quarta-feira, 19 de maio de 2021

Paz, precisa-se


 “Temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos”

 Martin Luther King (1929-1968), Nobel da Paz

Fotografia tirada em 2018 por Mustafa Hassona a manifestante de Gaza.




 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Boa semana a quem passa


 
Uma centena de pessoas fugiu de uma festa no Porto.

A polícia entrou na festa e disse: é absolutamente ilegal uma festa sem a distância mínima entre os sujeitos festivos.
O futuro das festas são os ecrãs.
O ecrã pode ser beijado, uma pessoa não.
Que porcaria, diz um. Que porcaria, diz outro.
O ecrã, para uns, é nojento enquanto objecto a ser beijado.
O rosto ou a boca são nojentos, para outros, enquanto objectos ansiosos por serem beijados.
Uma diferença essencial entre o ecrã e a pele humana, é que o ecrã não mostra a mínima ansiedade antes de ser beijado.
Mas também não retribui.
O que é o frio? É a não retribuição, a pura ausência de qualquer troca.
O que é o calor? É a retribuição.
A pele é uma das poucas superfícies no mundo que quando recebe também emite.
A pele que recebe um beijo emite calor, ansiedade ou etc.
(Não se costuma escrever: ou etc. — mas pode perfeitamente assumir-se que o etc. — que é na linguagem o que o infinito é na matemática — pode ser colocado como alternativa e nem sempre como sequência interminável. Ou isto ou etc.).
Um ecrã fica frio como estava — e frio permanece até aparecer uma avaria.
Um ecrã fica demasiado quente apenas no trágico momento de uma avaria técnica.
Já a pele humana tem bem diferentes regras e hábitos bem distintos.
A pele fica quente no momento da alegria.
E parece que isso não passa.

Gonçalo M. Tavares, Revista E, Expresso

quinta-feira, 8 de abril de 2021

De passagem ...


 

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'


terça-feira, 23 de março de 2021

Hoje vim até ao meu "Mar "fazer prova de vida…

Sempre imagine que o paraíso fosse uma espécie de livraria.

José Luís Borges

"The Librarian, 1905, de Elizabeth Green


 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Desejo de viajar ? Não, de momento só passear



“Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados”

 Miguel de Cervantes, 1547-1616, 

Pintura de João Hogan

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Leituras breves ...


 

«Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste porventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues: olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo… É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.

Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser.»


~In, O Tempo Esse Escultor, Marguerite Youcenar

As minhas fotos.

sábado, 30 de janeiro de 2021

"O Norte", crónica


O

Norte atlântico resiste mais ao Chega do que Lisboa e o Sul. Porquê? O ressentimento populista deriva da solidão familiar, da transformação do ser humano num átomo sem ligações familiares e comunitárias, sem bairro, sem fábrica, sem clube, sem igreja, sem família. No Sul e na Grande Lisboa, as pessoas sentem-se sozinhas, desamparadas, sem ligações familiares ou bairristas, e este vazio acaba por criar ressentimento, que agora tem uma expressão política. Sim, é difícil viver na Grande Lisboa, uma metrópole que destrói famílias com as suas distâncias geográficas e humanas. Sim, é difícil viver no Alentejo, e esta dificuldade sulista começa no estilhaçar da base familiar.

Está nos livros, meus caros: o sucesso populista tem por base o colapso da família. Todos os grandes livros sobre esta ascensão populista, “Uma Educação” (Bertrand) de Tara Westover, “Quem Matou o Meu Pai” (Elsinore) de Édouard Louis, “Regresso a Reims” (D. Quixote) de Didier Eriborn, e “Lamento de Uma América em Ruínas” (D. Quixote) de Vance, são também livros sobre o colapso familiar, tal como, se me permitem, o meu “Alentejo Prometido” (FFMS). Não por acaso, no Norte da família há menos mortos de idosos nos lares. 676 idosos do Norte morreram de covid na solidão dos lares; 1219 morreram em lares da Grande Lisboa. No Alentejo, morreram 305 em lares. Este, aliás, é o número mais revelador do Alentejo: com apenas 700 mil pessoas, o Alentejo tem três centenas de mortos em lares. Com 3 milhões e meio de pessoas, o Norte tem seis centenas. Estas diferenças falam por si, dizem-nos tudo sobre a imensa solidão que é a vida familiar no Alentejo e na Grande Lisboa. Quando entramos no Porto através da estação da Campanhã, sentimos logo que estamos noutro mundo, um mundo mais orgânico, com mais toque humano e familiar, um mundo onde é inconcebível a separação das três gerações, um mundo onde a avó marreca é passeada por netos e filhos.

Quando a poeira covídica assentar, é esta a grande lição civilizacional que temos pela frente: os velhos não podem ser largados em armazéns de pessoas

Quando a poeira covídica assentar, é esta a grande lição civilizacional que temos pela frente: os velhos não podem ser largados em armazéns de pessoas. As mortes em cadeia nos lares são a grande tragédia desta pandemia. Ao entrar num lar, o vírus tem ali um dominó de peças facilmente derrubáveis. No pós-pandemia, as cidades ultraindividualistas do Ocidente, representadas aqui por Lisboa, têm de aprender com as cidades mais familiares (Porto, Braga, Aveiro). As pessoas não podem continuar a viver para a sua conta do Instagram, têm de viver para os outros, para os seus próprios pais, avós e filhos. Sim, a vivência em cidade tem de mudar, tal como a organização arquitetónica das próprias casas. Os apartamentos da cidade têm de ser repensados para acolher mais pessoas além da família nuclear. A pandemia destapou de vez a nossa obsessão errada com o isolamento da família nuclear. Quando nos pensamos apenas neste quadrado fechado (mãe, pai, dois filhos), perdemos a capacidade comunitária para ter filhos e para cuidar dos velhos. É preciso uma aldeia para educar uma criança e para cuidar de um velho. Temos de saber criar esse velho espírito comunitário no coração das cidades. Devemos isso aos mortos covid e não covid destes dez meses.

Crónica de João Raposo, Expresso de ontem

 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Os postigos, "al dente"


 Jornal Público de hoje,  jornalista, Nuno Pacheco, escreve à quinta-feira

 


Do vinho à covid, uma lição medieval (com música)


 Em Itália, ao contrário de Portugal, chegaram a reabrir-se postigos para ‘venda segura’ durante a pandemia o Nuno Pacheco No combate à pandemia, quis o Governo português, como já aqui se disse, abolir o uso dos postigos a pretexto de evitar Ælas, ajuntamentos, convívios e outros perigos públicos. Isto ao mesmo tempo que, nos estabelecimentos de comércio e serviços considerados essenciais por lei, continua a ser possível entrar em lojas e manusear produtos, em contacto (mesmo que distanciado, com máscaras e gel) com outros clientes e, claro, com os funcionários de serviço. Exemplo bem diferente é o de um país que já foi muito dilacerado pela pandemia, a Itália. Na região da Toscana, postigos centenários foram reabertos em 2020 para servirem de postos de “venda segura” aos habitantes, recuperando uma prática antiga, já que tais postigos tiveram idêntico uso durante a segunda praga da peste que assolou a Europa no século XVII. Mas não foram criados para esse Æm. De início, tais postigos, denominados buchette del vino, Casando-se postigos e vinho (um matrimónio à italiana, já que em Portugal, nesses termos e nestes dias, ele é categoricamente proibido), também deles a música tem feito eco, ao longo de décadas. Começando pelos postigos, entre muitos exemplos que decerto haverá, aqui Æcam alguns. Como o da canção tradicional Ó ferreiro: “Ó ferreiro guarda a Ælha/ Não a ponhas ao postigo/ Que anda aí um rapazinho/ Que a quer levar consigo”; ou o Novo fado alegre, escrito por Ary dos Santos e musicado por Fernando Tordo, que Carlos do Carmo defendeu no Festival da Canção de 1976: “Amigo/ Vou-te bater com as palavras ao postigo”; mas também Lá em baixo, de Sérgio Godinho: “E no entanto sobressalto/ Se me batem ao postigo”; ou Tecto na montanha, de José Afonso: “Num lugar ermo/ Só no meu abrigo/ Aí terei meu tecto/ E meu postigo.” Mais recentes, registe-se ainda Rosa à janela, dos Baile Popular (“Lembro-me dela ao postigo/ E agora põe-se à janela”), Namorei sempre à tardinha, de Francisco Naia (“Chegadinho, chegadinha, chegadinhos/ Ao postigo e à janela”) ou Amores de Jericó, de Celina da Piedade e Alex Gaspar (“Deixo-te ao postigo/ Um lenço e uma rosa”). Já o vinho tem na poesia e na música uma história bem mais antiga e quase sempre ligada aos amores, como comprovam o milenar Cântico dos Cânticos: “Sustentai-me com taças de vinho,/ Cuidai-me com maçãs,/ Pois eu estou doente de amor” (Ed. Artis, 1993, Capítulo 2); ou o Rubayat de Omar Khayyam, 1044-1125: “Se os que amam o vinho e o amor vão para o Inferno, então o Paraíso deve estar vazio” (Ed. Coisas de Ler, 2002, pág. 56). No que toca a Portugal, um livro recente vem recordar-nos os passos dessa história. Chama-se Amor e Vinho, da Poesia Luso-Árabe à Nova Música Portuguesa, séculos XI/XXI (Ed. Colibri, 2020), e o seu autor, Eduardo M. Raposo, percorre nele épocas, autores, poemas e canções em que o amor e o vinho se entrelaçam; ou mesmo discos inteiros, como Vinho dos Amantes, de Janita Salomé. Se estivéssemos em Florença, talvez o vendessem ao postigo. E com uma taça de vinho a acompanhar. tinham por Ænalidade vender vinho a retalho. Cosme I de Médici (1519-1574), primeiro grão-duque da Toscana e o segundo duque de Florença, quis agradar aos nobres, decretando que estes podiam vender o vinho que produziam nas suas propriedades a partir dos seus palácios, sem pagar impostos e dispensando intermediários. E assim foram surgindo buchette del vino bem junto aos portões senhoriais, servindo ainda essas “pequenas portas para o mundo” também para actos de caridade à medida da época, com cedência de excedentes alimentares aos pobres. A peste negra, porém, veio dar-lhes outro uso: o defensivo. Tais portinholas eram agora uma barreira contra o contágio, e tudo o que se vendia através delas (vinho e outras bebidas, em copo ou garrafa) mantinha prudente distância entre comprador e vendedor. Num documento raro, Relato do contágio, estado em Florença nos anos 1630 e 1633, escrito pelo bibliotecário grão-ducal Francesco Rondinelli e citado no diário italiano La Repubblica em Maio de 2020, dizia-se que, a título preventivo, “as moedas pagas pelo vinho eram retiradas pelo estalajadeiro com uma pá de cobre e depois esterilizadas em vinagre”. O La Repubblica voltou a esta história, porque na Toscana as ancestrais buchette del vino estavam a ser reabertas e reutilizadas como defesa contra a covid-19, vendendo-se através delas bebidas e produtos alimentares.

sábado, 23 de janeiro de 2021

Eu vou votar


 Esta é uma escola linda, linda . Anteriormente ,  havia uma outra escola onde meu filho fez a primária.

Hã uns seis anos, com fundos europeus e municipais, foi construída esta escola modelo segundo a arquitectura finlandesa para o seu parque escolar .

Ficou com o nome do arquitecto Raul Lino pois no Monte Estoril existem seis ou sete casas bem diferentes umas das outras, projectadas por este reconhecido arquitecto do Estado Novo.  O Estado foi -se, mas a obra ficou e bem.

Amanhã atravessarei a rua para exercer o meu direito de voto, nesta escola,  numas eleições  completamente loucas e enlouquecidas...Custa-me a crer que não tivesse sido possível  uma outra data , o estado é quase de sítio .... O invasor não se vê, mas mata muito.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Os limões de São Cyro ...


    A Torre até dera um Beato, Cyro de nome, mais tarde feito Santo pelas interceções com que protegem das pragas as laboriosas gentes da  Ribeira Lima. Contava o caseiro que, daqueles limões - os célebres limões de São Cyro - só o sumo bastava para tirar o catarro e os nós da garganta. «Com açúcar  e em água bem fervente  produz rebuçado que, mergulhado em aguardente de medronho ou bagaceira fina, dá ainda mais oito dias de vida a um morto.» Limões cintilantes, de casca carcomida como a serra de Arga!

   - Meus senhores , se quiserem levar limões de São Cyro para as constipações  ou para chá, posso vender-lhes aos três de cada calibre. Eu dava-os, mas tem-se que tirar lucro, até mesmo da árvore do Santo. Pecado! O que vale é o Abade da Moutosa! Tem feudo de mil limões por ano para a ninhada da catequese.


Excerto de uma leitura que ando a fazer, A Torre da Barbela, de Ruben A.

AS minhas fotografias