segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Roth, "Conspiração Contra America (via FB )

CONSPIRAÇÃO CONTRA A AMERICA

A propósito da "irresistível ascensão de Donald Trump", têm surgido várias referências ao livro de Philip Roth "The Plot Against America" - de que existe uma edição em Português, "Conspiração contra a América" - o que me levou a relê-lo durante as últimas semanas.
Trata-se de uma ficção de história alternativa, isto é, uma narração que decorre num tempo em que, em relação ao nosso, ocorreu um ponto de divergência no curso da História, a maior parte das vezes um resultado diferente do que, realmente, aconteceu num momento decisivo; trata-se de imaginar o que seria o mundo nesse caso, quais as consequências desse (não) acontecimento.
Um artifício que, por exemplo, José Saramago usa de forma muito original e engenhosa n,"A História Do Cerco de Lisboa".
Philip Roth, utiliza a figura de Charles A. Lindbergh, um herói da aviação imensamente popular pelos seus feitos e também por outros aspectos da sua vida, como foi o caso do "bebé Lindbergh", o rapto e morte do em seu filho, que apaixonou o público americano durante anos e nunca ficou cabalmente esclarecido.
Lindbergh era também muito conhecido pelas suas posições políticas: radicalmente isolacionista, opunha-se à política de Roosevelt de apoio aos aliados e de preparação para a entrada na guerra; era, também, um nacionalista e exibia declaradas simpatias pelo nazismo. Foi ele, ainda, o criador e primeiro grande divulgador do slogan trumpista "America First", à volta do qual procurou criar um movimento populista que o apoiasse numa tentativa (falhada) de concorrer contra Franklin D. Roosevelt pelo Partido Republicano.
Na ficção de Philip Roth, Lindbergh derrota Roosevelt e, Presidente dos EUA, estabelece alianças com a Alemanha nazi e com o Japão, nomeia Henry Ford , cujo anti-semitismo desbragado era conhecido, como Secretário do Interior.e rodeia-se de colaboradores fascistas e pró-nazis.
O anti-semitismo, alimentado pelas acusações anti-judaicas de belicismo, de plutocracia e controlo da imprensa, prospera e os judeus são alvo de perseguições de milícias organizadas, assim como é dada rédea solta ao Ku Klux Klan, transformado numa associação "responsável".
O sistema evolui rapidamente para um "fascismo americano", embora o livro, de acordo com o fio condutor de toda a obra de Roth, se centre sobretudo nas relações raciais e no anti-semitismo.
Não me refiro mais ao desenvolvimento ficcional do livro, até porque acho que ele merece ser lido e não quero "estragar" o prazer do futuro leitor.
O livro foi publicado em 2004, quando começavam a ser evidentes os efeitos deletérios da globalização, do neo-liberalismo e do "pensamento único", da financeirização de economia e da política e da arrogância militar dos EUA.
A partir daí, a UE, umbiguista e sordidamente decadente, embrulhou-se no novelo da sua imparável destruição mas sem nunca admitir - como continua a suceder - as razões pelas quais isso sucede. Como se o proto-fascismo (ou o fascismo "tout court") que alcunham, pudica e hipocritamente de "populismo de direita", a falta de solidariedade, as grandes massas de excluídos e deixados ao deus-dará, sem comida e sem esperança, as crises financeiras e económicas, a forma como a Europa "farol da civilização" trata aqueles que, de fora, a veem como tal e a ela se dirigem, como se tudo isso, dizia, não tivesse causas, antecedentes e responsáveis e fosse algo de inexplicável, uma espécie de peste enviada por Deus, uma maldição incompreensível.
E, agora, descobre-se que também os EUA sofrem do mesmo mal. E que esse mal, como tudo nos EUA, é exponencialmente mais "grave", mais radical, mais perigoso para todo o Mundo.
Oito anos de Obama não mudaram grande coisa, pelos vistos. Se tivessem mudado, Trump seria uma impossibilidade. Em algumas coisas, como na política externa, nas relações internacionais e no plano militar, a era Obama até piorou as coisas.
Ao imaginar quão facilmente os EUA podem deslizar, quase imperceptivelmente, para o fascismo, Roth não estaria a pensar em Trump. Mas, certamente, apercebia-se das pulsões muito obscuras que estão, há muito, latentes na sociedade americana, do "ovo da serpente" prestes a eclodir, tal como acontece na Europa.
Ainda estamos a tempo, talvez Trump não transforme os seus seguidores em bandos "lumpen", milícias violentas e descontroladas, talvez não use as forças militares que diz querer retirar dos teatros de guerra para criar um estado policial doméstico. Penso que não chegaremos a isso. Mas, para não chegarmos a isso, é preciso fazer alguma coisa. Lá e cá.
E leiam "The Plot Against America".

22/1/201
Partilhado, por considerar magnifico e pertinente, do mural de Joao Russo Dias.  Uma referência e reverência  faceboquiana.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A fotografia de Rosa ...

O frio nao me tolheu a memória. Ir buscar a fotogrfia de Rosa Tengarrinha ao FB. 
Uma fotógrafa de mao cheia. Sensibilidade e bom gosto.
O frio nao me alterou o programa . Quando programada  a visita ao Museu dos Caminhos de Ferro Portugueses, no Entroncamento , nao se previa o fenómeno gelido da visita. Longa, mas guiada com paixao e conhecimento . Pois isto de comboios  tem muito que se lhe diga.... 
Para os amantes dos ditos e da fotografia , escolham a primavera ou o verão e nao deixem de conhecer.
Este post é  feito  em andamento . De comboio, claro.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Gelo

Pieter_Bruegel_the_Elder_-_Hunters_in_the_Snow_(Winter
"Ganhei (perdi) meu dia.
E baixa a coisa fria
também chamada noite, e o frio ao frio
em bruma se entrelaçam, num suspiro"

Carlos Drumond de Andrade

Fonte: Jornal Expresso, metereologia

sábado, 14 de janeiro de 2017

Muros e para além deles . Hoje, dou-te um poema .

Cerca de Grandes Muros Quem te Sonhas

Cerca de grandes muros quem te sonhas. 
Depois, onde é visível o jardim 
Através do portão de grade dada, 
Põe quantas flores são as mais risonhas, 
Para que te conheçam só assim. 
Onde ninguém o vir não ponhas nada. 

Faze canteiros como os que outros têm, 
Onde os olhares possam entrever 
O teu jardim com lho vais mostrar. 
Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém, 
Deixa as flores que vêm do chão crescer 
E deixa as ervas naturais medrar. 

Faze de ti um duplo ser guardado; 
E que ninguém, que veja e fite, possa 
Saber mais que um jardim de quem tu és - 
Um jardim ostensivo e reservado, 
Por trás do qual a flor nativa roça 
A erva tão pobre que nem tu a vês... 

Fernando Pessoa, in 'Cancioneiro' 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Hoje , dou-te um verso. Amanhã , não sei....


Num tempo difuso de quebranto,
     Tudo encetei e nada possui...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

rio de Sá-Carneiro, VII-Quasi

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"o segredo"



"o amor nunca está satisfeito, quer sempre mais e mais, faz parte da natureza humana"

Cruzeiro Seixas, 94 anos de idade, em convesa hoje, na RTP2

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Bambi, para todas as idades...

Uma história de miúdos , sobre miudos e que os adultos gostam...
Morreu na sexta feira com 106 anos,  o criador do desenho do BAMBI, Tyrus Wong, nascido em Cantão. Aos 9 anos já desenhava.

Bambi, é uma imagem de ternura para a nossa geração, mas que penso que os pequenotes de hoje não desdenharão. Não sei... Mas confirmo que os ternurentos MIGNONS são a sua perdição.
A mim,  o Bambi fazia-me chorar e eu desejava encontar pessoas que tivessem um pequeno BAMBI dentro do seu coração.

Tenho um amiguinho de 8 anos, o Miguelinho, com quem comecei a trocar uns mails depois que ele este natal ganhou o seu "tablet".
Dei-lhe a notícia, explquei quem era e mandei-lhe este video.
Resposta telegrafica :- Eina, 106 anos... 

Amanhã o meu neto Gabriel faz 22 meses. 
Vou começar por lhe mostrar vídeos pequenos deste animal de estimação ...
O que surgir, logo se verá. ..
Se lhe mostrar um de um MIGNON, sei que começará a rebolar-se dançando, e cabeça para a esquerda e para a direita.
Afinal, em pequenas doses , as avós fizeram-se para "estragar" os meninos, apesar das minhas dúvidas que o tempo de concentração, não dá para estragar nada mas sim para estimular.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Poema de Ano Novo para quem passa.



Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento
Fernando Pessoa
Por motivos "gripais" não tenho coragem de visitar os amigos. Ainda por aqui estou...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

e, mais depressa do que se imagina, estamos quase no fim do ano de 2016, mas sem esquecer o que aqui vos deixo

"Um golo no prolongamento, uma "geringonça" estável, um presidente popular, Guterres na ONU, os resultados do PISA. Este é o ano em que a auto-estima voltou?"

....
"O filósofo José Gil, que aceitou reflectir para este balanço do ano do PÚBLICO, já encontra evidências dessa mudança. “Há uma modificação muito importante num mecanismo da relação dos portugueses com o estrangeiro, que tradicionalmente contribuía para uma imagem negativa dos portugueses. A valorização da imagem que vem de fora mudou este ano, em imensos planos.”

..."José Gil dá um exemplo do que mudou, também aqui. Marcelo Rebelo de Sousa “fez desaparecer a imagem de Cavaco, que era austero”. “O novo Presidente da República reduziu real, e imaginariamente, a distância com o povo. Gestos simbólicos como a abertura dos jardins do Palácio de Belém são muito importantes para esbater essa percepção de distância entre os políticos e os eleitores. É uma forma de democracia participativa de que o povo não tinha o hábito.”

(JORNAL PÚBLICO, artigo completo , AQUI)

sábado, 24 de dezembro de 2016

os desejos, as festas, e as Boas Festas....

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão 
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.
Pablo Neruda

Pintura de Carl Larsson