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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A primeira vez qe vi neve e a toquei...


Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente

e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem
uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho…



Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento
com certeza.


Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria…
. Há quanto tempo a não via!

E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho…

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança…

E descalcinhos, doridos…
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!…

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!…
Porque padecem assim?!…

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza

e cai no meu coração.

Augusto  Gil (em Sombra de Fumo) 

Mais tarde, a minha mãe obrigava-me a decorar os poemas de Augusto Gil. Este e o "Passeio de Santo António)... Outros  tempos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Para os amigos perdidos e achados por gatos...


Gatos abandonados num velho edifício e alimentados pelas peixeiras do mercado em frente..

Moushi tinha razão

Quando Anne Frank ouviu, nos céus de Amestredão, no Verão de 1944, o intenso ruído noturno dos bombardeiros aliados, acreditou que estaria para breve a sua saída e dos seus familiares e amigos do anexo onde viviam há dois anos. Tinha Moushi ao colo e estava apaixonada por Peter van Pels, que levara o gato para o interior do abrigo.
Tinham sido anos de grande tensão e austeridade. As palavras e os alimentos eram racionados com um rigor difícil de imaginar. O importante era conseguirem sobreviver até ao dia em que a liberdade, por fim, chegasse. Mas que dia seria esse? Em que calendário se encontrava registado?
Anne ouviu de novo o ruído dos aviões nos céus do país ocupado e quis beijar Peter. Moushi tinha ciúmes desse amor adolescente que, por vezes, o privava das carícias da menina amada.
- Quando saíres daqui levas-me contigo, não levas, Anne? – perguntou Moishi.
- Claro que te levo, vá eu para onde for, podes ficar descansado – respondeu Anne ao gato de que se tornara dona….
…. Moushi, ouvia notícias na BBC e que eram escutadas em silêncio religioso pelos adultos do anexo, tinha muitas dúvidas e muitos medos.
- Não te fies no que os teus ouvidos ouvem, Anne, porque as feras andam à solta por estas ruas. ….
…. Tudo menos ódio, Moushi, porque ódio mata mais do que as balas….
….. De todos os habitantes do anexo, só o pai sobreviveu no inferno de Auschwitz.
Moushi conseguiu fugir para a rua e nunca mais ninguém teve notícias dele. Talvez tenha morrido de tristeza meses mais tarde. Talvez ainda tenha passado alguns anos a caçar ratazanas, convicto que estava a caçar nazis e a vingar a morte da sua amada. Vá-se lá saber o que faz um gato apaixonado em horas tão terríveis com aquelas.

De Amados gatos de José J. Letria