quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Leituras breves ...


 

«Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste porventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues: olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo… É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.

Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser.»


~In, O Tempo Esse Escultor, Marguerite Youcenar

As minhas fotos.

sábado, 30 de janeiro de 2021

"O Norte", crónica


O

Norte atlântico resiste mais ao Chega do que Lisboa e o Sul. Porquê? O ressentimento populista deriva da solidão familiar, da transformação do ser humano num átomo sem ligações familiares e comunitárias, sem bairro, sem fábrica, sem clube, sem igreja, sem família. No Sul e na Grande Lisboa, as pessoas sentem-se sozinhas, desamparadas, sem ligações familiares ou bairristas, e este vazio acaba por criar ressentimento, que agora tem uma expressão política. Sim, é difícil viver na Grande Lisboa, uma metrópole que destrói famílias com as suas distâncias geográficas e humanas. Sim, é difícil viver no Alentejo, e esta dificuldade sulista começa no estilhaçar da base familiar.

Está nos livros, meus caros: o sucesso populista tem por base o colapso da família. Todos os grandes livros sobre esta ascensão populista, “Uma Educação” (Bertrand) de Tara Westover, “Quem Matou o Meu Pai” (Elsinore) de Édouard Louis, “Regresso a Reims” (D. Quixote) de Didier Eriborn, e “Lamento de Uma América em Ruínas” (D. Quixote) de Vance, são também livros sobre o colapso familiar, tal como, se me permitem, o meu “Alentejo Prometido” (FFMS). Não por acaso, no Norte da família há menos mortos de idosos nos lares. 676 idosos do Norte morreram de covid na solidão dos lares; 1219 morreram em lares da Grande Lisboa. No Alentejo, morreram 305 em lares. Este, aliás, é o número mais revelador do Alentejo: com apenas 700 mil pessoas, o Alentejo tem três centenas de mortos em lares. Com 3 milhões e meio de pessoas, o Norte tem seis centenas. Estas diferenças falam por si, dizem-nos tudo sobre a imensa solidão que é a vida familiar no Alentejo e na Grande Lisboa. Quando entramos no Porto através da estação da Campanhã, sentimos logo que estamos noutro mundo, um mundo mais orgânico, com mais toque humano e familiar, um mundo onde é inconcebível a separação das três gerações, um mundo onde a avó marreca é passeada por netos e filhos.

Quando a poeira covídica assentar, é esta a grande lição civilizacional que temos pela frente: os velhos não podem ser largados em armazéns de pessoas

Quando a poeira covídica assentar, é esta a grande lição civilizacional que temos pela frente: os velhos não podem ser largados em armazéns de pessoas. As mortes em cadeia nos lares são a grande tragédia desta pandemia. Ao entrar num lar, o vírus tem ali um dominó de peças facilmente derrubáveis. No pós-pandemia, as cidades ultraindividualistas do Ocidente, representadas aqui por Lisboa, têm de aprender com as cidades mais familiares (Porto, Braga, Aveiro). As pessoas não podem continuar a viver para a sua conta do Instagram, têm de viver para os outros, para os seus próprios pais, avós e filhos. Sim, a vivência em cidade tem de mudar, tal como a organização arquitetónica das próprias casas. Os apartamentos da cidade têm de ser repensados para acolher mais pessoas além da família nuclear. A pandemia destapou de vez a nossa obsessão errada com o isolamento da família nuclear. Quando nos pensamos apenas neste quadrado fechado (mãe, pai, dois filhos), perdemos a capacidade comunitária para ter filhos e para cuidar dos velhos. É preciso uma aldeia para educar uma criança e para cuidar de um velho. Temos de saber criar esse velho espírito comunitário no coração das cidades. Devemos isso aos mortos covid e não covid destes dez meses.

Crónica de João Raposo, Expresso de ontem

 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Os postigos, "al dente"


 Jornal Público de hoje,  jornalista, Nuno Pacheco, escreve à quinta-feira

 


Do vinho à covid, uma lição medieval (com música)


 Em Itália, ao contrário de Portugal, chegaram a reabrir-se postigos para ‘venda segura’ durante a pandemia o Nuno Pacheco No combate à pandemia, quis o Governo português, como já aqui se disse, abolir o uso dos postigos a pretexto de evitar Ælas, ajuntamentos, convívios e outros perigos públicos. Isto ao mesmo tempo que, nos estabelecimentos de comércio e serviços considerados essenciais por lei, continua a ser possível entrar em lojas e manusear produtos, em contacto (mesmo que distanciado, com máscaras e gel) com outros clientes e, claro, com os funcionários de serviço. Exemplo bem diferente é o de um país que já foi muito dilacerado pela pandemia, a Itália. Na região da Toscana, postigos centenários foram reabertos em 2020 para servirem de postos de “venda segura” aos habitantes, recuperando uma prática antiga, já que tais postigos tiveram idêntico uso durante a segunda praga da peste que assolou a Europa no século XVII. Mas não foram criados para esse Æm. De início, tais postigos, denominados buchette del vino, Casando-se postigos e vinho (um matrimónio à italiana, já que em Portugal, nesses termos e nestes dias, ele é categoricamente proibido), também deles a música tem feito eco, ao longo de décadas. Começando pelos postigos, entre muitos exemplos que decerto haverá, aqui Æcam alguns. Como o da canção tradicional Ó ferreiro: “Ó ferreiro guarda a Ælha/ Não a ponhas ao postigo/ Que anda aí um rapazinho/ Que a quer levar consigo”; ou o Novo fado alegre, escrito por Ary dos Santos e musicado por Fernando Tordo, que Carlos do Carmo defendeu no Festival da Canção de 1976: “Amigo/ Vou-te bater com as palavras ao postigo”; mas também Lá em baixo, de Sérgio Godinho: “E no entanto sobressalto/ Se me batem ao postigo”; ou Tecto na montanha, de José Afonso: “Num lugar ermo/ Só no meu abrigo/ Aí terei meu tecto/ E meu postigo.” Mais recentes, registe-se ainda Rosa à janela, dos Baile Popular (“Lembro-me dela ao postigo/ E agora põe-se à janela”), Namorei sempre à tardinha, de Francisco Naia (“Chegadinho, chegadinha, chegadinhos/ Ao postigo e à janela”) ou Amores de Jericó, de Celina da Piedade e Alex Gaspar (“Deixo-te ao postigo/ Um lenço e uma rosa”). Já o vinho tem na poesia e na música uma história bem mais antiga e quase sempre ligada aos amores, como comprovam o milenar Cântico dos Cânticos: “Sustentai-me com taças de vinho,/ Cuidai-me com maçãs,/ Pois eu estou doente de amor” (Ed. Artis, 1993, Capítulo 2); ou o Rubayat de Omar Khayyam, 1044-1125: “Se os que amam o vinho e o amor vão para o Inferno, então o Paraíso deve estar vazio” (Ed. Coisas de Ler, 2002, pág. 56). No que toca a Portugal, um livro recente vem recordar-nos os passos dessa história. Chama-se Amor e Vinho, da Poesia Luso-Árabe à Nova Música Portuguesa, séculos XI/XXI (Ed. Colibri, 2020), e o seu autor, Eduardo M. Raposo, percorre nele épocas, autores, poemas e canções em que o amor e o vinho se entrelaçam; ou mesmo discos inteiros, como Vinho dos Amantes, de Janita Salomé. Se estivéssemos em Florença, talvez o vendessem ao postigo. E com uma taça de vinho a acompanhar. tinham por Ænalidade vender vinho a retalho. Cosme I de Médici (1519-1574), primeiro grão-duque da Toscana e o segundo duque de Florença, quis agradar aos nobres, decretando que estes podiam vender o vinho que produziam nas suas propriedades a partir dos seus palácios, sem pagar impostos e dispensando intermediários. E assim foram surgindo buchette del vino bem junto aos portões senhoriais, servindo ainda essas “pequenas portas para o mundo” também para actos de caridade à medida da época, com cedência de excedentes alimentares aos pobres. A peste negra, porém, veio dar-lhes outro uso: o defensivo. Tais portinholas eram agora uma barreira contra o contágio, e tudo o que se vendia através delas (vinho e outras bebidas, em copo ou garrafa) mantinha prudente distância entre comprador e vendedor. Num documento raro, Relato do contágio, estado em Florença nos anos 1630 e 1633, escrito pelo bibliotecário grão-ducal Francesco Rondinelli e citado no diário italiano La Repubblica em Maio de 2020, dizia-se que, a título preventivo, “as moedas pagas pelo vinho eram retiradas pelo estalajadeiro com uma pá de cobre e depois esterilizadas em vinagre”. O La Repubblica voltou a esta história, porque na Toscana as ancestrais buchette del vino estavam a ser reabertas e reutilizadas como defesa contra a covid-19, vendendo-se através delas bebidas e produtos alimentares.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Eu vou votar


 Esta é uma escola linda, linda . Anteriormente ,  havia uma outra escola onde meu filho fez a primária.

Hã uns seis anos, com fundos europeus e municipais, foi construída esta escola modelo segundo a arquitectura finlandesa para o seu parque escolar .

Ficou com o nome do arquitecto Raul Lino pois no Monte Estoril existem seis ou sete casas bem diferentes umas das outras, projectadas por este reconhecido arquitecto do Estado Novo.  O Estado foi -se, mas a obra ficou e bem.

Amanhã atravessarei a rua para exercer o meu direito de voto, nesta escola,  numas eleições  completamente loucas e enlouquecidas...Custa-me a crer que não tivesse sido possível  uma outra data , o estado é quase de sítio .... O invasor não se vê, mas mata muito.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Os limões de São Cyro ...


    A Torre até dera um Beato, Cyro de nome, mais tarde feito Santo pelas interceções com que protegem das pragas as laboriosas gentes da  Ribeira Lima. Contava o caseiro que, daqueles limões - os célebres limões de São Cyro - só o sumo bastava para tirar o catarro e os nós da garganta. «Com açúcar  e em água bem fervente  produz rebuçado que, mergulhado em aguardente de medronho ou bagaceira fina, dá ainda mais oito dias de vida a um morto.» Limões cintilantes, de casca carcomida como a serra de Arga!

   - Meus senhores , se quiserem levar limões de São Cyro para as constipações  ou para chá, posso vender-lhes aos três de cada calibre. Eu dava-os, mas tem-se que tirar lucro, até mesmo da árvore do Santo. Pecado! O que vale é o Abade da Moutosa! Tem feudo de mil limões por ano para a ninhada da catequese.


Excerto de uma leitura que ando a fazer, A Torre da Barbela, de Ruben A.

AS minhas fotografias

domingo, 17 de janeiro de 2021

"O baile", nas palavras de Gonçalo M. Tavares

 Um homem com um peito, à primeira vista peludo, à segunda vista visivelmente tatuado, avança, no meio do Capitólio, vestido em formato hesitante entre o búfalo e o viking, com chapéu de dois cornos, e um altifalante na mão direita — mas prescindindo, por momentos, deste apoio técnico, levanta ligeiramente a cabeça para, no meio de um corredor alto e largo do imponente Capitólio, proferir um urro, um urro bem potente, potentíssimo, mas eventualmente retórico, que a retórica desde os gregos veio daí abaixo e está agora ao nível da basbice que parte vidros à marretada para provar a racionalidade última dos seus argumentos.

Os invasores vaidosos preparam-se para uma invasão como quem se prepara para ir à televisão.
As lojas de acessórios vendem calças e belos coletes de cabedal em tom castanho marron, chiques luvas pretas apropriadas para uma invasão decisiva e etc., vendem tudo, menos, é evidente, o bom gosto.
Calças, sapatos, mala e luvas, num valor total de 500 dólares.
Uma senhora, por exemplo, vestida a azul e vermelho, com uma fajuta fatiota da estátua da liberdade, levanta uma tocha em plástico marado, que não pesa quase nada, mas, mesmo assim, em menos de dois minutos, a ambulante estátua da liberdade baixa o meigo braço cansado e delicado perdendo por KO, dos músculos bíceps braquiais, para a Estátua de Liberdade que há décadas permanece metalicamente firme, braço em posição que a engenharia, e não a maluquice, sustenta.
Situações bem tensas, claro, e até tragédias, aconteceram no meio do muito delírio e das cores.
As cadeiras do Senado vão esvaziando.
Um senador fala para uma televisão, assustado, e ouvem-se tiros e som de vidros partidos.
Um polícia sozinho sobe umas escadas em movimento de recuo diante de uma arrastada cambada que sobe as mesmas escadas avançando com lentos movimentos ameaçadores. Os heróis agora heroicam em grupos de 500, por via das dúvidas.
Uma senhora de saltos altos na cabeça, já cá fora, entretanto, queixa-se, em directo, do gás que lançaram, não se sabe de onde, e diz que estava a fazer uma revolução, mas agora tem de sair.

OS INVASORES VAIDOSOS PREPARAM-SE PARA UMA INVASÃO COMO QUEM SE PREPARA PARA IR À TELEVISÃO. AS LOJAS DE ACESSÓRIOS VENDEM CALÇAS E BELOS COLETES DE CABEDAL EM TOM CASTANHO MARRON, CHIQUES LUVAS PRETAS APROPRIADAS PARA UMA INVASÃO DECISIVA E ETC., VENDEM TUDO, MENOS, É EVIDENTE, O BOM GOSTO

Alguns escaladores instintivos, lá fora, aproveitam a festividade para um treino arriscado, e começam a escalar paredes, bem verticais e mortíferas, situadas, no entanto, a três metros de uma escadaria com os degraus afastadas entre si às normas tecnicamente educadas que permitem, desde há séculos, que um sujeito em vez de escalar um muro vertical — de muitos metros correndo perigo de vida — avance com pacatez, primeiro com o pé direito, depois com o pé esquerdo, num movimento harmonioso designado como “subir escadas”, movimento que permite ultrapassar distâncias na vertical e chegar ao mesmo exacto ponto onde chega o instintivo escalador depois de muito esforço e nádegas suadas viradas para a televisão local.
Um senhor de mão larga pega numa carta de uma senadora e não tem a educação mínima para perceber que nem numa eventual revolução maluca se viola correspondência alheia.
Penso de imediato na utopia de um exército tão educado que invada e arrase por completo um país, mas se recuse, por princípio, a abrir cartas alheias, mesmo que fiquem pousadas nas ruínas.
O Pentágono tem seis meses, diz outra notícia, para tornar públicas todas as informações sobre extraterrestres.
E imagino de novo as horas em frente ao espelho do búfalo-viking a preparar a invasão.
Antes preparavam-se invasões diante dos mapas, agora é diante dos espelhos.
Os generais mudaram muito e a modernidade é agora, em parte, uma nova forma de vestimenta.
Vai equipadíssimo da pele para fora, desequipadíssimo da pele para dentro.
Imensos bípedes com o mesmo tipo de estrutura, aliás: não escondem nada, tudo o que têm está à vista e cabe no ecrã: um rosto translúcido como o melhor dos vidros. Pode haver excepções, mas poucas; em descrição rápida: equipado cutâneo, desequipadíssimo a nível mental.
Todos vieram como para o baile, mais peças de roupa do que ideias.

Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia

Jornal Expresso de ontem

sábado, 9 de janeiro de 2021

domingo, 3 de janeiro de 2021

Uma belíssima leitura

HUMANISMO OU FUTURO
 Semana passada, 540 animais mortos por 16 caçadores.
 Uma área murada de 1000 hectares.
 Se fizermos as contas: 1000 hectares a dividir por 550 a dividir por 16 obteremos mais ou menos o número da maldade.
 Há muitas maldades, a ementa é longuíssima, mas eis uma que dá conta certa e vómito.
 O muro tapa a fuga, o animal fica à força no recinto. 
Não se trata de pontaria, os animais são grandes e o tempo ilimitado. Trata-se de instinto macabro e inteiriço, posse de arma e bala — e ainda lei que fecha os olhos ao que é grande e abre muitíssimo a atenção fiscal ao pormenor.
 É preciso fiscalizar ou as estrelas que lá longe estão ou o insignificante que cá perto está. 
Animais agressivos como os lentos veados, esses, sem fiscal próximo, recebem as bem humanas balas.
 O humanismo está por todo o lado, ocupa o espaço inteiro e por vezes dispara.
 Pessoas que vêm de fora fazem testes para detectar um vírus.
 Imagino um país que faz testes na fronteira para detetar a ignorância.
 Aldeias antigas foram localizadas por um helicóptero recente na enorme selva amazónica. Datadas entre os anos 1300 e 1700.
 Estradas em linha recta uniam as pequenas aldeias. A recta já existia na densa floresta bem antes das modernas rectas de Manhattan.
 Um clube ganhou a outro 2-1, mas não conheço nem o valente nome do vencedor nem o triste nome do vencido. Para mim, o jogo ficou empatado.
 Uma vidente sentada na televisão pública ajeita os papéis A4 quadriculados onde o futuro está distribuído como se o tempo fosse uma horta com um eixo horizontal e outro vertical.
 Um vidente não vê evidências.


 UM VIDENTE NÃO VÊ EVIDÊNCIAS. VÊ, SE NECESSÁRIO, UM ESCURO VESTÍGIO NO MEIO DO ESCURO. É BEM DIFERENTE. UM VIDENTE QUE VÊ EVIDÊNCIAS DEVE SER DESPEDIDO POR JUSTA CAUSA 
 

Vê, se necessário, um escuro vestígio no meio do escuro. É bem diferente. Um vidente que vê evidências deve ser despedido por justa causa. 
Uma mulher grita à porta dos correios a dizer que estava primeiro do que uma outra mulher que estava caladinha a ver se o silêncio dos seus sapatos tornava os outros cegos por completo. Mas o pouco som dos sapatos nunca fez os outros cegos, a não ser que se esteja em plena escuridão, e não era o caso. 
O sol de Lisboa por vezes ilumina o rosto, outras vezes ilumina o movimento dos contrabandistas modestos que querem passar à frente numa loja dos CTT. Imagino de imediato uma mulher a gritar à porta dos correios o conteúdo da mensagem que iria enviar por carta. Quando os correios não funcionam, vai a mensagem de grito, de um para outro e depois para o outro a seguir, etc., etc., até chegar ao destino.

 Não aceites pedidos de casamento que cheguem por esta via de telefone estragado que toda a gente sabe que vai distorcendo a mensagem.
 Uma taróloga diz que o próximo ano vai ser bom e mau e ainda assim-assim. 
Escrever o que diz a taróloga bem taróloga no meu caderno de apontamentos como quem escreve uma receita de cozinha. 
Vai e não voltes a queimar o bolo.
 Vai e não voltes a cometer o mesmo erro.
 Eu vou para o novo ano com um caderno de instruções e dois cães que, à primeira distração, devoram o caderno de instruções.
 Vou ter de começar do zero ou voltar a ouvir a taróloga que acerta com nenhuma pontaria em lado nenhum. 
“2021 é excelente quando visto daqui. Mas tudo é maravilhoso quando visto ao longe.
” Mais um dia e outro e faremos o balanço. Nem para trás consigo prever.
 Os historiadores falham e nunca estão de acordo. A década começa agora ou foi antes?
 Ouvi uma vez uma taróloga que falava com precisão meticulosa da próxima década e depois disse que amanhã, quarta-feira, ela voltaria a falar no mesmo programa. Mas amanhã não era quarta. Era terça. Que ofereçam um calendário à taróloga. 
Um anúncio de um detergente para a roupa mostra resvés os glúteos de um senhor masculino que sempre que vai lavar a roupa esquece-se dos glúteos à mostra.
 Um dia de cada vez, ouve-se cada vez mais. Os mais velhos em dezembro de 2020 levantam o dedo indicador e pedem um dia apenas.
 Um outro e um outro, apenas.
 Em 2021, não sabemos o que vai acontecer, mas temos medo e expectativa.
Quanto a mim, a palavra futuro está completamente ultrapassada.


 Gonçalo M. Tavares escreve de acordo com a antiga ortografia, na Revista E do Expresso 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Bom Ano de 2021. Eu, entrei a rir....

quando disseram a Alice que nos dias de hoje quanto maior a distância maior o amor ela julgou estar do lado errado do espelho ... Alice adorava fazer de conta e, sempre que ficava diante do espelho construia um mundo onde a sua vidaera o contrãrio desta: onde a frustração dava lugar à satisfação, as tristezas se tornavam alegrias(o que era bom,pois a sua bagagem tinha mais lágrimas que sorrissos), onde o mundo era um lugar bonito e a humanidade um orgulho para a entidade criadora. Alice! Alice! Onde estás? O chamamento fê-la entrar em transe. As ideias esboroaram-se e, por momentos, sentiu a imagem do mundo para lã do espelhotransformar-se numa névoa branca. Abanou a cabeça. Retirou o chapéu e pendurou-onum dos cabides do pequeno compartimento. Aqui!, gritou ela. Aqui estás! Que fazes? Estou a experimentar um chapéu. Mas não sei se gosto de me ver com ele... Pareço aquela velha do anúncio, .... Lucas? Nunca pensaste como seria bom se o mundo não fosse o que è, mas o seu simétrico? Se toda a maldade fosse bondade; se onde há fome, houvesse fartura; se onde uma mãe chora de tristeza a morte de um filho, a criança estivesse a nascer e as lágrimas fossem de alegria ?Já pensaste nisso? Se ao olharmos o fim estivéssemos a olhar o princípio? Excertos de um livro maravilhoso que me foi oferecido pelo Natal, de um escriva figueirense, como eu. Todas a s histõrias infantis estâo aqui ao contrãrio. O blogger anda doido e não me deixa fazer as coisas como deve de ser. Aceitem, por favor, como está. Ultrapassa-me.