"O baile", nas palavras de Gonçalo M. Tavares

 Um homem com um peito, à primeira vista peludo, à segunda vista visivelmente tatuado, avança, no meio do Capitólio, vestido em formato hesitante entre o búfalo e o viking, com chapéu de dois cornos, e um altifalante na mão direita — mas prescindindo, por momentos, deste apoio técnico, levanta ligeiramente a cabeça para, no meio de um corredor alto e largo do imponente Capitólio, proferir um urro, um urro bem potente, potentíssimo, mas eventualmente retórico, que a retórica desde os gregos veio daí abaixo e está agora ao nível da basbice que parte vidros à marretada para provar a racionalidade última dos seus argumentos.

Os invasores vaidosos preparam-se para uma invasão como quem se prepara para ir à televisão.
As lojas de acessórios vendem calças e belos coletes de cabedal em tom castanho marron, chiques luvas pretas apropriadas para uma invasão decisiva e etc., vendem tudo, menos, é evidente, o bom gosto.
Calças, sapatos, mala e luvas, num valor total de 500 dólares.
Uma senhora, por exemplo, vestida a azul e vermelho, com uma fajuta fatiota da estátua da liberdade, levanta uma tocha em plástico marado, que não pesa quase nada, mas, mesmo assim, em menos de dois minutos, a ambulante estátua da liberdade baixa o meigo braço cansado e delicado perdendo por KO, dos músculos bíceps braquiais, para a Estátua de Liberdade que há décadas permanece metalicamente firme, braço em posição que a engenharia, e não a maluquice, sustenta.
Situações bem tensas, claro, e até tragédias, aconteceram no meio do muito delírio e das cores.
As cadeiras do Senado vão esvaziando.
Um senador fala para uma televisão, assustado, e ouvem-se tiros e som de vidros partidos.
Um polícia sozinho sobe umas escadas em movimento de recuo diante de uma arrastada cambada que sobe as mesmas escadas avançando com lentos movimentos ameaçadores. Os heróis agora heroicam em grupos de 500, por via das dúvidas.
Uma senhora de saltos altos na cabeça, já cá fora, entretanto, queixa-se, em directo, do gás que lançaram, não se sabe de onde, e diz que estava a fazer uma revolução, mas agora tem de sair.

OS INVASORES VAIDOSOS PREPARAM-SE PARA UMA INVASÃO COMO QUEM SE PREPARA PARA IR À TELEVISÃO. AS LOJAS DE ACESSÓRIOS VENDEM CALÇAS E BELOS COLETES DE CABEDAL EM TOM CASTANHO MARRON, CHIQUES LUVAS PRETAS APROPRIADAS PARA UMA INVASÃO DECISIVA E ETC., VENDEM TUDO, MENOS, É EVIDENTE, O BOM GOSTO

Alguns escaladores instintivos, lá fora, aproveitam a festividade para um treino arriscado, e começam a escalar paredes, bem verticais e mortíferas, situadas, no entanto, a três metros de uma escadaria com os degraus afastadas entre si às normas tecnicamente educadas que permitem, desde há séculos, que um sujeito em vez de escalar um muro vertical — de muitos metros correndo perigo de vida — avance com pacatez, primeiro com o pé direito, depois com o pé esquerdo, num movimento harmonioso designado como “subir escadas”, movimento que permite ultrapassar distâncias na vertical e chegar ao mesmo exacto ponto onde chega o instintivo escalador depois de muito esforço e nádegas suadas viradas para a televisão local.
Um senhor de mão larga pega numa carta de uma senadora e não tem a educação mínima para perceber que nem numa eventual revolução maluca se viola correspondência alheia.
Penso de imediato na utopia de um exército tão educado que invada e arrase por completo um país, mas se recuse, por princípio, a abrir cartas alheias, mesmo que fiquem pousadas nas ruínas.
O Pentágono tem seis meses, diz outra notícia, para tornar públicas todas as informações sobre extraterrestres.
E imagino de novo as horas em frente ao espelho do búfalo-viking a preparar a invasão.
Antes preparavam-se invasões diante dos mapas, agora é diante dos espelhos.
Os generais mudaram muito e a modernidade é agora, em parte, uma nova forma de vestimenta.
Vai equipadíssimo da pele para fora, desequipadíssimo da pele para dentro.
Imensos bípedes com o mesmo tipo de estrutura, aliás: não escondem nada, tudo o que têm está à vista e cabe no ecrã: um rosto translúcido como o melhor dos vidros. Pode haver excepções, mas poucas; em descrição rápida: equipado cutâneo, desequipadíssimo a nível mental.
Todos vieram como para o baile, mais peças de roupa do que ideias.

Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Jornal Expresso de ontem

Comentários

Graça Pires disse…
Como é bom ler o Gonçalo M. Tavares. Um costume que não devemos dispensar.
Cuida-te bem minha Amiga.
Uma boa semana.
Um beijo.