quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Júlio, "pintor da candura"



Júlio dos Reis Pereira. 

Irmão de José Régio. Júlio dos Reis, também poeta, usando pseudónimo de Saul Dias, mas anulado pela poética de seu irmão. Sobressaiu na pintura.
 Foi hoje para mim uma descoberta .


Pintor da candura, artista duma iconografia simbólica por onde as meretrizes irradiam pureza e se denuncia caricaturalmente a grosseria «burguesa», na qual há músicos e vadios irmãos da noite, Júlio criou um universo que traz o melodrama à ironia, o populismo da feira ou do circo a uma qualidade diferente de graça musical, leve e éterea, mozarteana até.

Frenando Pernes
in«Tanto de Quase Nada... »
Catálogo da Exposição Retrospectivade Júlio.
Fundação Calouste  Gulbenkian, 1979





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terça-feira, 5 de novembro de 2019

"o silêncio da pedra"



Por detrás da sombra
da pedra
por baixo da sombra
da pedra
por baixo por detrás
do silêncio
da pedra
o silêncio da pedra

António Ramos Rosa
Pintura de João Hogan, 1973, sem título

As tentações segundo as tentações ...




   Em 1974, José Luís Porfírio , director do Museu de Arte Antiga, numa abertura ímpar e com o cheiro a cravos de Abril , expôs numa sala as Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch e convidou vários artistas com intervenções programadas e interpretações do dito tríptico . Eu, por afinidade familiar com um artista convidado participei nesse inesquecível evento e aí conheci o maravilhoso e tímido João Hogan .
   Hã coisas inesquecíveis mas que passam de memória...
   Procurando um trabalho de Hogan, apareceu-me o seu tríptico, "The Temptations " de Santo Antão.
   Uma beleza.

sábado, 2 de novembro de 2019

O centenário de Jorge de Sena

GLOSA À CHEGADA DO OUTONO


O corpo não espera.Não.Por nós
ou pelo amor.Este pousar de mãos,
tão reticente e que interroga a sós
a tépida secura acetinada,
a que palpita por adivinhada
em solitários movimentos vãos;
este pousar em que não estamos nós,
mas uma sede,uma memória,tudo
o que sabemos de tocar desnudo
o corpo que não espera;este pousar
que não conhece,nada vê,nem nada
ousa temer no seu temor agudo...
Tem tanta pressa o corpo!E já passou,
quando um de nós ou quando o amor chegou.

de Fidelidade(1958)

terça-feira, 29 de outubro de 2019

"um Seat Málaga antigo"



 Manuel Vilas, que escreveu este “Em Tudo Havia Beleza” de onde vem a citação, tem histórias melhores que a minha mas sem segundas oportunidades - publicou um diário violento e não ficcionado sobre o desamparo irreparável que é a morte de uma das fontes de tudo, um pai, o meu pai, o seu pai, do pai que se ama incondicionalmente mas que condiciona a nossa maneira de amar, e de um filho, você, eu, que descobre no próprio carácter o carácter do pai:

“Um dia o meu pai deixou de se preocupar com o seu carro, um Seat Málaga antigo. Sempre se angustiara obsessivamente com o seu carro, com cuidar dele, com tê-lo sempre em perfeito estado. Abandonou-o numa garagem e deixou de conduzir. Fui eu próprio ver o carro, e estava cheio de pó. Disse-lhe: ‘Papá, o carro está cheio de pó’.
Olhou para mim, e parecia que isto sim lhe causava mossa.
‘Era um bom carro, faz o que quiseres com ele’, disse-me.
Ao desligar-se do seu carro, percebi que o meu pai ia morrer em breve; percebi que aquilo era o fim.
Foi um dos momentos mais tristes da minha vida, o meu pai estava a dizer-me adeus por interposta máquina.
Em vez de me dizer ‘temos de falar, isto está para acabar’, disse-me ‘era um bom carro’. Meu Deus, que maravilha. Viesse de onde viesse o espírito do meu pai, estava tocado pelo dom da elegância, pelo dom do inesperado, pela ingénua originalidade.
Pelo estilo.
Sentei-me numa cadeira da cozinha e fiquei a olhar para ele. Fiquei muito nervoso. Muito angustiado. Só eu em todo o universo sabia o que significavam aquelas palavras, ‘faz o que quiseres com ele’.
Estava a dizer-me algo devastador: ‘Faz o que quiseres comigo, não percebo o teu amor’.
Não percebo o teu amor.
Não te amei o suficiente, nem tu a mim.
Fomos malditamente iguais”.

Mas ser maldito é uma honra, não sê-lo também:

“O meu pai morreu com setenta e cinco anos, viverei eu mais anos do que o meu pai? Estou convencido de que viverei menos, ou talvez precisamente os mesmos anos: setenta e cinco. Mas acho que não, que partirei antes. Parece-me uma descortesia vivermos mais anos do que o nosso pai viveu. Uma deslealdade. Uma blasfémia. Um erro cósmico. Se vivermos mais anos do que os que viveu o nosso pai, deixamos de ser filhos, é a isso que me refiro. E, se deixarmos de ser filhos, somos nada”.

Pai e mãe: se os seus ainda estão vivos, e que vivam para sempre, torne-se repórter da sua família e pratique jornalismo da intimidade - pergunte-lhes o que não sabe da vida deles, faça-o hoje, daqui a pouco, agora, já, pode ser jornalismo de investigação, “mãe, o que é que lamentas nunca ter feito?”; pergunte-lhes o que não sabe das descobertas deles, pode ser jornalismo musical, “pai, when love is gone, where does it go?”. A informação aqui não é poder, é afeto. Pai e mãe: se perdeu um ou os dois, torne-se romancista, imagine grandes acontecimentos, paixões, amores, desgostos, erros, conquistas, fábulas, tragédias, contrições e contradições na existência deles. A imaginação aqui não é mais importante que o conhecimento, é saudade. Somos tantas vezes tão pouco curiosos sobre eles e que erro isso é e arrependimento será, eu sou um arrependido e o Manuel Vilas igual: “A morte dos nossos pais é abjeta, é uma declaração de guerra que a realidade nos faz. (...) Enfim, seja como for, a única coisa óbvia é que, se tiveres de perguntar algo a alguém, fá-lo logo. Não esperes por amanhã, porque o amanhã é dos mortos”. E não costumam ressuscitar como o meu Bruno.

Cronica de hoje , no Expresso Curto, de Germano de Almeida, a propósito da morte de um amigo de infância, o Bruno, que o deixou aos 10 anos. 
Da leitura que anda a fazer, Germano,  deixou esta bela e triste prosa. 
Vida e morte. 


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

No ventre de uma mãe ...



No ventre de uma mãe havia dois bébés. Um perguntou ao outro:
 - Você acredita na vida após o parto? O outro respondeu: 
-Claro que sim. Deve haver algo depois do nascimento. Talvez estejamos aqui para nos preparar para o que virá depois. 
"Que estupidez", diz o primeiro. "Não há vida após o parto. Que tipo de vida seria essa? O segundo diz:
 -Não sei, mas haverá mais luz do que aqui. Talvez possamos andar com nossas próprias pernas e comer com nossas bocas. Talvez tenhamos outros sentidos, que não podemos entender agora.
 O primeiro respondeu: Isso é um absurdo. Andar é impossível. E comer com a sua boca? Ridículo! O cordão umbilical nutre-nos e dá-nos tudo o que precisamos. O cordão umbilical é muito curto. A vida após o parto é impossível.
 O segundo insistiu: -Bem, acho que há algo e talvez seja diferente do que está aqui. Talvez não precisemos mais deste tubo físico.
 O primeiro respondeu: - Além disso, para ter realmente vida após o parto, então por é que ninguém nunca voltou de lá? O parto é o fim da vida e no pós-parto não há nada além do escuro, do silêncio e do esquecimento. Ele não nos levará a nenhum lugar.
 - Bem, eu não sei - disse o segundo - mas certamente vamos nos encontrar com a mãe e ela cuidará de nós.
 O primeiro respondeu: -A mãe? Você realmente acredita na mãe? Isso é ridículo. Se a mãe existe, então onde está ela agora? 
O segundo diz: -Ela está ao nosso redor. Estamos cercados por ela. Somos dela. É nela que vivemos. Sem ela, este mundo não seria nada e não poderia existir.
 O primeiro diz: -Bem, eu não posso vê-la, então, como é lógico, ela não existe.
 O segundo responde: - Às vezes, quando você está em silêncio, se se concentrar e realmente ouvir, você será capaz de perceber a sua presença e ouvir a sua voz amorosa lá em cima.
 Foi assim que um escritor húngaro explicou a existência de Deus..



Carmina Burana - La Fura dels Baus

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Coisas do sono... Está aí a mudança da hora, mas ainda para não ficar

Prémio Nobel da Literatura André Gide escreve sobre o sono numa das suas obras mais conhecidas, “Os Frutos da Terra”.
“Adquiri o hábito de dormir frente à minha janela  escancarada, como se estivesse ao relento. Nas noites demasiado quentes de Julho, dormi completamente nu ao luar; o canto dos melros despertava-me logo de manhãzinha; mergulhava na água fria e orgulhava-me por começar tão cedo a minha jornada. No Jura, a minha janela dava para um pequeno vale que em breve se encheu de neve; do meu leito, via a orla de um bosque; nele voavam corvos ou gralhas; de manhãzinha era acordado pelos pequenos sinos das manadas; perto de minha casa ficava a fonte onde os vaqueiros as levavam a beber. Lembro-me de tudo isso. Nos albergues da Bretanha, gostava de contacto com os lençóis rugosos com a roupa da barrela que cheirava tão bem. Em Belle-Isle, despertava com os cantos dos marinheiros; corria para a janela e via os barcos afastarem-se; depois descia até ao mar.
In Os Frutos da Terra, André Gide, Lisboa, 2007, Ambar   

domingo, 20 de outubro de 2019

Um cheirinho a Oliver Sacks ....

Mulher Sentada, Picasso
Depois de você ter esgotado o que há nos negócios, na política, no convívio, no amor e assim por diante – descobrimos que nenhum deles finalmente nos satisfaz tanto e nos usa permanentemente – o que resta? A natureza. Ela permanece para trazer para fora de seus recessos entorpecidos, as afinidades de um homem ou mulher com o ar livre, as árvores, os campos, as mudanças das estações – o sol de dia e as estrelas do céu à noite ”.

Oliver Sacks

Every Thing in your Palace, Oliver Sacks

sábado, 19 de outubro de 2019

“Não há tempo para o que não é essencial.”

O ensaio a seguir, traduzido de The New York Times, é um excerto do livro “Everything in Its Place”, uma coleção póstuma de escritos do falecido neurologista e escritor Oliver Sacks.
Como escritor, considero os jardins essenciais para o processo criativo; Como médico, levo meus pacientes a jardins sempre que possível. Todos nós tivemos a experiência de vagar por um exuberante jardim ou por um deserto atemporal, andando junto a um rio ou oceano, ou escalando uma montanha e nos sentindo simultaneamente calmos e revigorados, engajados na mente, refrescados em corpo e espírito. A importância desses estados fisiológicos na saúde individual e comunitária é fundamental e abrangente. Em 40 anos de prática médica, descobri que apenas dois tipos de “terapia” não farmacêuticas são de vital importância para pacientes com doenças neurológicas crónicas: a música e os jardins.

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

"Mulherzinhas" do séc. XIX e Mulheres do séc. XX


Mulherzinhas representa “uma nova forma de olhar as mulheres e as possibilidades que se abrem para as elas na segunda metade do século XIX” nos EUA, diz ao Observador a escritora Ana Luísa Amaral.

(via Observador)

Séc. XXI, António Costa, põe em prática no seu novo governo, pela quantidade e qualidade o número de mulheres desejado e prometido.

Um dia , ainda se irá mais longe no mundo em que vivemos. Se as mulheres vingam nas universidades, no mundo do trabalhado e da liderança ,da investigação, o mundo será delas,  desde que não se queiram parecer com os homens. 

O mundo será mais equilibrado e sensível.  Por hoje, o meu  mundo é Portigal.