sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Fernando Botero vem aí... Novembro está próximo...






































Nunca esquecerei a mega exposição de escultura que durante meses esteve patente  na Praça do Comércio  em Lisboa da autoria de Fernando Botero.
Além de passar todos os dias a caminho da minha escola, no Castelo de S. Jorge, também rapidamente lá chegava com os meus alunos que se divertiam imenso com aquelas figuras hiper redondas e lascivas...
Hoje, repetida , na beleza em que se tornou esta nossa Praça seria um outro desfrute ...
Isto para vos dizer que em novembro, 14, vai ser inaugurada uma nova exposição, como  (Aqui) podem ver, mas de temática bem diferente....
Aguardemos pois....

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Notícias do Jaime... "A Europa Alemã", (continuação)

Como foi proposto AQUI,  na primeira parte da tradução do livro do sociólogo alemão, Ulrich Beck," A Europa Alemã", hoje mais duas páginas chegaram atá mim...

Beck, Ulrich (2012)
A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise
(Berlim: Suhrkamp Verlag)

Introdução: [9-11]
A Alemanha perante a decisão do ser ou não ser da Europa

     «Hoje, o parlamento federal alemão decide o futuro da Grécia», ouço dizer, no fim de Fevereiro de 2012, nos noticiários radiofónicos. Nesse dia tinha lugar uma votação acerca do segundo «pacote de ajuda», associado a imposições de austeridade e a condições obrigando a Grécia a aceitar ingerências na sua soberania orçamental. É claro que é assim mesmo, diz uma voz, no interior do meu peito. A outra, porém, pergunta, sem poder acreditar no que acabara de ouvir: Como é possível uma coisa destas? Mas afinal o que significa que uma democracia decide, pela votação, o destino de uma outra democracia? Bem, os Gregos precisam de dinheiro dos contribuints alemães. As medidas de austeridade impostas, porém, equivalem a uma limitação do direito de autodeterminação do povo grego.
     Nessa altura, chocante era não só o conteúdo da asserção, mas também a maneira como tal situação, na Alemanha, era considerada perfeitamente normal. Escutemos isto, de novo, com mais atenção: o parlamento alemão – e não o grego – decide o futuro da Grécia. Será que uma coisa destas faz sentido?
     Vamos fazer um pequeno “Gedankenexperiment”, ou seja, usemos uma palavra alemã que não se costuma traduzir e que significa algo como uma simulação mental de uma experiência. Admitamos então que os Alemães iriam ser convidados a decidir, por votação, se a Grécia, agora (portanto no Verão de 2012, quando este texto está a ser elaborado), haveria de sair do euro. O resultado previsível seria: «Acrópole, adeus!” – como se podia ler na capa da revista “Der Spiegel”. (2) Vamos ainda admitir que os Gregos iriam ter que responder à mesma pergunta, num plebiscito. O resultado provável teria sido uma clara maioria (segundo uma sondagem de Maio de 2012, cerca de 85%) a favor da permanência no euro. (3)
     Como iria ser possível resolver estas discrepâncias nas decisões de democracias nacionais? Qual é a democracia que leva a melhor? Com que direito? Com que legitimação democrática? Ou será que as constrições económicas desempenham, aqui, um papel-chave? Será que, afinal, a retenção de créditos constitui [10] a alavanca de poder decisiva? Ou a Grécia, o país que inventou a democracia, perde, por causa do peso das suas dívidas, possivelmente também o  direito à autodeterminação democrática?
     Em que país, em que mundo, em que crise estamos nós a viver... quando uma tal interdição democrática, levada a cabo por outra democracia, não provoca o menor escândalo? Neste processo, a fórmula «Hoje, o “Bundestag” decide o destino da Grécia» peca por insuficiência. É que, aqui, já não se trata apenas da Grécia. Trata-se da Europa. «Hoje, a Alemanha decide o ser ou não ser da Europa» – esta frase é que exprime, com precisão, o estado da atual situação mental e política do momento histórico que atravessamos.
     A União Europeia tem 27 Estados membros, com os Governos e Parlamentos respectivos, dispõe de um Parlamento próprio, de uma Comissão, de um Tribunal, de uma encarregada de Negócios Estrangeiros, de um Presidente da Comissão Europeia, de um Presidente do Conselho Europeu, etc., etc. Mas a crise financeira e do euro catapultou a Alemanha, com o seu poderio económico, para a posição de grande potência decisiva da Europa. Em escassos setenta anos, a Alemanha que, depois da Segunda Guerra mundial e do Holocausto, estava de rastos, tanto moral como materialmente, passou de aluno aplicado para mestre-escola da Europa. De acordo com a autocompreensão dos Alemães, a palavra «poder», tanto ontem como hoje, continua a ser considerada palavra suja, preferindo-se por isso substituí-la por «responsabilidade». Os interesses nacionais ficam discretamente escondidos por detrás de grandes palavras como «Europa», «paz», «cooperação» ou «estabilidade económica». Quem ousar pronunciar a fórmula de poder da «Europa alemã» quebra este tabu. Seria ainda muito pior dizer: a Alemanha assume a «chefia» da Europa, porque a palavra alemã «Führung», para “chefia”, faz logo lembrar o «Führer» Adolfo Nazista, ou o «duce» do fascismo italiano. (4) Por isso só se poderá dizer, de acordo com este código eufemista alemão: a Alemanha assume «responsabilidade» pela Europa.
     A crise da Europa, porém, está a agudizar-se e a Alemanha vê-se colocada perante a decisão histórica de: ou revitalizar, contra todas as resistências, a visão da Europa política; ou manter, porém, a política do ir-se arranjando no meio da crise e da táctica domesticadora da hesitação – e isto «até que o euro nos separe». A Alemanha tornou-se demasiado poderosa para poder dar-se ao luxo de não tomar qualquer decisão.
     [11] Na esfera pública alemã, o facto de ter chegado este «momento de decidir» é raras vezes mencionado, embora o seja, e muito claramente, nos comentários de observadores estrangeiros. Por exemplo, Eugenio Scalfari, jornalista e escritor italiano, argumenta da seguinte maneira: «Se a Alemanha levar a cabo uma política financeira que conduza ao fracasso do euro, então os Alemães terão que assumir a responsabilidade pelo fracasso da Europa. Isto seria a sua quarta culpa, depois das duas guerras mundiais e do Holocausto. A Alemanha tem que assumir, agora, a sua responsabilidade para com a Europa.» (5)   
     Ninguém deverá ter dúvidas quanto a este ponto: numa «Europa alemã», a Alemanha seria sempre responsabilizada pelo fracasso do euro e da UE.

(Tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor jubilado , Bochum)

Divulgação... Auditório Sra da Boa Nova



Ontem assisti a um concerto no Auditório da Srª da  Boa Nova pela Sinfonetta  de Lisboa com 
a participação de Pedro Jóia.
Foi um belo momento o da fusão de Pedro Jóia  e da Orquestra, interpretando um Díptico de Lisboa : Barra do Tejo e Evocação do Fado Menor.

Ora o motivo desta conversinha convosco tem a ver com a divulgação de um espaço que precisa e ser frequentado. 
Este auditório, pertence à Paróquia do Estoril e inclui um colégio, apoio a idosos e jovens em risco. (ocupa o antigo Bairro Fim do Mundo, antro de droga, consumo e venda, em S. João do Estoril).
Claro que também foi construído com o dinheiro  dos munícipes.... pois a CMC colaborou.
É o único auditório do concelho de Cascais, com umas condições ao nível de um Centro Cultural de Belém, com uma programação erudita... mas com  pouca frequência.

Ontem houve um apelo à sua divulgação... Penso que há um desfasamento , ou falta de comunicação, entre a entidade responsável, a Paróquia, e a CMC, pois a divulgação da programação nem sequer tem constado até aqui da Agenda Cultural. (coisa que não me espanta... )

4 de Novembro começará o Ciclo Mozart & Mendelssonhn.
18h 30m

1 de Dezembro 18h, Auditório Municipal Ruy de Carvalho

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A Alemanha e as conversas do Jaime....


O HOMO TEUTONICUS actual

O Alemão contemporâneo, ou seja, o HOMO TEUTONICUS representado por um universo de 82 milhões de indivíduos, do qual também faço parte desde finais do século passado, pode classificar-se em dois grandes grupos: o Alemão Burro e o Outro Alemão.

O Alemão Burro, em geral, fala bávaro, suábio, alemânico, saxónico, turíngio, francónico, frísio...; os seus bisavós e tetravós alcandoraram Hitler ao poder, legalmente, em 1933; hoje satisfaz as suas necessidades intelectcuais lendo o maior tablóide da Europa, que é também a maior nódoa da imprensa alemã e europeia, e em que Anja Markiavel é taxada de “chanceler de ferro”, uma imagem fatal, porque vem aí chuva abundante e aquele ferro vai apanhar muita ferrugem; vota nela, enquanto não aparece o segundo Adolfo, que o ajude a dar cabo de tudo, outra vez, como no “milénio” do III Reich, com maior eficácia e rapidez.

Não fala línguas estrangeiras, a não ser, na melhor das hipóteses, um Inglês macarrónico, com forte sotaque. Não se lhe peça que aprenda a falar Francês, por exemplo, porque o Alemão Burro nunca irá entender os não Alemães, em geral, e muito em especial os povos provenientes de culturas românicas. Mas gosta de passar férias em Maiorca, lendo o maior tablóide para imbecis, e emborrachando-se de tal maneira, após ter satisfeito as necessidades da pobre mioleira... que acaba por urinar nos baldes de sangria... como os porcos na gamela. (Estas imagens, transmitidas pelos canais privados de TV, foram proibidas, por serem demasiado chocantes).

O Outro Alemão descende de uma elite intelectual, científica e artística que deu ao mundo génios como Leibniz e Goethe, Einstein e Heisenberg, Kant e Hegel, Bach e Beethoven, Thomas e Heinrich Mann, B. Brecht... e tantos outros que seria ocioso mencionar. Hoje está representado por sociólogos como Ulrich Beck, professor jubilado da Universidade de Munique, e docente da London School of Economics e da Harvard University. Ou por filósofos como Jürgen Habermas, conhecido em todo o mundo civilizado.

O Outro Alemão, na Suábia, levou ao poder, recentemente, um político ambientalista (o ministro-presidente Kretschmann) e, no domingo passado próximo, em Estugarda, o primeiro burgomestre Verde, Fritz Kuhn.

O Outro Alemão prepara-se para corrigir os desmandos da política desastrada de Anja Merkiavel, a filha do pastor que bem gostaria de ter formato de estadista, coitada, mas que não passa de mais uma banal cínica de poder, com um apetite ávido pelo tacho, como tanta outra gentinha do nível rasteiro dela.

Resumindo: até Setembro futuro próximo, o mundo irá assistir ao duelo entre o Alemão Burro e o Outro Alemão.

Como militante do SPD (mas tão desiludido que nunca ponho os pés nas reuniões organizadas pelos zelosos funcionários para entreterem quem vai pagando as quotas)... espero que o Outro Alemão leve a melhor.

Para bem da Europa e do mundo. E... last but not least... da própria Alemanha!

Afinal… também sou Alemão, repito… não obstante os esforços desesperados do taxista sr. Schneider, ativista nazi convicto... para tentar impedir-me de o fazer... uma cena tão imbecil e grotesca... que nem vale a pena dar mais pormenores.

[Bochum, terça, 23 de Outubro de 2012], Jaime Ferreira da Silva

Momentos...


Este Outono quase me mata...
Hoje, em Sintra...

domingo, 21 de outubro de 2012

Notícias do Jaime.... « A Europa Alemã», partes (0) e (1)


Vamos lá preparando a visita de "Merkiavel".... para Novembro...
Mão amiga.... lutador incansável desta "forma " de Europa, mas crente numa outra,  se Merkel desaparecer nas eleições de 2013... , Jaime Ferreira um estudioso de filosofia e sociologia, apresenta-nos, "petit à petit"... a tradução de um pequeno livro saído na Alemanha, do sociólogo alemão, Ulrich Beck (1944)
Vão passando pois pelo Mar....

Beck, Ulrich (2012)
A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise
(Berlim: Suhrkamp Verlag)

(0)Índice [p. 5]

Prefácio
Introdução: a Alemanha perante a decisão do ser ou não ser da Europa

I. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga
1. A política de austeridade alemã divide a Europa: os Governos aprovam-na, as populações
    estão contra
2. Os sucessos da União Europeia
3. A cegueira da economia
4. Política interna europeia: o conceito de política referida ao Estado nacional é anacrónico
5. A crise da União Europeia não é uma crise de endividamento

II. As novas coordenadas de poder na Europa: como se chega à Europa alemã
1. A Europa ameaçada e a crise da política
2. A nova paisagem de poder na Europa
3. «Merkiavel»: a hesitação como táctica domesticadora

III. Um contrato social para a Europa
1. Maior liberdade através de mais Europa
2. Maior segurança social através de mais Europa
3. Mais democracia através de mais Europa
4. A questão do poder: quem é capaz de impor o contrato social?
5. Uma Primavera europeia?



[p. 6 ]

(1)Prefácio [pp. 7-8]


     Será que, quando o leitor tiver este livrinho entre mãos, na Grécia se voltará a efectuar pagamentos em dracmas ou, até na própria Alemanha, em marcos alemães? Ou será que o leitor vai sorrir destes cenários sombrios, por a crise ter sido superada, há muito, e a Europa política ter saído dela, fortalecida? Já o simples facto de se fazerem estas perguntas, o andar às apalpadelas na névoa da incerteza, diz muitas coisas acerca do estado volátil da Europa e do risco de se querer entendê-lo.
     Todos sabem isso, mas dizê-lo, explicitamente, é o mesmo que quebrar um tabu: a Europa tornou-se alemã. Ninguém o quis, deliberadamente, mas, em face do colapso do euro, a potência económica que é a Alemanha «resvalou» para a posição de grande potência europeia decisiva. O historiador inglês Timothy Garton Ash escreveu o seguinte, sobre este assunto, em Fevereiro de 2012.

No ano de 1953, Thomas Mann proferiu, em Hamburgo, um discurso perante estudantes em que lhes implorou que não lutassem por « Europa alemã» uma mas sim por uma« Alemanha europeia» . Este fórmula foi repetida, vezes sem conta, nos dias da reunificação alemã. Hoje, porém, assistimos a uma variação dela que só poucos tinham previsto: uma Alemanha europeia, em uma Europa alemã.(1)

     Como é que foi possível acontecer isto? Quais são as suas consequências? Que futuros ameaçadores haverá, ou que vantagens aliciantes? Tudo isto são questões que irei discutir, neste trabalho.
     Presentemente, o debate público é quase exclusivamente dominado pela perspectiva da economia, o que parece ser um pouco absurdo, se nos lembrarmos de como os próprios economistas foram surpreendidos pela crise. O problema que, aqui, reside, é o seguinte: a perspectiva económica não vê que não se trata apenas de uma crise da economia [8] (e do pensamento económico) mas antes, muito em especial, de uma crise da sociedade e da política – e da compreensão predominante de sociedade e de política. Não sou eu portanto que, como sociólogo, estou a fazer incursões no terreno alheio da economia, a economia é que se esqueceu da sociedade de que ela trata.  
      A minha intenção é propor, neste trabalho, uma nova interpretação da crise. Gostaria de tentar analisar, detidamente, as notícias que se vêem, diariamente, nos programas televisivos ou nas parangonas dos jornais, e investigar o seu relacionamento mútuo. A leitura que ofereço assenta no quadro de referência da minha teoria da sociedade de risco. Esta perspectiva, focada num modernismo sobre o qual se perdeu o controle, que apresentei nas obras respectivas, vai ser, aqui, desenvolvida em relação à crise da Europa e do euro.
     Para superar a crise precisamos, de acordo com um ponto de vista muito difundido, de mais Europa. Este “mais Europa”, porém, encontra cada vez menos adesão nas sociedades dos Estados membros. Poder-se-á pensar na consumação da união política partindo destes pressupostos? Em uma política fiscal, económica e social comum? Ou, no decurso da união política, deixou-se de fora, durante muito tempo, a questão decisiva, ou seja, a questão da sociedade europeia, ignorando-se o soberano, ou seja, o cidadão?
   Put society back in it! Não se esqueçam da sociedade! O objectivo deste trabalho é dar visibilidade, na crise financeira, às modificações do poder e à nova paisagem de poder, na Europa.
       

Tradução de Jaime Ferreira, professor/leitor na Alemanha, jubilado

Bom domingo...


sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina.... 1943-2012... As suas palavras...

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa
.

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"




quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Maternidade... hoje, porque sim..

     

 POEMA DE ME CHAMAR ANTÓNIO   
                 
 Hoje ao nascer do sol, de manhãzinha,
ouvi cantar um galo no quintal
quando eu tinha seis anos e fui passar as férias do Natal
com a minha madrinha.

Na cama improvisada no corredor
sabiamente fingia que dormia
muito embrulhado num cobertor,
enquanto numa luz melada e quase fria,
o mundo, sabiamente,
fingia que nascia.

E então apeteceu-me também nascer,
nascer por mim, por minha expressa vontade,
sem pai nem mãe,
sem preparação de amor,
sem beijos nem carícias de ninguém,
só, só e só por minha livre vontade.

Dobrado em círculo no ventre do meu cobertor,
enrugado como um feto à espera da liberdade
(viva a liberdade!)
cerrava e descerrava as pálpebras, sabiamente,
como se as não movesse,
como se não sentisse nem soubesse,
abrindo-as numa fenda dissimulada e estreita,
insensível às coisas quotidianas,
mas hábil para aquela alvorada puríssima e escorreita
que me inundava o sangue através das pestanas.
Fremiam-se-me as pálpebras sacudindo na luz um pó de borboletas,
um explodir de missangas furta-cores,
bacilos e vapores,
rendas brancas e pretas.

Cada vez mais feto, mais redondo, mais bicho-de-conta,
mais balão, mais planeta, bola pronta
a meter-se no forno,
mais eterno retorno,
mais sem fim nem princípio, sem ponta nem aresta,
excremento de escaravelho aberto numa fresta.

Foi então
que o tal galo cantou.
Looooooonge...
Muito looooooonge...
no quintal da vizinha,
lá para o fim do mundo mesmo ao lado da casa da minha madrinha.
Era uma voz redonda, débil, inexperiente,
bruxuleante como a chama
que está mesmo a apagar-se e esperta de repente
e novamente morre e de novo se inflama.
Uma voz sub-reptícia, anódina, irresponsável,
fugaz e insinuante,
um canto sem contornos, aéreo, imponderável.
Tudo isso e muito mais, mas principalmente distante.

Foi assim que a voz do galo na capoeira
do quintal da vizinha
que tinha plantado ao centro uma nespereira
mesmo junto da casa da minha madrinha,
penetrou no ventre macio do meu cobertor.
Era uma frente de onda, compacta e envolvente,
pura já na garganta e agora mais que pura,
filtrada
e destilada
nos poros ávidos da minha cobertura.
Chegou e fulminou o meu ser indigente,
exposto e carecido,
naquele gesto mole e distraído
do Deus omnipotente
da Capela Sistina
quando ergue a mão terrível e fulmina
o coração
de Adão.

E pronto. Eis-me nascido. Cheio de sede e fome.

António é o meu nome.

POEMA DE ANTÓNIO GEDEÃO
PINTURA DE GINO SEVERINI (1883-1966)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Recebo a chuva... e penso a vida nas palavras dos outros...

Viver é...

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'


Pintura de Ronaldo Mendes