segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

leituras pouco breves e profundas

Está um lindo dia", diz a voz de homem. É de manhã e ele tem à frente mais de uma centena de funcionários da empresa que dirige. Estão ali para ser esclarecidos sobre o destino da dita. Porém, antes de começar um discurso de quase duas horas, o homem põe uma condição: só pode ficar quem garantir que confia nele: "Quem não confia pode ir já embora." (continua aqui)

domingo, 6 de dezembro de 2015

"afinal só agora , por prudência, mando a carta" . Bom domingo.

Botequim, 1973, de Nikias Skapinakis

N. Correia, F. Botelho, Maria J. Pires. 1974
Interessante, na pintura de NS, nunca se encontram homens com mulheres. E, hoje lembrei-me de o passar por aqui ao ler CORREPONDENCIA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER / JORGE DE SENA.

7 de novembro de 1964

* O Nikias Skapinakis está preso há um mês.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

A Herberto Helder , em jeito de homenagem. Será.

Morreu Herberto Helder, poeta avesso a homenagens, que de si e do mundo só falou, muitas vezes cripticamente, através da sua produção poética. Por isso, para aqui o recordar, cita-se um excerto do texto que o poeta, ensaísta e professor Manuel Gusmão permitiu que fosse incluído no número 10 (Maio, 2005) da extinta revista Boca do Inferno em que se homenageiam os dois poetas portugueses que muitos consideram ser os maiores do nosso tempo: Carlos de Oliveira e Herberto Helder.
Nesse brilhante ensaio, intitulado Carlos de Oliveira e Herberto Helder ao encontro do encontro, escreve Manuel Gusmão:
«Em Herberto Helder, a poesia é a da palavra que participa celebratória e nocturnamente das "metamorfoses da carne no esquema orgânico da matéria" (Helder, 1985, p. 7), a palavra suscitadora e augural que fragmenta e caotiza o corpo, o mundo e as suas imagens. Fala Herberto daquela "inteligência que aparelha o caos em relações sensíveis de elementos" (ibidem). Depois da tentativa desesperada da invenção de um corpo amoroso em Rimbaud, e das perturbações tectónicas do refazer do corpo próprio em Artaud, Herberto é o grande poeta que une nas transmutações reversíveis o corpo amoroso e escrevente e o cosmos que seria o corpo não-orgânico dos humanos.»

A Fundação D. Luís I organiza no Auditório do Centro Cultural de Cascais, às 16 horas do dia 5 Dezembro, uma celebração do poeta e da sua obra intitulada Herberto Helder: Realidade e Mito, com a participação de Estela Guedes, Fernando Martinho, Gastão Cruz, Júlio Conrado e Salvato Teles de Menezes. A actriz Ana Padrão lerá poemas do homenageado.

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POEMA 
li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a 
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega
de A Faca não Corta o Fogo 


o 1º de dezembro, festa da Restauração, que por aqui só passou a 2... Sempre a tempo e com espaço


...
A festa, por sua vez, evoca o passado e liga-o ao presente, simulando
o futuro, segundo Mona Ozouf(". Nomeadamente a festa de aniversário
pressupõe a repetição na qual se escora a esperança, projectando-se nela
o desejo ou necessidade de imortalidade e de indestrutibilidade.
O significado da comemoração das festas nacionais deve também
ser apreendido à luz da história das mentalidades, na interacção entre
informação e educação, permitindo a dilucidação de um universo psicológico, intelectual e moral através dos gestos, fórmulas e insígnia^'^'.

0' Fernando Catroga, Meriiórin, Histórin c' Historiogrnfin, Coimbra, Quarleto
Editora, 2001, pp. 21-23.
O 1" DE DEZEMBRO - MEMÓRIA E LITURGIA CÍVICA
NA 2' METADE DE OITOCENTOS**, de Maria da Conceição Meireles Pereira, na Revista de História das Ideias, nº28 de 2007

sábado, 28 de novembro de 2015

Uma sugestão e um bom fim de semana



Belíssima exposição individual , na Barbara Gallery,  Lisboa, do fotografo, Arno Rafael Minkkien , nascido da Finlândia em 1945. AQUI
Não sei se será este o tema, mas não deve andar longe. Irei. Vai estar até Janeiro.


Viver sempre também cansa!

"Viver sempre também cansa!
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase verde...
Mas nunca tem a cor inesperada.
O Mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida...
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois, achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
"Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela."
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo..."


José Gomes Ferreira

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Os remorsos de Picasso e as razões do seu período azu l(o deprimido)

Representação da morte de Casagemas, "Evocação", 1901, Picasso
La vie, 1903, Picasso
Numas Jornadas Históricas , em que participei, em Seia, "Os Tempos e as Distâncias, tudo tão perto , tudo tão longe", houve uma comunicação, feita pelo Professor e Psiquiatra Carlos Braz Teixeira, Universidade de Coimbra, deveras interessante. Tema, "Tédios, vazios e distâncias no deprimido".
Da ponte da poesia à psicopatologia do mundo da psiquiatria, Carlos Teixeira falou da dispersão e do labirinto da melancolia: a angústia do existir, a roxidão do sofrimento, as as inquietantes lonjuras, o querer-não querer dar-se à morte. As queixas dolentes de todas as desertificações, umas exteriores, das falésias e dos oceanos, outras interiores, dos fantasmas vividos, postas no corpo e na palavra. Entendam-se por vezes, como sintomas listados e catalogados para a nomenclatura psiquiátrica de quem muito apressadamente só vislumbra o perto, quando a condição humana suscita ver além do horizonte.

Quando falou da morte e do suicídio apresentou estas duas formas de morrer. VanGogh, morre por fora com o suicídio, desaparece fisicamente, e Picasso, na sua juventude" morre" por dentro, com a morte, suicídio, do seu maior amigo, Carlos Casagemas, por causa de umas turbulentas disputas amorosas, onde havia várias envolvidos. Num ato tresloucado, Casagemas tentou matar a sua paixão por se saber traído. Por falta de coragem em matar a sua amante, disparou sobre ele. 
Picasso, sentiu-se enlouquecer e entrou num luto profundo e deu início ao seu período azul onde há várias representações da morte , do luto e da própria morte de Casagemas. Esse luto dilui-se com o inicio do período rosa.
Sendo Picasso,  uma fonte inesgotável de estudo da psiquiatria, há quem pense que a sua forma agressiva e sádica para com as suas mulheres e amantes, tem talvez a ver com a história de Casagemas que aqui vos deixo.
   

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

hino ao amor (as minhas escolhas)

(as minhas escolhas. Maysa era linda e pouco feliz ... E Piaf? Tão pouco.)
Amor e feliz , está no post anterior)