Quando não há cão ...


 “Na Tailândia, táxis parados servem para cultivar alimentos”, eis o título.

O final da pandemia está apenas no início, poderia alguém dizer.
A notícia esclarece: “Num estacionamento da capital tailandesa, Banguecoque, há vegetais a brotar dos tejadilhos dos táxis.”
Quando ninguém se movimenta na cidade, os meios de transporte deixam de ser de transporte e passam a ser imóveis que não se podem arrendar (pese embora, em algumas cidades, o carro parado alugar-se mesmo, como desesperado alojamento no inverno).
O aparecimento de vilas temporárias onde cadáveres temporários de automóveis permanecem esperançados, mas quietos, multiplicou-se em alguns pontos do mundo. A Tailândia não é caso único.
“As restrições da pandemia na Tailândia deixaram o país sem turistas e os motoristas sem trabalho, com os carros parados num autêntico cemitério de táxis.” Inúteis, mas não avariados: talvez por isso a ressurreição seja mais simples. Não se trata de resgatar o morto para outro estado, quase oposto — basta dar-lhe utilidade.
De qualquer maneira, os cemitérios de objectos feitos para a pura deslocação — mesmo que não avariados em definitivo — atiram a nostalgia em dois sentidos: tristeza pelo que passou, tristeza pelo que aí vem. Podem os objectos inanimados estar ansiosos? Sim, é a resposta.
Uma fotografia de um ponto de vista aéreo (quem subiu lá acima?) mostra o tejadilho de vários táxis de Banguecoque cobertos por um plástico onde um bocado de terra permite que alguns alimentos futuros ali tenham o seu aparecimento.
A tragédia vem, em muitos países pobres, em forma de ready-made mais que necessário, urgente. E a pobreza sempre se defendeu assim: ligando elementos do mundo que o bem-estar por norma separa. Um carro não é um campo de cultivo enquanto o desespero não é desespero.
Diz a notícia que foi a empresa “Ratchaphruek Taxi Cooperative” que decidiu “usar o tecto dos veículos para criar pequenas hortas que esperam poder ajudar na alimentação dos taxistas desempregados.”
Os taxistas plantaram, no tejadilho dos seus táxis, “pimenta, pepino e curgete.” A ansiedade deve estar no meio da terra, revolvida para passar despercebida — na fotografia, vista de cima, não se vê.

Gonçalo M. Tavares

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