terça-feira, 14 de dezembro de 2021

Presentes de Natal ( 1)


 Já são horas de ir para a mesa? Essa é uma das questões existenciais de Obélix, o carregador de menires e devorador de javalis que caiu no caldeirão de poção mágica quando era pequenino. E não lhe falem de obesidade, que se amofina.

O cão ambientalista Ideiafix passeia-se agora com um osso entre os dentes. É de noite e os javalis estão a fumegar, sobre aquela mesa corrida que imaginamos sempre posta. O banquete acontece ao ar livre na irredutível aldeia gaulesa, com o bardo amordaçado e afastado de cena. Como se quer. As histórias de Astérix e Obélix costumam terminar assim, com um banquete, nos livros de banda desenhada de René Goscinny.
“Embora seja difícil de acreditar, existem outras carnes além do javali. O carré de borrego, acompanhado de um molho com hortelã bem suave e aromática, ser-lhe-ia servido em todas as boas estalagens bretãs com um pouco de cerveja morna.”
Do que precisa
6 c. de sopa de azeite
1 c. de café de cominhos moídos
1 c. de café de gengibre moído
½ c. de café de sal
½ c. de café de pimenta-de-caiena
10 folhas e 1 molho de hortelã fresca
2 pedaços de carré de borrego
600 g de batatas
80 g de açúcar
20 cl de vinagre de sidra
Sal q.b
Como se faz
Aqueça o forno a 200 °C (termostato 6-7). Numa tigela, deite o azeite, os cominhos, o gengibre, o sal e a pimenta-de-caiena. Lave e pique uma dezena de folhas de hortelã, e adicione-as à tigela. Pincele generosamente com esta marinada os pedaços de borrego e disponha-os num tabuleiro. Deite metade da restante marinada sobre a carne e leve ao forno durante 30 a 35 minutos. Entretanto, prepare as batatas. Lave-as e seque-as. Corte-as ao meio e coloque-as na marinada que sobrou. Misture bem e disponha-as noutro tabuleiro.
Tempere com sal fino e leve ao forno durante 25 minutos. Para terminar, prepare o molho: lave o molho de hortelã. Separe as folhas dos caules. Pique as folhas e coloque-as num almofariz. Junte o açúcar e esmague tudo até obter uma pasta verde. Coloque esta pasta num tacho pequeno e adicione o vinagre. Leve ao lume até ferver, misturando bem e reserve. Empratamento: corte ao meio cada pedaço de carré, servindo uma metade a cada conviva. Acompanhe com as batatas assadas no forno e o molho de hortelã.
(fonte, REVISTA E, Expresso)

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Lido...


 “Já que temos de acreditar em algo que não se vê, eu sempre preferiria os milagres às bactérias”

Karl Kraus

terça-feira, 16 de novembro de 2021

Centenário de José Saramago, "saramagando"

 E, por hoje, José Saramago

" Eu vos saúdo, raparigas e rapazes deste cansado mundo, que andais a passear flores em selvas de cimento armado
e florestas de anúncios luminosos! Comprometido entre o sonho e a vida, dou por mim a sofrer do mal da inveja nesta ilha
que sou, povoada de algumas rugas e não poucos cabelos brancos. Povoada também de uma imortal presença a que dou o nome de esperança, e às vezes de alegria."



Excerto de conto HIP, HIP, HIPPIES!, do livro DESTE MUNDO E DO OUTRO
Filme, A MAIOR FLOR DO MUNDO, José Saramago

domingo, 7 de novembro de 2021

Vamos lá então dar dois dedos de conversa...


 Chove. Começou o inverno.

Por aqui? Cada vez mais isto: silêncio, vontade de isolamento, árvores e montanha.

11.

Volto aos conselhos de um avô ao seu pequeno neto, o poema de Drummond de Andrade.
“Admito que amo nos vegetais a carga de silêncio, Luís Maurício.
Mas há que tentar o diálogo, quando a solidão é vício.” 

Excerto de cronica de M. Gonçalo Tavares, Revista E

Fotografia de Anamar (je)

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Porque 18/10 se tornou num dia especial ?


 



Porque há 43 anos fui mãe . Esta ideia de superioridade só se atinge quando chegamos ao topo da carreira, o ser-se avó. E sou.

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E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos . E por vezes ...

David Mourão Ferreira, E por vezes 

 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Finalmente, azul...



Azul, cor, significa tranquilidade, serenidade, harmonia e espiritualidade, mas também está associada à depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito

Video do filme Azul com Juliette Binoche
Imagem, Yves Klein, "blue Klein"

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

E não consigo sair do cor-de-rosa ...

 

                                                       Pintura de Henri Matisse



Um destes dias será

Eu, que nem da dita cor gosto. 

Boa semana a quem vai passando.

domingo, 10 de outubro de 2021

Quando não há cão ...


 “Na Tailândia, táxis parados servem para cultivar alimentos”, eis o título.

O final da pandemia está apenas no início, poderia alguém dizer.
A notícia esclarece: “Num estacionamento da capital tailandesa, Banguecoque, há vegetais a brotar dos tejadilhos dos táxis.”
Quando ninguém se movimenta na cidade, os meios de transporte deixam de ser de transporte e passam a ser imóveis que não se podem arrendar (pese embora, em algumas cidades, o carro parado alugar-se mesmo, como desesperado alojamento no inverno).
O aparecimento de vilas temporárias onde cadáveres temporários de automóveis permanecem esperançados, mas quietos, multiplicou-se em alguns pontos do mundo. A Tailândia não é caso único.
“As restrições da pandemia na Tailândia deixaram o país sem turistas e os motoristas sem trabalho, com os carros parados num autêntico cemitério de táxis.” Inúteis, mas não avariados: talvez por isso a ressurreição seja mais simples. Não se trata de resgatar o morto para outro estado, quase oposto — basta dar-lhe utilidade.
De qualquer maneira, os cemitérios de objectos feitos para a pura deslocação — mesmo que não avariados em definitivo — atiram a nostalgia em dois sentidos: tristeza pelo que passou, tristeza pelo que aí vem. Podem os objectos inanimados estar ansiosos? Sim, é a resposta.
Uma fotografia de um ponto de vista aéreo (quem subiu lá acima?) mostra o tejadilho de vários táxis de Banguecoque cobertos por um plástico onde um bocado de terra permite que alguns alimentos futuros ali tenham o seu aparecimento.
A tragédia vem, em muitos países pobres, em forma de ready-made mais que necessário, urgente. E a pobreza sempre se defendeu assim: ligando elementos do mundo que o bem-estar por norma separa. Um carro não é um campo de cultivo enquanto o desespero não é desespero.
Diz a notícia que foi a empresa “Ratchaphruek Taxi Cooperative” que decidiu “usar o tecto dos veículos para criar pequenas hortas que esperam poder ajudar na alimentação dos taxistas desempregados.”
Os taxistas plantaram, no tejadilho dos seus táxis, “pimenta, pepino e curgete.” A ansiedade deve estar no meio da terra, revolvida para passar despercebida — na fotografia, vista de cima, não se vê.

Gonçalo M. Tavares

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Memórias


 Esta semana morreu o “inventor do computador doméstico ZX Spectrum”, Clive Sinclair.

A sua filha deu a notícia.
Inventou a calculadora de bolso. Gostava de invenções pequenas e baratas, dizem os que conviveram com ele.
O novo deve ocupar pouco espaço. Clive Sinclair já o pressentia.
O volume e o ruído já não são elementos a elogiar.
As tecnologias não querem ocupar espaço exterior, metro quadrado ou cúbico. Trata-se, sim, agora, de ocupar a cabeça humana, as várias cabeças humanas — como se estas fossem o espaço concreto a ser invadido.
A geografia já está. Não há metro quadrado que não possa ser filmado.
A tecnologia avança, então, para a ocupação da biologia, não da geografia.
Uma coisa nova de grandes dimensões é uma coisa nova à maneira antiga.
Continuam a fazer-se torres bem altas, com tecnologia moderníssima, mas com pensamento desactualizado, que terminou no século XX ou, mais precisamente, com a tragédia do 11 de Setembro.
A queda das torres gémeas como sinal em forma de fogo do fim de uma forma de pensamento.
O pequeno ZX Spectrum, de Clive Sinclair, já o anunciava, de modo mais tímido. O novo, agora, no século XXI, quando aparece, não ocupa espaço nem faz ruído.
Mas como é que se aparece sem ruído nem ocupação de espaço?
Estranho, sim. É um aparecimento que se assemelha a um desaparecimento. Não se vê nem se ouve. Daí o perigo.
O que é silencioso e não ocupa espaço pode ser imortal. Tudo o que ocupa espaço pode ser destruído.

Gonçalo M. Tavares 

Revista E , Expresso de 2o21/09/24


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

O meu Presidente de eleição, partiu

https://estatuadesal.com/2021/09/10/jorge-sampaio-um-cidadao-do-mundo/ 

Não creio que haja muito sucessores deste senhor brando e educado que conseguia ser de uma teimosia e de uma firmeza argumentativa inabaláveis quando se tratava da substância do diálogo e da certeza de que temos de fazer tudo o que é possível para tornar este mundo mais pacífico, seguro, justo e igual. E livre. Ele fez.





segunda-feira, 5 de julho de 2021

Os velhos, as escadas, o abandono ...


 1.

Escadas como prisão.
Sem elevador, a altitude — mesmo que na cidade — é feita de betão e distância; exige atletas, não senhoritas e senhoritos de bengala de locomoção lentíssima.
Os velhos; colocados lá em cima, nos andares mais baratos. Anos antes, a falta de elevador era uma proposta para as pernas, difícil e incómoda, mas aceitável. No entanto, a idade faz isto, e há muito: enfraquece músculos, cansa os que antes não se cansavam.
Agora, tens 80 anos e estás preso sem crime nem culpa alguma, sem participação da lei ou da polícia. Ou seja: tens muitas escadas para descer e, no regresso, cinco vezes mais escadas para subir — que a subida, já se sabe, multiplica por cinco a distância — uma multiplicação de esforço cardíaco e mental;
(é evidente que devíamos ter pelo menos duas réguas, a que mede as subidas e a que mede as descidas; ter apenas uma e usar os mesmos critérios para falar de distâncias não apenas diferentes, mas inimigas, é pura falcatrua; descer e subir são verbos adversários.)
Faltam, pois, instrumentos para a ciência (duas réguas diferentes, pelo menos) e ainda elevador para os velhos das cidades europeias que vivem em edifícios de quatro andares sem elevador nenhum.

2.

Imagino uma cidade onde todos os velhos vivem em prédios de quatro andares sem elevador. Velhos que não cometeram crimes estão presos nos pisos altos, quase ao nível das nuvens. Sem elevador, não conseguem descer. As escadas tornaram-se uma pena de prisão em forma de degrau. A pena é tanto mais alta quanto mais numerosos são os degraus. O segundo andar sem elevador remete para um castigo ligeiramente menor, e assim sucessivamente.
Mas o Estado não quer que os velhos morram porque muitos deles são avós e ser avô é colocar um excessivo peso afectivo no coração dos outros. Recebem, por isso, na minha imaginação, comida por cestos e sistemas de cordas que levam até lá acima o essencial para o organismo sobreviver. E de lá de cima trazem o lixo — aquilo que, se ficar em casa, sufoca os vivos aos poucos, maltrata narinas e respiração e, por fim, contamina e mata. Comida em direcção ao céu, lixo em direcção à terra. As nuvens não comem, os mais velhos sim.

NOTÍCIA: “MORADORES, SEM MOBILIDADE, EM EDIFÍCIOS DE QUATRO PISOS. IDOSOS PRESOS EM PRÉDIOS SEM ELEVADOR”

3.

Uma casa é muitas coisas — sono, afectividade e por vezes desespero — mas na sua base está um simples sistema de troca: entra comida, sai porcaria.

4.

Ou em vez de sistemas de roldanas e cestos em dois sentidos — o que cheira bem sobe e é comestível; o que sobrou do dia e fede, desce — em vez de sistemas manuais e antigos, imaginar, então, a partir da realidade, mas no mundo da ficção, helicópteros que vão aos quartos andares sem elevador, das cidades, levar comida aos bem velhos que mal podem andar.
Helicópteros que salvam, mas todos os dias e no mesmo sítio à mesma hora. Helicópteros que salvam como quem cumpre um horário, salvam ao fim da tarde, pelas 18 horas, trazendo comida e medicamentos e tudo o que um corpo exige para continuar orgânico e humano. Funcionários públicos da salvação diária em helicópteros como se em dia de tragédia, de terramoto ou calamidade súbita, mas afinal não: amanhã e depois, e depois ainda, voltam porque a calamidade e o tremor da terra são diários e não se vêem ou sentem no solo da cidade, mas sim lá em cima, estranhamente. Os velhos estão no quarto andar sem elevador e de lá, das janelas, abanam a mão e diariamente pedem ajuda — como um náufrago diário em vias de afogamento.
Quem, de entre eles, não tiver família — ou empatia em volta — morrerá a meio das escadas. A subir ou a descer, pouco importa, quando se morre a fita métrica é só uma.

Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Revista E, Expresso de 2/07/2021



quinta-feira, 17 de junho de 2021

Bom fim de semana a quem passa


 Agrada-me que tudo assim fosse, e agora

que começaste a fazer corpo com a terra

a única evidência é crescer para o sol.

Eugénio de Andrade, À Memória de Ruy Belo


PS. breve serei mais atenta aos amigos blogueiros. Há tanto tempo que aqui não vinha...