terça-feira, 12 de maio de 2015

Esteban Vicente...


... criador de estados de alma tão diferentes e sombrios...

Vieste como um Barco Carregado de Vento

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo 
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa 
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste 
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro 

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste, 
se partiste, 
que dentro de mim se acanham as certezas e 
tu vais sempre ardendo, embora como um lume 
de cera, lento e brando, que já não derrama calor. 

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar 
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes; 
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha: 
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar, 
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam 
no cais como se transportassem no corpo o vaivém 
dos barcos. Dizem-me os seus passos 

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam 
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei 
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde 
para quase tudo. Por isso, vou para casa 

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite. 

Maria do Rosário Pedreira, in 'O Canto do Vento nos Ciprestes' 

3 comentários:

Majo disse...

~
~ ~ Um belo poema de saudade...

~~~~ Abraço amigo. ~~~~
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

anamar disse...

Grande verdade, Majo.

Beijinho :(

Carmem Grinheiro disse...

"Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar" - ah, essa saudade que nos leva a razão.

bj amg

http://doladodosol.blogspot.pt/