sexta-feira, 10 de abril de 2015

as presidenciais... aos meus olhos...

Hieronymus Bosch - O Jardim das Delícias (detalhe, painel central), 1504
OS CALONDROS

Os calondros no campo, acachapados,
figuram, aboborando, os meus cuidados,
bubões, já amáveis, duma vida
nem vitoriosa , nem vencida.

Alexandre O' Neill, Feira Cabisbaixa

Até 24 de Abril torturas mil... O sono ou a sua privação. Leituras breves

A tortura, a privação do sono no tempo do fascismo. 
Opinião de Irene Pimentel, aqui

segunda-feira, 6 de abril de 2015

"pascoelando"... numa tarde de abril de quase águas mil...



Tu:

a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice, Pedro, Lembrando Inês

Requiem...

Tributo aos estudantes barbaramente assassinados no Quénia.
Ontem forem eles. Amanhã podem ser os nossos. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O tempo parou para Manuel de Oliveira.( 1908-2015)


E como é que faz essa distinção entre os bons e os maus realizadores?

O Rembrandt apresentou à sociedade o seu quadro A Ronda Nocturna e foi muito mal recebido. Detestaram-no. Ele ficou muito triste. Fez uma reflexão e junto dos seus alunos comentou e perguntou: “O militar tem o seu sucesso na vitória, o comerciante tem o seu sucesso nos lucros, mas o artista, onde é que ele vai buscar o seu sucesso?” É uma pergunta que não tem resposta. A arte, ou se gosta ou não se gosta, ou se entende ou não entende. Mas, de facto, há uma afirmação daquilo que é bom e daquilo que é mau através do tempo. É aquilo que resiste ao tempo.

(EM ENTREVISTA AO PÚBLICO, EXCERTO)

Lembrado AQUI

quarta-feira, 1 de abril de 2015

alma até Almada... o Negreiros ( a ortografia, senhores, era a vigente...)

O Echo

Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?! 
Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça branca lá da floresta. 
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras. 
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão. 
Foi-se triste para a tenda. 
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma! 
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe. 
- Outra que não Ella chamára tambem por Elle. 

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1', 1915

Respeitosamente a ortografia da época mantém-se.

domingo, 29 de março de 2015

UMA CRIANÇA DISSE - Herberto Helder (2)

(...) 
 As orelhas das crianças servem para as pedras serem pedras que ouvem. Pedras plurais.
  Os livros com crianças delirantes, as paisagens na voz.
   Crianças são as letras antigas com que se escreve a única palavra insuportavelmente viva. 

Uma criança disse: "Olha a minha sombra natural exactamente branca".
   A mesma: "Era um campo decisivo, assim como uma casa cheia de lobos." E contou a seguir uma história em que tudo tinha a cor verde, desde as pessoas aos animais e objectos. O próprio ar era verde.
As crianças são uma verdade impraticável.
As crianças começam a construir, tijolo a tijolo, suas mães monumentais. Depois partem para os pensamentos como para uma ascendente morte e aos degraus.
  Uma criança disse: "Dá-me aquele ramo de estrelas maduras". 
  A solidão que traspassa uma criança imóvel é uma luz insuportavelmente branca.
  Às vezes as crianças não falam quando estão dentro do silêncio.

As crianças falam até ao fim de cada palavra.
A morte das crianças é uma fogueira ao lado direito de Deus, fogueira onde Deus aquece as mãos.
Aprenderei no sono as submersas crianças mudas, envoltas no sangue.
Uma pedra sob a luz infantil. E a palavra Pedra treme de terror.
A vida das crianças reforma os meses que sonham os meses. Elas entram nos meses e envenenam-lhes o espírito dos meses. E os meses rolam, cantadores, para dentro de uma terrível eternidade.
As crianças alimentam a solidão da terra.
A existência das crianças cresce contra roseiras azuis, e toma seu azul, e fala depois esse obscuro idioma do azul
As crianças param no meio das folhas. Destroem o jardim numérico.
As crianças ultrapassam a idade que as ultrapassa a elas.

As crianças são o instante onde as liras e os dedos são uma única rosa.

Poesia
Plátano Editora
Lisboa, 1973
in, A infância lembrada, recolha de Matilde Rosa Araújo(Livros Horizonte)