eu vou entrar em jogo como um livro aberto". O país é os EUA, o autor Mark Twain, o ano: 1879. "Um candidato idóneo", de Mark Twain, é um satírico e delicioso livro sobre a política e os EUA de há mais de um século que mostra como há traços que se mantêm. Alguns textos são biográficos, outros sátiras publicadas em jornais da época e ainda um inédito, escritos entre 1867 e 1887, ainda antes de Twain, célebre criador de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, se ter dedicado de corpo inteiro à literatura. Foi jornalista, tipógrafo e ainda teve uma breve incursão pela política. É essa experiência, quando tinha 30 e poucos anos, que testemunhamos. Mark Twain conta como são os vira-casacas nos partidos (ele próprio trocou um candidato do Partido Republicano pelo do Partido Democrata), os "boys" ou as técnicas para não responder aos eleitores (que não soube cumprir quando foi secretário particular de um senador, acabando, claro!, por ser despedido). "Assim que eu tiver terminado o meu inventário de todos os funcionários que há nos vários departamentos, com a descrição das suas funções e o que recebem por elas, verão que não há nem metade dos funcionários que fazem falta, nem os que existem recebem sequer metade do que lhes é devido", conta, por exemplo. Semelhanças com a realidade?a minha leitura do Expresso curto de hoje, a minha escolha.

"
Cronista, Helena Pereira 
A minha escolha no Expresso Curto de hoje

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Maravilhas de 1900 carregadas de premonição


E aqui vos deixo o link das 17 gravuras que faltam de um tempo premonitório do sec. XXI . (aqui)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Efeméride . Carlos Paredes faria hoje 93 anos

(Coimbra, 16 de fevereiro de 1925 — Lisboa, 23 de julho de 2004 )

Pintura de Fernando Botero, "Guitarra"

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Carnaval dos Animais


"Carnaval dos Animais", de João Vaz de Carvalho

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

que o dia que aí vem seja ... a vosso jeito

Noé Sendas (Bruxelas, 1972)
o amor é uma noite a que se chega só

José Totentino de Mendonça

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Para quem ainda vai passando, bom fim de semana .


ALMIRA

estavas sentada frente ao chá
bebias devagarinho
e eu sorvia 
a tua voz de passarinho
o teu olhar brilhante
muito calma
dizias-me sempre repetidamente
sabes eu ainda quero viver muito
não quero morrer já
sabes eu tenho muito ainda para criar 
e sim, eu sabia 
que dos teus dedos nasciam
poemas, desenhos, pinturas
tantas e diversas obras de arte
onde o sonho cabia todo lá dentro
tu eterna menina girassol.

Celeste Craveiro 
imagem: obra de Maria Almira Medina - autoretrato


Hoje, mão amiga do FB, Celeste Craveiro, trouxe á minha memoria, a minha conterrânea Maria Almira Medina, filha do fundador do Jornal de Sintra.
Conheci Almira em inaugurações de exposições suas e a outras coisas ligadas ao mundo das artes. A de poemar, por exemplo.

Obrigada, Celeste. Um destes dias tomaremos um chá em Sintra, com conversas coloridas.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Terça foi dia de fala em "fanado" *

"avançou esta terça-feira a secretária de Estado da Igualdade, defendendo que estes "números dramáticos" Quase 240 casos de mutilação genital feminina foram detetados em Portugal entre 2014 e 2017, têm de ser combatidos intensificando a luta contra esta prática." Expresso de ontem.
Nos últimos três anos, "deu-se conta de 237 casos em Portugal.

* "fanado", excisão do clitóris das mulheres e crianças jovens

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Maravilhas no mundo da dança ... Bom fim de semana

Marcelino Sambé tem 23 anos, é português e foi eleito pela Forbes como um dos jovens “mais brilhantes” da Europa, com a atribuição de um lugar na lista dos 30 jovens abaixo dos 30 anos (30 under 30, como é conhecida), onde estão ainda mais três portugueses. (ler aqui )

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Flores de Georgia para vós . Bom fim de semana...






Georgia O`Keffe viveu a pintar, durante quase um século, e a pintar morreu.

Os seus quadros ergueram um jardim na solidão do deserto.

As flores de Georgia, clitóris, vulvas, vaginas, mamilos, umbigos, eram os cálices de uma missa de acção pela alegria de ter nascido mulher.

sábado, 27 de janeiro de 2018

Eles são Elas.... ( e eu não sabia)


Em 1847, três romances comovem os leitores.
O Monte dos Vendavais, de Ellis Bell, comta uma história devastadora de paixão e vingança. Agnes Grey, de Acton Bell, expõe a hipocrisia da instiyuição familiar. Jane Eyre, de  Crrel Bell, exalta a coragem de uma mulher independente.
Ninguém sabe que os autores são autoras. Os irmãos Bell são irmãs Bronte.
Estas frágeis donzelas, Emily, Anne e Chrlotte, aliviam a solidão escrevendo poemas e romances numa aldeia perdida nos campos de Yorkshire. Intrusas no masculino reino  da literatura, põem máscaras de homens para que os criticos lhes perdoem o atrevimento, mas os críticos maltratam as suas obras rudes, crus, grosseiras, selvagens, brutais, libertinas ...

MULHERES, de Eduardo Galeano

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Para colorir o vosso fim de semana .... Que seja a vosso jeito


Pinturas de Eduardo Luis, nascido em Braga em 198- Paris, 1988)

O ùnico sentido íntimo das cousas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Germana Tânger.... Homenagem


"viverá até se ver"


1ª pintura - O Espelho de Vénus, 1875, óleo sobre tela de Sir Edard Burne-Jones

2ª Espelho "Serpentes", de Rrné Lalique , 1945

3ª pintura , Narciso na Fonte, 1797, de Francisco Vieira

O MITO DE NARCISO
O espelho, indispensável ao autoconhecimento, por dar visibilidade a novas geografias do nosso corpo - immagens de parte do corpo que os nossos olhos não conseguem captar, como o rosto , as costas ou o pperfil -, é simultaneamente traiçoeiro, ao inverter as imagens: para quem olha para o espelho, a mão direita é a esquerda.
Imagine-se que pela 1ª vez se confronta com a sua imagem , Narciso é um caso paradigmático.

Excerto de texto do catálogo sobre a maravilhosa exposição na Gulbenkian, "Do Outro Lado do Espelho"

sábado, 20 de janeiro de 2018

Procuro o homem da capa.... a-len-te-ja-na ....

"O Alentejo está na moda!
O capote alentejano chegou à moda italiana e no último ano já circulou pelas ruas de Florença, nos bastidores de um evento internacional.
Fotografia: The Journal of Style"

Surripiado no FB, a Afonso Albuquerque

Eu acrescento.


Italiano, capote alentejano, mas que mistura mais fina .
E.... veio- me a memoria a minha samarra feita por medida , penso que na rua dos Fanqueiros.
Depois, o meu tique proletário levou - me talvez a da-la a alguém com mais frio do que eu.
E, já agora , onde se pode encontrar este Kit completo sem ir a Itália?
Mamma mia ....

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Não olhes....



Não olhes o meu rosto devastado pela idade
a vida para mim é como se chovesse
mas se viesses seria como se me acontecesse
cantar contigo a perene mocidade

Ruy Belo
Volume of Light, um projeto criativo do fotógrafo Thomas Brown

"Navegação de Cabotagem "

Jorge Amado (excerto)

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Melodias de sempre, serão para trabalhadores ou era uma vez Madalena .... (Eurovisão premiada em 1966 e agora por Savador em 2017)

Para as pessoas da minha geração e a viverem em cidades ligadas ao espectáculo estival, aliado ao pequeno ecrã, único entretenimento em épocas de Eurovisão, em que se ía ao café ou às Associações recreativas ou de Bombeiros, ouvir  o nacional cançonetismo não nos era indiferente.

Madalena Iglesias, Simone, António Calvário, Tony de Matos, Artur Garcia , João Maria Tudela , dos que me lembre, passavam quase 3 meses em espectáculos,  no que foi muito belo Casino da Figueira da Foz. 
Eu, teria os meus 12 anos e também tinha um pequeno e bonito livro de autógrafos vermelho , com um calhambeque desenhado, com o qual eu ía pedir autógrafos  quando passavam ou íam a outro icónico e desaparecido café , O NICOLA .

Esse livro perdeu-se, ou roubaram-mo.... Alguma rival, ciumenta,  de algum membro do grupo musical, que anos mais tarde assentou anos a fio na Figueira e onde todos debitaram a sua dedicatória.... Eles eram uns "rebenta corações"...

Madalena era bonita. O despique com Simone de Oliveira era gostoso, como gostoso era ver duas mulheres bonitas e expressivas. 
Assusto-me.... Dizem que a História só se faz ao fim de 50 anos  e eu já a começo a fazer.

(Vejo neste momento na RTP António Calvário. Não é que está novo para a idade?)



Amores e desamores ...




A grande e única paixão de Erik Satie , que o levou a compor entre 1893-94 "Vexations" , horas infinitas de piano, que em forma de performance, Joana Gama interpretou ininterruptamente, no domingo na Gulbenkian.
Arte sem limite .

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Há treinos e treinos....

Todos os resultados ficam á vista.... :)

Boa semana

sábado, 13 de janeiro de 2018

Um poema para vós e fim de semana a vosso jeito....

mário cesariny / you are welcome to elsinore



Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar


mário cesariny
pena capital
assírio & alvim
1982

Para os amigos que aqui vão passando um enorme abraço. Não tenho visitado as vossas casas virtuais, mas estais no meu pensamento. Logo, a qualquer momento...



quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Concerto de Ano Novo


Hoje, no Centro Olga Cadaval, um Concerto de Ano Novo" sui generis", com o Coral Sinfónico de Portugal. 

Ensaiam 1 vez por mês em Torres Novas , vindos de várias partes do país, pois é onde vive a maestrina .

Esta soprano deixou-me encantada pela sua interpretação e beleza, vestida numa saia preta de blusa vermelha . Sedutora . 
Era proibido fazer fotografias. Mas, à saída , dou-me de caras com ela e saiu-me : " é tão bonita e esteve tão bem que por favor, deixe-me fotografá-la agora".
E assim foi . O meu amigo Nuno Porto , ao lado ficou bem enriquecido.... 
Bem haja.


sábado, 6 de janeiro de 2018

Um poema para quem passa e fim de semana a vosso jeito....

A Concha


A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.      
          
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.      
             
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.         
                
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.      
                 
Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso (1938)

As minhas fotografias

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

A cada uma o seu exorcismo...


"Algumas, num genuflexório e atrás de uma rede escura, confessam-se. Outras, talvez mais sábias, tomam banho e lavam-se. Umas outras ficam limpas e vazias de culpa. Um duche, um banho de imersão, um momento de cavaqueira de peito descoberto. Velhas receitas, boas para tranquilizar"

Felix Vallotton. 1899

Do livro, Receitas de Amor para MulheresTtristes

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Triste, eu? nem por isso....

"Mas que cansaço, não tem um minuto. Mentiras. O que não tem é forças para pensar a vida, calma para sentir como ela corre.
Quando ela não tem tempo, quando ele trabalha muito e mede os segundos como outros medem as horas e os dias, incapaz de se sentar a conversar por um instante, sem ansiedade, não acredites nele. O trabalho é o esconderijo que os homens encontraram para não viverem segundo um ritmo mais humano e mais decente. É a maneira que têm de estar sós sem terem de dizer que querem estar sós. "

Do livro, Receitas de Amor para MulheresTtristes
Pintura de Felix Vallottton, 1898