quinta-feira, 19 de março de 2015

quarta-feira, 18 de março de 2015

a poesia anda á solta... por aqui e não só...






A poesia vai
 
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
 
Manuel António Pina

terça-feira, 17 de março de 2015

o meu médico de família , diz-me o mesmo...


... e,  os entupimentos hospitalares, não foram só questões virais próprias do frio...
    Morre-se e adoece-se de desamor.

domingo, 15 de março de 2015

Afinal é tão simples o que parece complicado ... é uma questão de "códigos"...


O Simples e o Complicado

As pessoas não querem que se lhes dê lições. É por isso que não compreendem agora as coisas mais simples. No dia em que o quiserem, verificar-se-á que são capazes de compreender também as coisas mais complicadas. Até lá, as instruções são: continuar a trabalhar, discutir o menos possível. Com efeito, só poderíamos dizer a um indivíduo: você é um imbecil, a outro: você é um patife, e há boas razões que excluem a realização expressiva de tais convicções. Sabemos, de resto, que estamos diante de pobres diabos, que receiam por um lado chocar, prejudicar as suas carreiras e que, por outro lado, se encontram acorrentados pelo medo do que está recalcado neles próprios. Teremos de esperar que todos eles morram ou se tornem lentamente minoritários. De qualquer maneira, o que acontece de fresco e de novo é a nós que pertence. 

Sigmund Freud, in 'As Palavras de Freud' 

sábado, 14 de março de 2015

Bom fim de semana


E só hoje reparo
O labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu
Pássaros brancos
vão pousando
na varanda dos teus olhos
Só hoje enfrento o sol
fogo imóvel,
labareda de água
Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol
Mia Couto

quinta-feira, 12 de março de 2015

olhando ou não as pedras da calçada...

Ninguém Meu Amor

Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
 .
Sebastião Alba, in ‘A Noite Dividida’

Hoje foi dia de lição nova para mim, pois não conhecia Sebastião Alba. E tudo aconteceu AQUI.
O inconformista, é para mim a pedra solta na calçada, na qual eu tropeço mas não caio e me deixa a pensar ....

quarta-feira, 11 de março de 2015

olhares que se multiplicam pela cor e pela forma...


.... é assim o prenúncio da primavera.

Desta janela de ar e ansiedade
podemos ver compor-se a primavera
lentamente por cima das casas

Gastão Cruz, Sustenido -2
as minha fotos bem aqui ao pé de casa

segunda-feira, 9 de março de 2015

a repetição do acto...

"Tenta sempre. Falha sempre.

Não interessa. 

Tenta outra vez, falha outra vez,

falha melhor"...

Samuel Beckett



Talvez um dia acertes..


Óleo de Pedro Pascoinho

domingo, 8 de março de 2015

Mulher...

"a fotografia não é feliz"... (in Jornal Expresso)
Neste dia Mundial da Mulher, tanta coisa para pensar...

Há uma palavra pessoa
Uma palavra pregada ao silêncio de dizer-se como nunca fora ouvida
E nela dizer-se posso existir.

Daniel Faria

sexta-feira, 6 de março de 2015

para a Mãe do "mensageiro"... o tal anjo...

ONDE ESTÁ A MÃE?
A Mãe está onde está a camisa púrpura
e onde a tempestade sacode a espuma dos gerânios.
Onde se apagou a lareira e esse fogo bom
na parede dos ossos. Está no musgo que cresce
nos velhos pinheiros de onde a noite pende.
A Mãe está nas arestas do corpo onde
o toiro respira e se espreguiça a andorinha.
Onde a ansiedade apoquenta, onde resvala
o coração sujo de melancolia, negro,
negro como o motor de um corvo. Está
no Livro da Morfina, nos tocadores de viola
com grandes pés de anjo e nos operários construindo
paredes de lume em andaimes de cinza.
A Mãe está onde o moinho escondido
trabalha no peito com a roda do olhar.
Onde ainda arde a madeira verde das estrelas.
Onde o tiro parte e se agita o vento. A Mãe
está na noite que vaza as veias por uma ferida
no ventre. No parto dos pássaros. No som
dos ossos quando partem. A Mãe está nua
interrogando-se como um navegador sem sexo
onde o cão lambe o medo desses peixes azuis.
Na insatisfação e no martírio de uma água inteira.
Nas margens da minha cabeça. No aroma fixo
dos espelhos. A Mãe está na viagem das semanas.
No pólen e na rede. Na pedra parada. Na pedra que voa.
Está na paixão dos olhos. Nos bosques do sangue,
nas clareiras do sangue, na chuva em catedral.
A Mãe está no crime dos heróis. Nos joelhos
do rio. Na cama, na doce cama dos salgueiros.
Nos riachos do orvalho. No lume da cebola. A Mãe
está nos ombros de cada um dos meus instantes.
Onde a emoção se diz e se suspende. Onde
a noite e a língua se observam. Onde nascem
equilíbrios. Onde os crânios e as lâmpadas arriscam.
A Mãe está nos pulmões do meu abismo. Está
no lenço rasgado das roseiras. E na ira do frio.
No chicote das palavras. No silvo. No sítio
do poema. Onde tudo é brusco e arde. Aí,
nessa carne da dúvida, sem dúvida, está a Mãe.
*
in 125 POEMAS e O POUCO É PARA ONTEM, Joaquim Pessoa