quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

"Embriaguem-se"... de preferência com "vin chaud"....



EMBRIAGUEM-SE

É preciso estar sempre embriagado.Aí está: eis a única questão.

 Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.


Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

 Mas embriaguem-se.


E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão:
 "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se;
 embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Les fleurs du mal, de Baudelaire

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A magia da festa da família...


                                                   Magia de Carl Larsson, 1904

sábado, 22 de dezembro de 2012

Boas Festas a todos os amigos que passam por bem...

História Antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não
gostava de crianças.
Antologia Poética de Miguel Torga

Presépio de Machado de Castro
 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O cheiro e a visão... Simbiose perfeita...


Gosto muito deste quadro de Amadeu de Souza Cardoso...
Também de castanhas assadas e compradas na rua.
Uma simbiose perfeita que queria aqui ter deixado já há algum tempo.

Um dia radioso... Assim começa o inverno, sem mundo a desabar e TAP a privatizar...


" Na vida nunca se deveria cometer duas vezes o mesmo erro. Há bastante por onde escolher"

Bertand Russell, hoje, ESCRITO NA PEDRA

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Eles nem sabem nem sonham...

 Cá por casa, tudo começou com estes dois aviõezinhos.... Uma brincadeira que sobrevoava   os pratos de sopa... e tudo o mais... numa longa espera pelo fim da refeição.

 A brincadeira passou a sonho. O sonho voou alto, muito alto... e tornou-se realidade.
Até que,  há nove anos,  vestiu a camisola da TAP. De galão em galão, subiu ainda mais alto...
Amanhã o que pensará o António?
Conversas adiadas...

Gato, gatinho, gatarrão...

O bichano que ainda não posso ter...

Andava a pensar arranjar um gato para companhia e outras ronronices...
Muitas ideias, solidariedade para quando me ausentasse, até que alguém me disse e  atempadamente...
- Olhe, Ana, se quer ter um gato, tem que ter cuidado com as janelas, pois eles saltam.... e, vai estatelar-se no meio do chão e depois chora....
Ora acontece que moro num 5º andar e a partir da primavera as janelas estão sempre abertas quase o dia todo.... 
Só no inverno dou pausa ao abrir e fechar das mesmas.
Resumindo. A minha ausência de "maturidade"para tal esforço faz-me adiar tal aquisição para outras calendas... Quem sabe, se a velhice me leva a ter janelas fechadas em detrimento de um adorável bichano ... 

Na altura em que Raymond Chandler criou a personagem de Philip Marlowe, que lhe daria fama e fortuna e faria dele um dos mais populares autores de literatura policial do mundo, tinha um belo gato persa de cor negra e pêlo longo e farto.
Várias vezes Chandler se fez fotografar com o seu gato persa ao colo e com o cachimbo na boca, contribuindo ambos para compor uma imagem que o tempo não apagou.
Há entretanto, quem diga que foi o persa preto que o inspirou na construção de muitos dos enredos e dos casos que o astuto Marlowe acabou por solucionar.
O gato nunca se pronunciou  acerca disso. E o escritor também não. Talvez só Marlowe fosse capaz de deslindar este mistério que ajuda a fazer o fascínio da pr´pria literatra.

In,Amados Gatos, de José Jorge Letria, Oficina do Livro
Fotogrtafia de João Viana e um dos seus muitos gatos....

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Leituras breves...


O velho e o mar
Qui 13 Dezem­bro 2012
Até me fica mal dizer isto, mas con­fesso que, de quando em quando, chego a ter pena do pro­fes­sor Cavaco. O vetusto pres­i­dente passa a maior parte do tempo mudo e quedo, decerto em reflexão, tão pro­funda quando inócua, sobre o mundo e o país que aju­dou a criar. E é um deus-nos-acuda: que ele não diz nada quando deve dizer; que só fala a propósito de min­udên­cias como o estatuto dos Açores ou a vul­ner­a­bil­i­dade do cor­reio elec­trónico; ou ainda que, tal como a polí­cia e os mari­dos engana­dos, o pres­i­dente só aparece quando não é pre­ciso.
E se, vez por outra, o homem que­bra o silên­cio, é outro ai-jesus. Porque, dizendo, acabou por nada dizer, ou porque disse o que não devia ter dito, ou porque muito sim­ples­mente não disse coisa com coisa, o que, aliás, já começa a ser um hábito.
Recen­te­mente, o pres­i­dente Cavaco Silva voltou a falar, o que serviu para ficar­mos todos a saber que ainda não mor­reu. Falou no dia da greve geral, para dizer que ia tra­bal­har, e numa entrega de prémios a jor­nal­is­tas, onde até ten­tou fazer uma piada. Não resul­tou, mas conta a intenção.
Falou, ainda, num con­gresso de comu­ni­cações, para, entre out­ras coisas, exor­tar os por­tugue­ses a «ultra­pas­sar o estigma que afas­tou Por­tu­gal do mar, da agri­cul­tura e da indús­tria.» Assim mesmo. Não disse, mas a gente sabe, que esse estigma foi ele próprio quem no-lo lançou –quando, nos anos que se seguiram à entrada do nosso País no mer­cado comum, se empen­hou com grande zelo em cumprir e fazer cumprir as ordens de Brux­e­las no sen­tido de des­man­te­lar o tecido pro­du­tivo nacional.
Durante anos (sobre­tudo naque­les em que Cavaco Silvafoi primeiro-ministro), agricul­tores rece­beram (muito) din­heiro para deixar as ter­ras ao aban­dono, cen­te­nas de fábri­cas foram encer­radas em nome da«com­pet­i­tivi­dade», a frota pesqueira foi metodica­mente abatida para sat­is­fazer os dese­jos das grandes potên­cias europeias.
Ao mesmo tempo, a saborosa fruta dos nos­sos pomares foi obri­gada a normalizar-se segundo os «padrões europeus», os jaquinz­in­hos passaram à clandestinidade e o seu con­sumo começou a ser visto como uma espé­cie de ped­ofilia pis­cí­cola, e até o vinho-a-martelo gan­hou estatuto legal –tudo para mostrar à «Europa» que merecíamos ser acol­hi­dos no seu seio farto.
Foram, ainda assim, bas­tantes as vozes que então se fiz­eram ouvir e que ten­taram, debalde, fazer ver aos incau­tos que todo esse delírio ale­gada­mente mod­ern­izador teria um preço. Esta­mos agora a pagá-lo.
Por tudo isto, não deixa de ser curioso que seja, hoje, Cavaco Silva a inci­tar os por­tugue­ses a ultra­pas­sar o estigma que tem o seu nome e a sua marca. Pode­ria pensar-se que se trata de um saudável exer­cí­cio de autocrítica, mas era exi­gir demais e o pobre não tem estu­dos para tanto.
De Marx, receio que o pres­i­dente ape­nas con­heça algu­mas citações avul­sas do mano Grou­cho e um ou outro tre­jeito de Harpo. Mas, de Hem­ing­way, sus­peito que nem um pará­grafo lhe tenha, alguma vez, cau­sado qual­quer emoção. Fosse o pres­i­dente um homem de out­ras leituras para lá dos diver­sos tomos de relatórios-e-contas que já lhe terão pas­sado pela ponta dos dedos, e admi­tiria vis­lum­brar um assomo de arrependi­mento no seu apelo.
Pode dar-se o caso, tam­bém, de Cavaco ter a esper­ança de que, regres­sando ao mar, a maio­ria de nós já não volte. Afi­nal, o min­istro Gas­par e os out­ros têm-se esforçado em fazer tudo para que a vida dos por­tugue­ses se torne ainda mais insu­portável do que já era. Se uns quan­tos optarem por se ati­rar ao mar, sem­pre são uns cobres que se poupam nos funerais. Isto, pelo menos, é o que devem pen­sar as cabeças desabitadas dos sen­hores do gov­erno. Nesta comé­dia amoral, o pres­i­dente, coitado, tem de fazer o seu papel. Pardo, nat­u­ral­mente.
Jor­nal do Fundão | 13.Dez.2012

Mar de tormentas...


.... sem ter em vista um cabo de boa esperança...

As fotos do João Viana