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A mostrar mensagens com a etiqueta . Leituras breves

leituras breves, "foi difícil, porque o sono tinha muita força"

“Um dia, à meia-noite, ele viu-a. Era a estrela mais gira do céu, muito viva, e a essa hora passava mesmo por cima da torre. Como é que a não tinham roubado? Ele próprio, Pedro, que era um miúdo, se a quisesse empalmar, era só deitar-lhe a mão. Na realidade, não sabia bem para quê. Era bonita, no céu preto, gostava de a ter. Talvez depois a pusesse no quarto, talvez a trouxesse ao peito. E daí, se calhar, talvez a viesse a dar à mãe para enfeitar o cabelo… Devia-lhe ficar bem, no cabelo. De modo que, nessa noite, não aguentou. Meteu-se na cama como todos os dias, a mãe levou a luz, mas ele não dormiu. Foi difícil, porque o sono tinha muita força. Teve mesmo de se sentar na cama, sacudir a cabeça muitas vezes a dizer-lhe que não. E quando calculou que o pai e a mãe já dormiam, abriu a janela devagar e saltou para a rua. A janela era baixa. Mas mesmo que não fosse. Com sete anos, ele estava treinado a subir às oliveiras quando era o tempo dos ninhos, para ver os ovos ou aqueles bichos p…

Miau....

O homem gostaria de ser peixe ou pássaro, a serpente gostaria de ter asas, o cão é um leão confuso...
Mas o gato quer ser somente gato,
e todo gato é um puro gato
desde o bigode ao rabo


Pablo Neruda

Leituras breves... e o fim de semana possível

Teresinha Rosa já passava dos sessenta quando a vida lhe armou um campo de batalha e ela tomou o gosto ao pelejar.   Atravessara até então os tempos - primaveras rosadas, invernias, sufocações de verão, tremores de outono - em perfeita harmonia com as coisas, como um madeiro a passear-se na corrente, abandonado às águas, prazenteiro, divertindo-de até com algumas topadas em bicos de rochedo. Era uma dessas raras culturas capazes de encontrar num ninho ou num rebento motivo para horas, dias, meses de uma incompreensível alegria. E mesmo nos desgostos carregava um tal deslumbramento no olhar; uma tal inocência e um tal espanto surgiam por detrás do véu das lágrimas que todos comentavam com inveja - alguns em confusão de escândalo e piedade - o quão eram felizes os pobres de espírito, coincidentes, por subtis desígnios, com os pobres do corpo, as mais das vezes....
Nunca foi bela. Mas trazia em si um excesso de vida, um dom animador que entrava pelas veias e a fazia necessária como um vin…

O Espantalho da "Praxe" Coimbrã.... Leituras breves

Das últimas páginas do livro: «[...] Quer-me parecer que a praxe, constituindo um fim em si mesma e apelidada fraudulentamente de tradição por aqueles que confundem a antiguidade dum objecto com o seu caruncho e com a sua ferrugem, é a grande responsável por este estado de coisas. [...] Eu e todos os que pensam como eu queremos ser divertidos, mas não queremos que nos obriguem a sê-lo; defendemos a graça, mas não a graça violentada; desejamos a alegria, mas quando é a alegria para todos, não bruteza e grosseria para uns e humilhação para outros; somos pela irreverência, pela reinação, pela piada, por isso não as queremos matar com regulamentos. E achamos que troçar os alunos do primeiro ano, simplesmente por serem do primeiro ano, que ofendê-los cobardemente sem lhes permitir defenderem-se está mal, mesmo que se fizesse em todas as universidades do mundo, mesmo que viesse dito nas Escrituras. [...]»
Livro datado de 1958
Fonte, FRENESI LOJA

Ontem, escrito na pedra... Bom domingo

"Em Portugal, as pessoas são imbecis ou por vocação, ou por coação, ou por devoção"...

Miguel Torga  , jornal Público de 2/11/2013

leituras breves no dia de hoje...

"Tenho muitas vezes a sensação de não pertença. Percebo de que de facto só pertenço aos meus pensamentos. 
Pertencemos aos nossos pensamentos. Para escaparmos do que somos temos de pensar de outra maneira, mas não temos controle em muito do que pensamos. Estamos condenados ao que somos capazes de pensar.

E só não digo que somos os nossos pensamentos porque também existe o corpo. O corpo também nos individualiza. E parece existir de forma independente do pensamento. Autónomo. É misteriosa a forma como corpo e pensamento se entendem ou desentendem, como convivem ou negoceiam. Também pertencemos ao nosso corpo. "

Excerto de conto de Dulce Maria Cardoso, EM BUSCA D´EUS DESCONHECIDOS, in revista Granta, nº1, pág. 18

A Sesta, de Van gogh

"a condição de português assemelha-se... " 8 de outubro de 1965

Um postal de Cardiff do querido Alexandre Pinheiro Torres que realizou finalmente o seu sonho de se libertar deste colete-de-forças que lhe deram por pátria.
O pior é que, a estas horas, já deve estar a vomitar fel e saudades...
A condição de português assemelha-se muito à do escaravelho, agarrado à bola da própria merda espiritual. ( O espírito também excrementa.)

de José Gomes Ferreira, em Passos Efémeros, Dias Comuns - 1

Fotografia tirada no Paredão do Estoril em Junho, ARTEMAR

"AMOR ESCREVE-SE COM ÁGUA" ... Vai um gin tónico?

Querida

Acabo de receber a carta que me enviaste pelo cabo submarino. Vinha um pouco húmida, mas dada a enorme distância líquida que nos separa, é perfeitamente compreensível.
Senti-me contente por te saber bem, assim como os pequenos, nessa calma profunda e silenciosa de que tanta saudade tenho.

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Creio que esta parte do continente em breve começará a oscilar, a desaparecer nas águas, o que marcará o verdadeiro início do Grande Salto para o Fundo.
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Segundo informações concretas que aqui obtive, fiquei a saber que as Brigadas de Choque dos tubarões-martelo estão já a concentrar-se nas zonas previstas. Isto, por enquanto, é segredo rigoroso como calculas, claro.
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Apenas temos de lamentar certos golfinhos que se tornaram colaboracionistas, o que nos obrigou a expulsá-los. Felizmente são apenas casos esporádicos, talvez até recuperáveis.
Como vês, estamos realmente trabalhando para um futuro em que os povos de todos os mares possam vir a ter uma vida livre e digna.