Manuel Vilas, que escreveu este “Em Tudo Havia Beleza” de onde vem a citação, tem histórias melhores que a minha mas sem segundas oportunidades - publicou um diário violento e não ficcionado sobre o desamparo irreparável que é a morte de uma das fontes de tudo, um pai, o meu pai, o seu pai, do pai que se ama incondicionalmente mas que condiciona a nossa maneira de amar, e de um filho, você, eu, que descobre no próprio carácter o carácter do pai:
“Um dia o meu pai deixou de se preocupar com o seu carro, um Seat Málaga antigo. Sempre se angustiara obsessivamente com o seu carro, com cuidar dele, com tê-lo sempre em perfeito estado. Abandonou-o numa garagem e deixou de conduzir. Fui eu próprio ver o carro, e estava cheio de pó. Disse-lhe: ‘Papá, o carro está cheio de pó’.
Olhou para mim, e parecia que isto sim lhe causava mossa.
‘Era um bom carro, faz o que quiseres com ele’, disse-me.
Ao desligar-se do seu carro, percebi que o meu pai ia morrer em breve; percebi que aquilo era o fim.
Foi um dos momentos mais tristes da minha vida, o meu pai estava a dizer-me adeus por interposta máquina.
Em vez de me dizer ‘temos de falar, isto está para acabar’, disse-me ‘era um bom carro’. Meu Deus, que maravilha. Viesse de onde viesse o espírito do meu pai, estava tocado pelo dom da elegância, pelo dom do inesperado, pela ingénua originalidade.
Pelo estilo.
Sentei-me numa cadeira da cozinha e fiquei a olhar para ele. Fiquei muito nervoso. Muito angustiado. Só eu em todo o universo sabia o que significavam aquelas palavras, ‘faz o que quiseres com ele’.
Estava a dizer-me algo devastador: ‘Faz o que quiseres comigo, não percebo o teu amor’.
Não percebo o teu amor.
Não te amei o suficiente, nem tu a mim.
Fomos malditamente iguais”.
Mas ser maldito é uma honra, não sê-lo também:
“O meu pai morreu com setenta e cinco anos, viverei eu mais anos do que o meu pai? Estou convencido de que viverei menos, ou talvez precisamente os mesmos anos: setenta e cinco. Mas acho que não, que partirei antes. Parece-me uma descortesia vivermos mais anos do que o nosso pai viveu. Uma deslealdade. Uma blasfémia. Um erro cósmico. Se vivermos mais anos do que os que viveu o nosso pai, deixamos de ser filhos, é a isso que me refiro. E, se deixarmos de ser filhos, somos nada”.
Pai e mãe: se os seus ainda estão vivos, e que vivam para sempre, torne-se repórter da sua família e pratique jornalismo da intimidade - pergunte-lhes o que não sabe da vida deles, faça-o hoje, daqui a pouco, agora, já, pode ser jornalismo de investigação, “mãe, o que é que lamentas nunca ter feito?”; pergunte-lhes o que não sabe das descobertas deles, pode ser jornalismo musical, “pai, when love is gone, where does it go?”. A informação aqui não é poder, é afeto. Pai e mãe: se perdeu um ou os dois, torne-se romancista, imagine grandes acontecimentos, paixões, amores, desgostos, erros, conquistas, fábulas, tragédias, contrições e contradições na existência deles. A imaginação aqui não é mais importante que o conhecimento, é saudade. Somos tantas vezes tão pouco curiosos sobre eles e que erro isso é e arrependimento será, eu sou um arrependido e o Manuel Vilas igual: “A morte dos nossos pais é abjeta, é uma declaração de guerra que a realidade nos faz. (...) Enfim, seja como for, a única coisa óbvia é que, se tiveres de perguntar algo a alguém, fá-lo logo. Não esperes por amanhã, porque o amanhã é dos mortos”. E não costumam ressuscitar como o meu Bruno.
Cronica de hoje , no Expresso Curto, de Germano de Almeida, a propósito da morte de um amigo de infância, o Bruno, que o deixou aos 10 anos.
Da leitura que anda a fazer, Germano, deixou esta bela e triste prosa.
Vida e morte.
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terça-feira, 29 de outubro de 2019
"um Seat Málaga antigo"
segunda-feira, 28 de outubro de 2019
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
No ventre de uma mãe ...
No ventre de uma mãe havia dois bébés. Um perguntou ao outro:
- Você acredita na vida após o parto? O outro respondeu:
-Claro que sim. Deve haver algo depois do nascimento. Talvez estejamos aqui para nos preparar para o que virá depois.
"Que estupidez", diz o primeiro. "Não há vida após o parto. Que tipo de vida seria essa? O segundo diz:
-Não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez possamos andar com nossas próprias pernas e comer com nossas bocas. Talvez tenhamos outros sentidos, que não podemos entender agora.
O primeiro respondeu: Isso é um absurdo. Andar é impossível. E comer com a sua boca? Ridículo! O cordão umbilical nutre-nos e dá-nos tudo o que precisamos. O cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto é impossível.
O segundo insistiu: -Bem, acho que há algo e talvez seja diferente do que está aqui. Talvez não precisemos mais deste tubo físico.
O primeiro respondeu: - Além disso, para ter realmente vida após o parto, então por é que ninguém nunca voltou de lá? O parto é o fim da vida e no pós-parto não há nada além do escuro, do silêncio e do esquecimento. Ele não nos levará a nenhum lugar.
- Bem, eu não sei - disse o segundo - mas certamente vamos nos encontrar com a mãe e ela cuidará de nós.
O primeiro respondeu: -A mãe? Você realmente acredita na mãe? Isso é ridículo. Se a mãe existe, então onde está ela agora?
O segundo diz: -Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Somos dela. É nela que vivemos. Sem ela, este mundo não seria nada e não poderia existir.
O primeiro diz: -Bem, eu não posso vê-la, então, como é lógico, ela não existe.
O segundo responde: - Às vezes, quando você está em silêncio, se se concentrar e realmente ouvir, você será capaz de perceber a sua presença e ouvir a sua voz amorosa lá em cima.
Foi assim que um escritor húngaro explicou a existência de Deus..
quinta-feira, 24 de outubro de 2019
Coisas do sono... Está aí a mudança da hora, mas ainda para não ficar
Prémio Nobel da Literatura André Gide escreve sobre o sono numa das suas obras mais conhecidas, “Os Frutos da Terra”.
“Adquiri o hábito de dormir frente à minha janela escancarada, como se estivesse ao relento. Nas noites demasiado quentes de Julho, dormi completamente nu ao luar; o canto dos melros despertava-me logo de manhãzinha; mergulhava na água fria e orgulhava-me por começar tão cedo a minha jornada. No Jura, a minha janela dava para um pequeno vale que em breve se encheu de neve; do meu leito, via a orla de um bosque; nele voavam corvos ou gralhas; de manhãzinha era acordado pelos pequenos sinos das manadas; perto de minha casa ficava a fonte onde os vaqueiros as levavam a beber. Lembro-me de tudo isso. Nos albergues da Bretanha, gostava de contacto com os lençóis rugosos com a roupa da barrela que cheirava tão bem. Em Belle-Isle, despertava com os cantos dos marinheiros; corria para a janela e via os barcos afastarem-se; depois descia até ao mar.
In Os Frutos da Terra, André Gide, Lisboa, 2007, Ambar
terça-feira, 22 de outubro de 2019
domingo, 20 de outubro de 2019
Um cheirinho a Oliver Sacks ....
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| Mulher Sentada, Picasso |
Depois de você ter esgotado o que há nos negócios, na política, no convívio, no amor e assim por diante – descobrimos que nenhum deles finalmente nos satisfaz tanto e nos usa permanentemente – o que resta? A natureza. Ela permanece para trazer para fora de seus recessos entorpecidos, as afinidades de um homem ou mulher com o ar livre, as árvores, os campos, as mudanças das estações – o sol de dia e as estrelas do céu à noite ”.
Oliver Sacks
Every Thing in your Palace, Oliver Sacks
sábado, 19 de outubro de 2019
“Não há tempo para o que não é essencial.”
O ensaio a seguir, traduzido de The New York Times, é um excerto do livro “Everything in Its Place”, uma coleção póstuma de escritos do falecido neurologista e escritor Oliver Sacks.
Como escritor, considero os jardins essenciais para o processo criativo; Como médico, levo meus pacientes a jardins sempre que possível. Todos nós tivemos a experiência de vagar por um exuberante jardim ou por um deserto atemporal, andando junto a um rio ou oceano, ou escalando uma montanha e nos sentindo simultaneamente calmos e revigorados, engajados na mente, refrescados em corpo e espírito. A importância desses estados fisiológicos na saúde individual e comunitária é fundamental e abrangente. Em 40 anos de prática médica, descobri que apenas dois tipos de “terapia” não farmacêuticas são de vital importância para pacientes com doenças neurológicas crónicas: a música e os jardins.
quarta-feira, 16 de outubro de 2019
"Mulherzinhas" do séc. XIX e Mulheres do séc. XX
Mulherzinhas representa “uma nova forma de olhar as mulheres e as possibilidades que se abrem para as elas na segunda metade do século XIX” nos EUA, diz ao Observador a escritora Ana Luísa Amaral.
(via Observador)
Séc. XXI, António Costa, põe em prática no seu novo governo, pela quantidade e qualidade o número de mulheres desejado e prometido.
Um dia , ainda se irá mais longe no mundo em que vivemos. Se as mulheres vingam nas universidades, no mundo do trabalhado e da liderança ,da investigação, o mundo será delas, desde que não se queiram parecer com os homens.
O mundo será mais equilibrado e sensível. Por hoje, o meu mundo é Portigal.
terça-feira, 15 de outubro de 2019
Crónicas sem género, apesar de escritas para mulheres tristes ...
A única noite, disse alguém, é a da insónia, a noite passada em branco. Não se guarda memória das noites dormidas. Assim é o amor: o mais inolvidável é o que nunca foi.
Como para a insónia, também para o esquecimento existem xaropes e mezinhas . Mas são ambos remédios sem discernimento. Uns far-te-ão dormir tanto (sem sonhos e sem sono), que será como morrer. Com os outros não esquecerás tudo, quer tenha sido excelente ou desagradável.
Não te revelo, pois, as minhas beberagens para o sono e para o esquecimento. Possuem o mesmo efeito da cicuta.
Autor, Héctor Abad Facioooolince
quarta-feira, 9 de outubro de 2019
Costumes saudáveis....
É saudável costume deitares a língua de fora à tua imagem no espelho. Por um lado, é preciso rirmos diariamente um bocado de nós mesmos; e, além disso, aproveitas para dar uma vista de olhos à cor e consistência da língua. A língua é grande depositária de segredos, como órgão interno que temos cá fora. Como hás-de ler os sinais da língua? Ah, é um alfabeto obscuro, embora cada língua tenha o seu. Conheceres-te a ti mesma não é mais não é mais que conheceres a tua língua: olha para ela, indaga nos seus montículos e seios, pensa no que farás neste dia de hoje com ela. Não sejas linguareira. Antes do mexerico, da mentira, da traição, morde-a três vezes :depois, se quiseres, podes soltá-la.
Do livro, Receitas de Amor para Mulheres Tristes, de Héctor Abad Faciolince
sábado, 5 de outubro de 2019
5 de Outubro de 1910 e a sua 1ª bandeira
Esta foi a bandeira içada no dia 5 de Outubro de 1910 na Câmara Municipal de Lisboa. E foi bordada pelas médicas Adelaide Cabete e Carolina Beatriz Ângelo IMAGENS DO LIVRO “HERÓIS DO MAR - HISTÓRIA DOS SÍMBOLOS NACIONAIS”
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