sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Os limões de São Cyro ...


    A Torre até dera um Beato, Cyro de nome, mais tarde feito Santo pelas interceções com que protegem das pragas as laboriosas gentes da  Ribeira Lima. Contava o caseiro que, daqueles limões - os célebres limões de São Cyro - só o sumo bastava para tirar o catarro e os nós da garganta. «Com açúcar  e em água bem fervente  produz rebuçado que, mergulhado em aguardente de medronho ou bagaceira fina, dá ainda mais oito dias de vida a um morto.» Limões cintilantes, de casca carcomida como a serra de Arga!

   - Meus senhores , se quiserem levar limões de São Cyro para as constipações  ou para chá, posso vender-lhes aos três de cada calibre. Eu dava-os, mas tem-se que tirar lucro, até mesmo da árvore do Santo. Pecado! O que vale é o Abade da Moutosa! Tem feudo de mil limões por ano para a ninhada da catequese.


Excerto de uma leitura que ando a fazer, A Torre da Barbela, de Ruben A.

AS minhas fotografias

domingo, 17 de janeiro de 2021

"O baile", nas palavras de Gonçalo M. Tavares

 Um homem com um peito, à primeira vista peludo, à segunda vista visivelmente tatuado, avança, no meio do Capitólio, vestido em formato hesitante entre o búfalo e o viking, com chapéu de dois cornos, e um altifalante na mão direita — mas prescindindo, por momentos, deste apoio técnico, levanta ligeiramente a cabeça para, no meio de um corredor alto e largo do imponente Capitólio, proferir um urro, um urro bem potente, potentíssimo, mas eventualmente retórico, que a retórica desde os gregos veio daí abaixo e está agora ao nível da basbice que parte vidros à marretada para provar a racionalidade última dos seus argumentos.

Os invasores vaidosos preparam-se para uma invasão como quem se prepara para ir à televisão.
As lojas de acessórios vendem calças e belos coletes de cabedal em tom castanho marron, chiques luvas pretas apropriadas para uma invasão decisiva e etc., vendem tudo, menos, é evidente, o bom gosto.
Calças, sapatos, mala e luvas, num valor total de 500 dólares.
Uma senhora, por exemplo, vestida a azul e vermelho, com uma fajuta fatiota da estátua da liberdade, levanta uma tocha em plástico marado, que não pesa quase nada, mas, mesmo assim, em menos de dois minutos, a ambulante estátua da liberdade baixa o meigo braço cansado e delicado perdendo por KO, dos músculos bíceps braquiais, para a Estátua de Liberdade que há décadas permanece metalicamente firme, braço em posição que a engenharia, e não a maluquice, sustenta.
Situações bem tensas, claro, e até tragédias, aconteceram no meio do muito delírio e das cores.
As cadeiras do Senado vão esvaziando.
Um senador fala para uma televisão, assustado, e ouvem-se tiros e som de vidros partidos.
Um polícia sozinho sobe umas escadas em movimento de recuo diante de uma arrastada cambada que sobe as mesmas escadas avançando com lentos movimentos ameaçadores. Os heróis agora heroicam em grupos de 500, por via das dúvidas.
Uma senhora de saltos altos na cabeça, já cá fora, entretanto, queixa-se, em directo, do gás que lançaram, não se sabe de onde, e diz que estava a fazer uma revolução, mas agora tem de sair.

OS INVASORES VAIDOSOS PREPARAM-SE PARA UMA INVASÃO COMO QUEM SE PREPARA PARA IR À TELEVISÃO. AS LOJAS DE ACESSÓRIOS VENDEM CALÇAS E BELOS COLETES DE CABEDAL EM TOM CASTANHO MARRON, CHIQUES LUVAS PRETAS APROPRIADAS PARA UMA INVASÃO DECISIVA E ETC., VENDEM TUDO, MENOS, É EVIDENTE, O BOM GOSTO

Alguns escaladores instintivos, lá fora, aproveitam a festividade para um treino arriscado, e começam a escalar paredes, bem verticais e mortíferas, situadas, no entanto, a três metros de uma escadaria com os degraus afastadas entre si às normas tecnicamente educadas que permitem, desde há séculos, que um sujeito em vez de escalar um muro vertical — de muitos metros correndo perigo de vida — avance com pacatez, primeiro com o pé direito, depois com o pé esquerdo, num movimento harmonioso designado como “subir escadas”, movimento que permite ultrapassar distâncias na vertical e chegar ao mesmo exacto ponto onde chega o instintivo escalador depois de muito esforço e nádegas suadas viradas para a televisão local.
Um senhor de mão larga pega numa carta de uma senadora e não tem a educação mínima para perceber que nem numa eventual revolução maluca se viola correspondência alheia.
Penso de imediato na utopia de um exército tão educado que invada e arrase por completo um país, mas se recuse, por princípio, a abrir cartas alheias, mesmo que fiquem pousadas nas ruínas.
O Pentágono tem seis meses, diz outra notícia, para tornar públicas todas as informações sobre extraterrestres.
E imagino de novo as horas em frente ao espelho do búfalo-viking a preparar a invasão.
Antes preparavam-se invasões diante dos mapas, agora é diante dos espelhos.
Os generais mudaram muito e a modernidade é agora, em parte, uma nova forma de vestimenta.
Vai equipadíssimo da pele para fora, desequipadíssimo da pele para dentro.
Imensos bípedes com o mesmo tipo de estrutura, aliás: não escondem nada, tudo o que têm está à vista e cabe no ecrã: um rosto translúcido como o melhor dos vidros. Pode haver excepções, mas poucas; em descrição rápida: equipado cutâneo, desequipadíssimo a nível mental.
Todos vieram como para o baile, mais peças de roupa do que ideias.

Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Jornal Expresso de ontem

sábado, 9 de janeiro de 2021

domingo, 3 de janeiro de 2021

Uma belíssima leitura

HUMANISMO OU FUTURO
 Semana passada, 540 animais mortos por 16 caçadores.
 Uma área murada de 1000 hectares.
 Se fizermos as contas: 1000 hectares a dividir por 550 a dividir por 16 obteremos mais ou menos o número da maldade.
 Há muitas maldades, a ementa é longuíssima, mas eis uma que dá conta certa e vómito.
 O muro tapa a fuga, o animal fica à força no recinto. 
Não se trata de pontaria, os animais são grandes e o tempo ilimitado. Trata-se de instinto macabro e inteiriço, posse de arma e bala — e ainda lei que fecha os olhos ao que é grande e abre muitíssimo a atenção fiscal ao pormenor.
 É preciso fiscalizar ou as estrelas que lá longe estão ou o insignificante que cá perto está. 
Animais agressivos como os lentos veados, esses, sem fiscal próximo, recebem as bem humanas balas.
 O humanismo está por todo o lado, ocupa o espaço inteiro e por vezes dispara.
 Pessoas que vêm de fora fazem testes para detectar um vírus.
 Imagino um país que faz testes na fronteira para detetar a ignorância.
 Aldeias antigas foram localizadas por um helicóptero recente na enorme selva amazónica. Datadas entre os anos 1300 e 1700.
 Estradas em linha recta uniam as pequenas aldeias. A recta já existia na densa floresta bem antes das modernas rectas de Manhattan.
 Um clube ganhou a outro 2-1, mas não conheço nem o valente nome do vencedor nem o triste nome do vencido. Para mim, o jogo ficou empatado.
 Uma vidente sentada na televisão pública ajeita os papéis A4 quadriculados onde o futuro está distribuído como se o tempo fosse uma horta com um eixo horizontal e outro vertical.
 Um vidente não vê evidências.


 UM VIDENTE NÃO VÊ EVIDÊNCIAS. VÊ, SE NECESSÁRIO, UM ESCURO VESTÍGIO NO MEIO DO ESCURO. É BEM DIFERENTE. UM VIDENTE QUE VÊ EVIDÊNCIAS DEVE SER DESPEDIDO POR JUSTA CAUSA 
 

Vê, se necessário, um escuro vestígio no meio do escuro. É bem diferente. Um vidente que vê evidências deve ser despedido por justa causa. 
Uma mulher grita à porta dos correios a dizer que estava primeiro do que uma outra mulher que estava caladinha a ver se o silêncio dos seus sapatos tornava os outros cegos por completo. Mas o pouco som dos sapatos nunca fez os outros cegos, a não ser que se esteja em plena escuridão, e não era o caso. 
O sol de Lisboa por vezes ilumina o rosto, outras vezes ilumina o movimento dos contrabandistas modestos que querem passar à frente numa loja dos CTT. Imagino de imediato uma mulher a gritar à porta dos correios o conteúdo da mensagem que iria enviar por carta. Quando os correios não funcionam, vai a mensagem de grito, de um para outro e depois para o outro a seguir, etc., etc., até chegar ao destino.

 Não aceites pedidos de casamento que cheguem por esta via de telefone estragado que toda a gente sabe que vai distorcendo a mensagem.
 Uma taróloga diz que o próximo ano vai ser bom e mau e ainda assim-assim. 
Escrever o que diz a taróloga bem taróloga no meu caderno de apontamentos como quem escreve uma receita de cozinha. 
Vai e não voltes a queimar o bolo.
 Vai e não voltes a cometer o mesmo erro.
 Eu vou para o novo ano com um caderno de instruções e dois cães que, à primeira distração, devoram o caderno de instruções.
 Vou ter de começar do zero ou voltar a ouvir a taróloga que acerta com nenhuma pontaria em lado nenhum. 
“2021 é excelente quando visto daqui. Mas tudo é maravilhoso quando visto ao longe.
” Mais um dia e outro e faremos o balanço. Nem para trás consigo prever.
 Os historiadores falham e nunca estão de acordo. A década começa agora ou foi antes?
 Ouvi uma vez uma taróloga que falava com precisão meticulosa da próxima década e depois disse que amanhã, quarta-feira, ela voltaria a falar no mesmo programa. Mas amanhã não era quarta. Era terça. Que ofereçam um calendário à taróloga. 
Um anúncio de um detergente para a roupa mostra resvés os glúteos de um senhor masculino que sempre que vai lavar a roupa esquece-se dos glúteos à mostra.
 Um dia de cada vez, ouve-se cada vez mais. Os mais velhos em dezembro de 2020 levantam o dedo indicador e pedem um dia apenas.
 Um outro e um outro, apenas.
 Em 2021, não sabemos o que vai acontecer, mas temos medo e expectativa.
Quanto a mim, a palavra futuro está completamente ultrapassada.


 Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia, na Revista E do Expresso 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Bom Ano de 2021. Eu, entrei a rir....

quando disseram a Alice que nos dias de hoje quanto maior a distância maior o amor ela julgou estar do lado errado do espelho ... Alice adorava fazer de conta e, sempre que ficava diante do espelho construia um mundo onde a sua vidaera o contrãrio desta: onde a frustração dava lugar à satisfação, as tristezas se tornavam alegrias(o que era bom,pois a sua bagagem tinha mais lágrimas que sorrissos), onde o mundo era um lugar bonito e a humanidade um orgulho para a entidade criadora. Alice! Alice! Onde estás? O chamamento fê-la entrar em transe. As ideias esboroaram-se e, por momentos, sentiu a imagem do mundo para lã do espelhotransformar-se numa névoa branca. Abanou a cabeça. Retirou o chapéu e pendurou-onum dos cabides do pequeno compartimento. Aqui!, gritou ela. Aqui estás! Que fazes? Estou a experimentar um chapéu. Mas não sei se gosto de me ver com ele... Pareço aquela velha do anúncio, .... Lucas? Nunca pensaste como seria bom se o mundo não fosse o que è, mas o seu simétrico? Se toda a maldade fosse bondade; se onde há fome, houvesse fartura; se onde uma mãe chora de tristeza a morte de um filho, a criança estivesse a nascer e as lágrimas fossem de alegria ?Já pensaste nisso? Se ao olharmos o fim estivéssemos a olhar o princípio? Excertos de um livro maravilhoso que me foi oferecido pelo Natal, de um escriva figueirense, como eu. Todas a s histõrias infantis estâo aqui ao contrãrio. O blogger anda doido e não me deixa fazer as coisas como deve de ser. Aceitem, por favor, como está. Ultrapassa-me.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Coisas do Natal (2) A História de S. Nicolau e Boas Festas, a vosso jeito e maneira ...

   Nicolau, nascido na segunda metade do século III, na cidade portuária de Patara, hoje em dia em terras da Turquia, no seio de uma família cristã abastada, era um menino muito generoso. São muitas as boas acções que se atribuem a Nicolau, uma delas é a história de um comerciante falido que tinha três filhas e não tinha como as sustentar.
   Ao saber disso, Nicolau passou junto à casa do comerciante e atirou pela janela um saco cheio de ouro
e prata que caiu junto a umas meias que estavam a secar junto à lareira. 
   Com esse presente, ele pôde tratar do enxoval da filha mais velha e casá-la. Logo que as outras duas atingiram a maioridade, Nicolau tratou também de lhes oferecer o valor do enxoval para que pudessem casar.
   Quando os pais morreram, Nicolau, aconselhado pelo tio, viajou até à Terra Santa. No caminho, Nicolau apanhou uma grande tempestade que sõ acalmou quando ele começou a rezar. Por isso, ficou também como o padroeiro dos marinheiros e dos mercadores.
   Regressado dessa viagem, Nicolau, foi morar para Myra, na Ásia Menor, e decidiu doar todos os seus bens, fazendo um voto de pobreza.
   Com a morte do Bispo de Myra, os anciãos da cidade deixaram nas mão de Deus o próximo sucessor. Nessa noite, o ancião mais velho sonhou que Deus lhe dizia que o primeiro homem a entrar  na igreja na manhã seguinte seria o novo bispo de Myra. *

  E assim se tornou  
                            Nicolau chefe
                                                     da igreja 
                                                             da cidade

São Nicolau faleceu a 6 de Dezembro de 342 e os seus restos mortais foram levados , em 1807 para Bari, em Itália.


Boas Festas ou festas ao jeito de cada um que por aqui passa. 

Sem Natal, podemos passar, sem saúde é que não.
  

*História do livro, Histórias de Natal 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Os génios que nos deixam de boca aberta ...

Considerada esta sexta-feira a “Criança do Ano” pela revista Time, o trabalho desta jovem de 15 anos é o casamento perfeito entre ciência e humanidade: inventou ferramentas para garantir água potável, diagnosticar casos de vício por opioides e detetar o cyberbullying. Agora quer acabar com a depressão nos adolescentes.

...

Os seus pais são ambos engenheiros e os seus “heróis”. “Tenho tido um grande apoio e encorajamento da parte deles à medida que vou desenvolvendo os meus projetos. O meu pai introduz-me a novas tecnologias ou envia-me recursos se ler sobre algo novo. Às vezes simplifica os conceitos de tal forma que se torna fácil para mim entendê-los”, explicou à Rookie. E se o pai lhe alimenta a capacidade científica, a mãe ofereceu-lhe a sensibilidade social, ao mostrar-lhe “notícias diárias que têm impacto nas pessoas”, garante.

Quando foi questionada sobre as desigualdades salariais entre homens e mulheres, na conferência europeia “Makers”, Gitanjali foi clara, sensata, adulta: “É muito estranho para mim que duas pessoas façam o mesmo trabalho e uma seja paga menos 21 cêntimos por cada dólar que a outra faz. Parece-me injusto. (...) Acho que deves sentir que tens liberdade para falar com o teu empregador sobre o teu salário e o salário dos teus colegas - e como solucionar [o problema] se não forem iguais”. E mais do que se juntar às batalhas de hoje, é capaz de aplaudir as lutas que outros travaram antes dela: “Admiro todas as mulheres ativistas que fazem a diferença por outras mulheres, desde as sufragistas que nos ajudaram a conseguir o direito ao voto até às mulheres de agora que lutam por igualdade na ciência, uma causa que me é muito próxima”. Gitanjali ainda está na escola mas quer ingressar na universidade para estudar genética e… epidemiologia.

Em 2018 “não tinha a certeza” sobre qual seria o seu próximo projeto. Mas continuava a pensar em grande: “Possivelmente atacar o problema da depressão em adolescentes. Sonho com o dia em que a felicidade possa ser medida numa escala e diagnosticar a depressão seja apenas parte de uma consulta normal do médico. Tenho estado a investigar este tema nos últimos três anos mas ainda não lhe dediquei todo o meu tempo. Chamo a este projeto o meu ‘Detetor de Felicidade’.


Fonte, Expresso Diário de hoje

 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Passando…. Saúdo-vos.


 “A vida é em parte aquilo que nós fazemos dela, e em parte aquilo que é feito pelos amigos que escolhemos”

 Tennessee Williams (1911-1983)

Pintura de Auguste Renoir, 1866, "O convívio dos Barqueiros"