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quarta-feira, 30 de março de 2016

"tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar"*




Enrico Baj, "Sussana, 1959
Valeu a pena? Tudo vale a pena 
            Se a alma não é pequena.
LA BAIGNADE D'APRES LA GRANDE JETTE BY ENRICO BAJ


terça-feira, 12 de maio de 2015

Esteban Vicente...


... criador de estados de alma tão diferentes e sombrios...

Vieste como um Barco Carregado de Vento

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo 
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa 
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste 
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro 

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste, 
se partiste, 
que dentro de mim se acanham as certezas e 
tu vais sempre ardendo, embora como um lume 
de cera, lento e brando, que já não derrama calor. 

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar 
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes; 
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha: 
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar, 
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam 
no cais como se transportassem no corpo o vaivém 
dos barcos. Dizem-me os seus passos 

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam 
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei 
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde 
para quase tudo. Por isso, vou para casa 

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite. 

Maria do Rosário Pedreira, in 'O Canto do Vento nos Ciprestes' 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Não adormeças...

Pintura Erótica de Fernando Botero
Não Adormeças

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à mingua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu rosto
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Bom fim de semana... E sonhem...

Os gatos resguardam-de da chuva.
Alguém diz o teu nome à janela,
Olhando as aves que partem para o sul.

Há uma memória embaciada de outro outono,
cinzas no pátio,
o cheiro de alguma coisa que morre, mas não dói.


Poema de Maria Rosário Pedreira