...mas a memória ficará sempre no ar .... como a poética nem sempre ou quase nada fácil, porque Herberto Hélder também não era fácil.
Mas, há um livro, a que recorro muito, poesia reunida de Matilde Rosa Araújo, em « Infância Lembrada», onde um dos poemas que me deliciam , e só um excerto aqui deixo, de HH.
UMA CRIANÇA DISSE
Uma criança disse: "Quando eu crescer, vou cortar as flores grandes para não haver vento".
Largas crianças amarelas nos parques podres. Amarelas como os inquilinos das luzes. Como os lugares culpados da maior existência de Deus.
As crianças tremem com a mão dentro do movimento.
Uma criança disse: "Um anjo é uma gaivota".
Um anjo é um homem como os outros: o que é, tem asas."
E outras: " Um anjo é um pássaro cantador".
"Um anjo é uma andorinha. Tem uma coroa. "
"Um anjo é um homem que tem o sol pendurado atrás da cabeça."
E uma outra sonhou que tinha engolido o sol.
Crianças traspassadas pela sua própria exactidão.
(...)
Terá continuação. O texto poético é muito lindo.
quarta-feira, 25 de março de 2015
terça-feira, 24 de março de 2015
" e assim as árvores chegam ao céu", Herberto Hélder. 1930-2015
«Na límpida teia das mãos,
a colher que se arqueia
desde
a traça alimentar à costura cirúrgica
da garganta
onde a voz rebenta
num buraco de sangue.»
(...) A costura cirúrgica da garganta é sinónima da corola cesariana. É pela boca que se manifesta o poder do corpo, no corpo reside o poder da linguagem poética. Herberto Hélder é o poeta que mais longe foi na exploração das potencialidades metafóricas da linguagem do corpo, que, o mesmo será dizer, mais longe foi na exploração do desejo.
in «DIÁRIO POPULAR», 28/09/1978
A pedra abre a cauda de ouro incessante,
somos palavras,
peixes repercutidos.
Só a água fala nos buracos.
(...)
Sou os mortos - diz uma árvore
com a flor recalcada.
E assim as árvores
chegam ao céu.
HH, «Húmus», 1966/67 (introdução do livro O CORPO O LUXO A OBRA )
segunda-feira, 23 de março de 2015
Breve e curta e sem" confragimento"... boa semana
Sinopse
«Manhã» é o mais recente livro de poemas de Adília Lopes. Começa com uma epígrafe lapidar de Alexandre O¿Neill: «(Pesquisas fazem-se em casa, já dizia a minha avó, que era escritora)». Infância, memórias, momentos comoventes, desconcertantes ou paradoxais, como neste poema onde a autora nos fala de Palavras Caras:
«Em minha casa, detestávamos pessoas bem-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê:
Fiquei muito confrangida.
Passámos a chamar-lhe a confrangida.
Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligávamos a televisão.»
«Em minha casa, detestávamos pessoas bem-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê:
Fiquei muito confrangida.
Passámos a chamar-lhe a confrangida.
Sempre que aparecia alguém na televisão a declamar poesia ou a falar de poesia, desligávamos a televisão.»
domingo, 22 de março de 2015
sábado, 21 de março de 2015
a minha forma de receber a primavera.... também com poesia, a de Gastão Cruz
... ou a impossibilidade de transmitir a beleza que esta varanda "ajardinada" provocou em mim.
Desta janela de ar e ansiedade
podemos ver compor-se a primavera
lentamente por cima das casas
Gastão Cruz, Sustenido 2
as surpresas da cidade branca.... Lisboa
O meu instinto primário foi escrever romances para tentar perceber o mal, como é que ele surge, em que situações se manifesta. Sou um escritor pós-Auschwitz. Tenho a consciência do que aconteceu. (GONÇALO M. TAVARES)
Um livro de que gostei.
quinta-feira, 19 de março de 2015
quarta-feira, 18 de março de 2015
a poesia anda á solta... por aqui e não só...
A poesia vai
A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
- Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? -
Manuel António Pina
terça-feira, 17 de março de 2015
o meu médico de família , diz-me o mesmo...
... e, os entupimentos hospitalares, não foram só questões virais próprias do frio...
Morre-se e adoece-se de desamor.
domingo, 15 de março de 2015
Afinal é tão simples o que parece complicado ... é uma questão de "códigos"...
O Simples e o Complicado
As pessoas não querem que se lhes dê lições. É por isso que não compreendem agora as coisas mais simples. No dia em que o quiserem, verificar-se-á que são capazes de compreender também as coisas mais complicadas. Até lá, as instruções são: continuar a trabalhar, discutir o menos possível. Com efeito, só poderíamos dizer a um indivíduo: você é um imbecil, a outro: você é um patife, e há boas razões que excluem a realização expressiva de tais convicções. Sabemos, de resto, que estamos diante de pobres diabos, que receiam por um lado chocar, prejudicar as suas carreiras e que, por outro lado, se encontram acorrentados pelo medo do que está recalcado neles próprios. Teremos de esperar que todos eles morram ou se tornem lentamente minoritários. De qualquer maneira, o que acontece de fresco e de novo é a nós que pertence.
Sigmund Freud, in 'As Palavras de Freud'
Sigmund Freud, in 'As Palavras de Freud'
sábado, 14 de março de 2015
Bom fim de semana
E só hoje reparo
O labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu
O labor das nuvens
corais solares
arquitectando o céu
Pássaros brancos
vão pousando
na varanda dos teus olhos
vão pousando
na varanda dos teus olhos
Só hoje enfrento o sol
fogo imóvel,
labareda de água
fogo imóvel,
labareda de água
Andemos, meu amor,
de coração descalço sobre o sol
de coração descalço sobre o sol
Mia Couto
quinta-feira, 12 de março de 2015
olhando ou não as pedras da calçada...
Ninguém Meu Amor
Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos
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Sebastião Alba, in ‘A Noite Dividida’
Hoje foi dia de lição nova para mim, pois não conhecia Sebastião Alba. E tudo aconteceu AQUI.
O inconformista, é para mim a pedra solta na calçada, na qual eu tropeço mas não caio e me deixa a pensar ....
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