NÃO HÁ SÁBADO SEM MÚSICA... (leia-se sol) DOMINGO EM QUE NÃO HAJA PECADO... (leia-se missa) SEGUNDA QUEM NÃO TENHA TRABALHO... (será preguiça?) TERÇA....( logo veremos ...)
Em todo o homem que não for um crápula subsiste a nostalgia duma revolução triunfante. ALBERT COSSERY A violência e o escárnio são aqui duas faces discrepantes da oposição ao pode político vigente. A primeira consubstancia-se na atitude heróica, em que o militante, levando a sério os políticos de Estado, se sacrifica pela causa; a segunda assenta num absoluto desprezo pelas instituições estatais e seus dirigentes, encarando estes últimos como os títeres dum mundo grotesco e aviltante. A acção desta narrativa decorre paralelamente a esse conflito Numa grande cidade dirigida por um governador despótico e burlesco, um grupo de amigos, amantes do riso e outros prazeres da vida, inventa uma nova forma de combate político: a farsa-que-não-parece-farsa.E,desenvolvendo uma actividade que profundamente os diverte (e neles aguça o sentido de humor), põem fora do poleiro o detestado líder. Irónica reflexão sobre o poder, A VIOLÊNCIA E O ESCÁRNIO exprime a par adoxal e salutar perspectiva de Cossery, que às nevróticas gesticulações dos homens opõe o desprendimento e a contemplação - sempre assente na rejeição do sacrifício. - Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal. - São talvez as que eu próprio sei. - Sem dúvida. è por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza. - Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos. - A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta. - Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda? A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério. Do capítulo V
Wladyslaw Slevinski, Marinha, 1910 Entre nós, a mentira é um hábito público. Mente o homem, a política, a ciência, o orçamento, a imprensa, os versos, os sermões, a arte, e o país é todo ele uma grande consciência falsa. Vem tudo da educação. In Uma Campanha Alegre, Eça de Queirós
Ontem a Tertúlia de que faço parte aqui no meu Monte, "Às quintas no Monte", teve um orador de gabarito,José Maria Pedrosa Cardoso (clicar). Deixo-vos todo o tempo do mundo para dele saberdes mais... O tema foi o citado no título deste post. Paixão e mestria de de Pedrosa Cardoso abriu-nos os olhos, os ouvidos e o coração. Lopes-Graça pensou desde os anos 50, em conversa pessoal com João Freitas Branco,escrever um Requiem às vítimas do fascismo. A confissão religiosa do seu Requiem
O convite oficial para uma obra, no seguimento da Revolução dos Cravos, motivou-o para escrever um Requiem dedicado ás vítimas do fascismo. Não deixa de haver uma subtileza religiosa na simples evocação e na homenagem aos mortos do fascismo: não tem a religião no culto dos mortos uma das suas primordiais e mais espontâneas manifestações? Mas pode-se homenagear os mortos sem escrever um Requiem. É certo que o texto litúrgico da Igreja Católica é uma excelente fonte de inspiração, ele próprio o confessa. Mas de que se trata em primeiro lugar: lembrar aqueles mortos ou musicar o texto católico? Fazer isto, não parece o mais adequado a quem tanto invectivou a Igreja e o catolicismo; aliás, Brhams, Scumann, Kurt Weil e tantos outros.
Também nas suas conversas com Mário Vieira de Carvalho, a respeito desta "confissão", diz:
«Que poderá haver de religião no meu Requiem? - pergunta você. Eu não faço grande distinção
entre música «profana», como a não fizeram tantos dos compositores mais ilustres da História da Música. Eu não sou religioso (em que medida o eram um Monteverdi, um Mozart, um Beethoven, um Berlioz, um Verdi?), mas posso aceitar um texto religioso(e, sobretudo, religioso dramático, como é o Requiem) desde que ele estimule as minhas capacidades criadoras (grandes ou pequenas, não importa agora.) Não sou religioso, (repito), mas posso situar-me, como artista, numa posição religiosa ("o poeta é um fingidor"), logo que ele me não vincule a um determinado credo, a uma determinada ortodoxia, a uma determinada Igreja. Profana ou religiosa, a música do meu Requiem foi escrita com a sinceridade que ponho em tudo o que me sai da mão - e do espírito - e tanto mais quanto a obra é dedicada às "vítimas do fascismo em Portugal", coisa que não briga, ao que julgo, com a minha militância comunista»
Aconteceu ontem, dia 18 de Abril, no Monte Estoril.
Uma criança disse: "Quando eu crescer, vou cortar as flores grandes para não haver vento". Largas crianças amarelas nos parques podres. Amarelas como os inquilinos das luzes. Como os lugares culpados da maior existência de Deus. As crianças tremem com a mão dentro do movimento. Uma criança disse:"Um anjo é uma gaivota" "Um anjo é um homem como os outros: o que é, tem asas." E outras: "Um anjo é um pássaro cantador." "Um anjo é uma andorinha. Tem uma coroa." "Um anjo é um homem que tem o sol pendurado atrás da cabeça." E uma outra sonhou que tinha engolido o sol. Crianças trespassadas pela sua própria exatidão.
.... De Herberto Hélder, in A infância lembrada, de Matilde Rosa Araújo Desenho de Shara Affonso
Será que a Rita que nos deixou hoje aos trinta anos de idade irá encontrar nesta nova viagem para qual a vida a empurrou pessoas tão fortes e grandiosas como ela? Quero crer que sim... Viaja pois minha querida, que nós olharemos pelo que de bom nos deixaste.