segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Leitura breves...

                                                   Pintura de António Viana, anos 80

" Depois de termos subido uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir."

Nelson Mandela

sábado, 3 de novembro de 2012

Notícias do Jaime.. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga.


De novo as notícias do Jaime e a continuação da sua tradução do livro de Ulrich Beck ,A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise, das paginas 18 a 20.
Deixo aqui o link do post anterior.
Partilhemos pois a forma lúcida de Beck ver a Europa "sob o signo da crise"...



I. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga [12-25]

3. A cegueira da Economia [18-20]

     Em face da impossibilidade de se saber, ao certo, e da dificuldade de destrinçar as coisas que as modernas sociedades de risco produzem, por assim dizer, automaticamente – e para nos oferecerem orientação, nesta selva gnoseológica, estão disponíveis, hoje, multidões de especialistas, ou expertos, como agora se diz. E é verdade que os economistas, ao  pronunciarem-se sobre a crise, contribuem para tornar o mundo mais compreensível. No entanto os que «entendem o capital» (12) estão a reduzir, agora, de uma maneira estranha, a complexidade dos mercados financeiros globais: personalizam e emocionalizam o que acontece nos mercados, introduzindo conceitos sobre o estado de saúde – tirados de manuais de diagnósticos terapêuticos – na linguagem da bolsa, cunhada segundo parâmetros racionais. É por isso que lemos expressões como: nos mercados «os nervos estão à flor da pele», não se deixam «enganar», são «tímidos», estão «nervosos» e têm propensão para «reacções de pânico».
     Também se poderia dizer: a perspectiva económica, em termos sociais e políticos, é cega e causa a cegueira, os conselhos das Ciências Económicas, que dominam a discussão, assentam num «analfabetismo» político-social (Wolfgang Münchau). (13) Esta cegueira deriva, possivelmente, do facto de os economistas contemplarem o mundo sempre através de uns modelos quaisquer – e, se os modelos não se ajustarem à realidade, surge um problema. Wolfgang Münchau, no Financial Times, pôs o dedo na ferida:

«Os macro-economistas, em geral, não dispõem de um modelo adequado para a União Monetária Europeia. Confundem-na com um chamado «loose fixed-exchange-rate system» [ou seja, uma união monetária em que as cotações estão fixadas de acordo com determinados [19] parâmetros directores; UB], ou com um país com uma moeda única, portanto com sistemas para os quais dispõem de modelos. A uma união monetária, porém, não se podem aplicar estes modelos, por ela não ser nem um Estado, nem um acordo flexível combinado entre Estados, no qual os Estados-membro continuem a exercer a sua plena soberania. [...] É certo que continua a haver [nos respectivos acordos; UB] algum espaço de manobra para a adesão de Estados que, como a Dinamarca ou a Grã-Bretanha, decidiram não entrar já para o euro. Não há, porém, o mínimo espaço de manobra para a saída de um ou de mais países.» (14)

     É, precisamente, com base neste último ponto que se pode mostrar, com muita clareza, como os especialistas de Ciências Económicas estão a induzir em erro, com as suas propostas, tanto a área pública como a política. Muitos manifestam-se como se a saída da Grécia do euro fosse a solução. Depois – como está implícito, ou explícito, nesta mensagem – os Alemães deixariam de ter de «se sacrificar», em termos financeiros, por causa dos Gregos. Estas asserções, porém, têm pernas curtas e estão até mesmo erradas, pelo menos por quatro motivos:
     Primeiro: A saída de um Estado-membro do euro não está regulamentada. Poderia, quando muito, ocorrer apenas a pedido do país em causa. Os Gregos, porém, na sua maioria, querem continuar a fazer parte da união monetária.
     Segundo: Um retorno dos Gregos ao dracma provocaria um corte da dívida que iria afectar bancos e empresas, em todo o mundo – antes de mais as instituições financeiras alemãs, francesas e americanas que, anteriormente, tinham investido nas dívidas estatais gregas que eram, nessa altura, um negócio «favorável». Isto quer então dizer, na verdade, que uma saída dos Gregos da Zona Euro poderia desencadear, de novo, o perigo duma crise como a que foi provocada pela bancarrota do Banco Lehman Brothers.   
     Terceiro: Mesmo que os Gregos, no caso de saírem do euro, não viessem a receber quaisquer transferências do “chapéu de chuva” de protecção europeu, continuariam a ter direito, como país da União Europeia em dificuldades, a receber ajuda (o que, de resto, é o motivo por que os Britânicos são, de forma tão veemente, a favor de “eurobonds” [20] e da permanência da Grécia na Zona Euro – já que, de outro modo, também teriam de contribuir para essa ajuda). Como ninguém pode estar interessado em que a Grécia se afunde no caos e na anarquia – ou até que se torne, de novo, uma ditadura militar – os restantes membros da UE seriam obrigados a apoiar o Estado grego com somas que, ainda hoje, são inimagináveis e estão também por contabilizar. Os custos sociais que o retrocesso para o nacionalismo, talvez até mesmo também para a xenofobia, a violência e a ditadura iriam causar aos próprios Gregos, mas igualmente aos restantes Europeus e à comunidade mundial – é assunto que a perspectiva meramente economicista não pode, nem quer tomar em consideração. Por este motivo também ninguém está, realmente, em condições de poder «calcular» o que nos iria sair mais caro: se a permanência ou a saída da Grécia do euro.
     Quarto: Portanto faria muito mais sentido discutir se os Gregos não deveriam sair não só do euro mas também da UE. Um tal passo, porém, iria ter, antes de mais, consequências fatais para a própria Grécia, por ir ficar arredada do acesso a recursos de sobrevivência vitais (por exemplo, os fundos de fomento agrário da UE). Um tal passo, porém, teria igualmente consequências graves para os restantes Estados da UE, se tomarmos em conta que a Grécia (a par de países como a Espanha, a Itália, Portugal, etc.) protege a fronteira externa da União.
     O que uma saída do euro por parte da Grécia, ou de outros Estados endividados, iria, realmente, custar, não se torna portanto visível a partir dos modelos abstractos dos economistas: quem tiver feito poupanças perde grande parte do seu património, o Estado corre o risco de ficar arruinado, as camadas médias da sociedade de ficarem empobrecidas, os pobres ficam ameaçados pela exclusão social – e todos os Europeus ficam com um problema caro e de longa duração, em termos económicos, sociais e políticos. 

Tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor universitário jubilado, Bochum
Fotografia de Ulrich Beck



   


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Entre o aqui e o agora...



















Pintura de Edward Hopper, Square Rock, 1914, exposto na Gulbenkian, exposição AS IDADES DO MAR


Hoje, um amigo meu , disse-me que segundo  Marx, a vergonha é um sentimento revolucionário...
Não sei se me envergonhe ou fique triste...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lisboa recriada antes do terramoto .Super interessante...







Lisboa, Terreiro do Paço, 1640, segundo o pintor holandês, Dirk Stoop

Recriação do Terreiro do Paço antes do Terramoto se 1 de Novembro de 1755.
Muito interessante. VER AQUI

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Notícias do Jaime (continuação) A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise (Berlim: Suhrkamp Verlag)

Aqui vos deixo o link das 2 páginas anteriores , (13-14)
2. Os sucessos da União Europeia [15-18]
     55 anos após a assinatura dos Tratados de Roma, com os quais foi instituída a Comunidade Económica Europeia, a sua sucessora tenta, desesperadamente, provar a si própria e ao mundo que é capaz de passar no teste mais difícil da sua história. Ainda que, neste lugar, não se deva esquecer que muitos dos problemas não são por culpa da UE, mas sim uma consequência da crise financeira dos anos 2008 e seguintes – no decurso da qual gestores de bancos se converteram, de um dia para o outro, em fiéis do Estado, e os Governos abriram gigantescos guarda-chuvas de protecção –, a actual situação faz-nos afinal tomar consciência do erro central que está ligado ao nascimento do euro: num espaço económico de dimensão continental e com uma população de tamanho equivalente, surgiu um mercado comum [16] com moeda, em parte, comum. Mas ficou por dar o passo decisivo no sentido de uma verdadeira união económico-política – razão pela qual não foi possível coordenar, eficazmente, as economias dos Estados da Zona Euro. A concepção de um «nacionalismo recíproco», segundo a qual cada Estado tem o dever de controlar e resolver, ele próprio, os seus problemas financeiros, evitando consequências negativas para aos outros, poderá ser suficiente, em tempo de acalmia, mas em tempo de crise terá que falhar. Ao mesmo tempo, os acontecimentos do Verão de 2012 revelam, com toda a clareza, como todas as coisas estão relacionadas umas com as outras: se um Estado entrar em bancarrota, arrasta outros consigo.
     No meio desta agitação esquece-se, muitas vezes, que a UE, apesar de imperfeita, pode orgulhar-se de grandiosas conquistas: a União Europeia conseguiu o milagre de transformar inimigos figadais em vizinhos; os seus cidadãos gozam de liberdade política e de um nível de vida com o qual só podem sonhar outras populações de outras partes do mundo; a adesão à UE permitiu às anteriores ditaduras da Grécia, Portugal e Espanha converterem-se em democracias estáveis; com 27 Estados (depois da entrada da Croácia, prevista para o 1° de Julho de 2013, serão até 28) e mais de 500 milhões de habitantes, a UE é o maior mercado e bloco comercial do mundo; é possível que o modelo social e económico – a domesticação do capitalismo por parte do Estado-previdência – esteja a atravessar dificuldades, mas dispõe ainda de importantes trunfos e reservas de impulsos para reagir à crise financeira; seres humanos da África subsaariana ou do mundo árabe estão a pôr-se a caminho dos confins do continente da promissão, dispondo-se a correr enormes riscos; o desejo da Sérvia (e de outros Estados da antiga Jugoslávia) de aderir à União prova igualmente a duradoura atractividade da Europa organizada como lugar de liberdade e abastança. E agora tudo isto corre perigo de ficar em ruínas.
     O sucesso da União Europeia é, paradoxalmente e ao mesmo tempo, um motivo para a sua falta de auto-estima. Muitas das suas conquistas parecem tão evidentes às pessoas que, provavelmente, só se aperceberiam delas se, [17] um dia, deixassem de existir. Imaginemos que o controle do passaporte, nas fronteiras e nos aeroportos, voltaria a ser introduzido; que não haveria, em toda a parte, regulamentos fiáveis sobre produtos alimentares, nem liberdade de opinião e de imprensa (que a Hungria, hoje, está a desrespeitar, razão por que este país se sujeita a ser olhado com severidade); que não seria possível, sem ter de superar grandes obstáculos burocráticos, os estudantes trabalharem, nas férias, em Barcelona ou Avignon; que iria ser preciso, em viagens para Paris, Madrid ou Roma cambiar dinheiro, outra vez, e tomar nota dos câmbios. A «Europa pátria» tornou-se a nossa segunda natureza e precisamente isso poderia ser o motivo por que, tão levianamente, a damos por perdida.
     Seja como for, encontramo-nos, efectivamente, num momento histórico difícil, em que deveríamos voltar a ter diante dos olhos a pertinente definição do conceito de crise, elaborada por Antonio Gramsci. A crise, diz Gramsci, é o momento em que a antiga ordem mundial chega ao fim, e em que tem que ser conquistado, superando resistências e contradições, um mundo novo. Mas é precisamente esta fase de transição que é caracterizada por muitos erros e confusões. (10) E, hoje, é justamente a isto que estamos a assistir: uma cisão, um interregno, a simultaneidade de um descalabro e de um novo começo – cujo desfecho está em aberto. (11) Perplexidade, medo, impossibilidade de saber, frustração, desassossego, mas também o desejo ardente de mudança – tudo isto é típico de situações como estas, em que pode ser difícil destrinçar as coisas, nas quais as expectativas das pessoas já não se encaixam nos arranjos institucionais em que deveriam consumar-se. Todos estes sintomas, porém, podem ser já indícios da mudança iminente, como revelam os exemplos históricos da Reforma, da Revolução Francesa ou da implosão do Bloco de Leste. O descontentamento é sempre também o resultado de se estar atentando contra determinados direitos que foram sendo historicamente adquiridos. Nós, Europeus, vivemos em sociedades que declararam a liberdade e a igualdade como princípios fundamentais. Como sociólogo que tem vindo a observar estes fenómenos, não estou por isso nada surpreendido por as pessoas, na Grécia e em Espanha, se revoltarem contra um sistema que provoca desigualdades e injustiças de tão gritantes dimensões e que, escandalosamente, atira os custos, causados por um sistema financeiro descontrolado, para os ombros dos grupos mais frágeis. Uma (18) tal discrepância entre as expectativas e a realidade é sempre um motor de mobilização social. E, de facto, nos últimos meses e anos, temos vindo a ser testemunhas de como as pessoas, em Nova Iorque, Londres, Madrid ou Atenas, vão para a rua – um assunto a que irei voltar, outra vez, no fim deste trabalho.               
     
[Quarta, 31 de Outubro de 2012]
Tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor universitário jubilado, Bochum, Alemanha

Manuel de Falla - nocturno


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Aconteceu...

Duas ou três coisas...
Domingo, recebi a visita de um amigo que me veio oferecer uns frutos secos da época da sua propriedade. Gentil. Entre dois dedos de conversa, que poderiam ter sido três... , falou-me da sua viagem à USA e do seu horror à  forma como foi tratado no aeroporto e da destruição quase maciça da sua bagagem.
Nada que não soubéssemos.
Entretanto , ontem passei pela Gulbenkian, com a intenção de ainda participar um pouco no encontro qe tem como tema   PORTUGAL E O HOLOCAUSTO, APRENDER COM O PASSADO, ENSINAR PARA O FUTURO. (aqui)
Bem , quando cheguei, fiquei em estado de choque  com o aspeto e a real segurança ao vasculharem as malas e da passagem pelo detetor para ter acesso ao Auditório 2.
Fiquei sem saber se ía assistir a  um concerto dedicado ao Holocausto, inauguração de uma belíssima exposição cronológica da história de Portugal e da Alemanha , desde 1926 até 1945 e ainda de um filme com testemunhos de judeus refugiados em Portugal , com histórias de vida e de guerra ou se ía embarcar para  Nova York para assistir à tempestade Sandy.
Ora tendo o encontro sido organizado pela embaixada americana e pela fundação dirigida pela Lurdinhas de má memória... não espanta tão triste ostentação de segurança num país que ainda considero de  acalmia no que concerne ao terrorismo...
Entre nós, terrorismo, só o que este governo implementa, para nos matar lentamente a uns e a outros fulminar.

As imagens do João Viana.... Silhuetas..
















Domingo, pela praia da Figueira da Foz, o João repete os seus passeios pela praia e pelo molhe norte à procura dos melhores momentos para um clik.
Sem exagero, na Figueira,  vislumbram-se os mais belos pôr de sol que me são dados a ver....
Acontece no outono.

domingo, 28 de outubro de 2012

Notícias do Jaime... (continuação). A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise

Amigos, antes de lerem este texto, podem passar por AQUI..... ,texto que antecede este, na magnífica tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor universitário jubilado, Bochum, Renânia, Alemanha.
A luta para derrotar o Merkeavelismo...
.(Ulrich Beck, fotografia)

O livro ser-vos-à apresentado até à tradução final....
Beck, Ulrich (2012)
A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise
(Berlim: Suhrkamp Verlag)

I. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga [12-25]


1. A política de austeridade alemã divide a Europa: os Governos aprovam-na, as populações
    estão contra [12-15]

     Ao contrário de reinos e impérios históricos, cuja origem se encontra em mitos ou heróicas vitórias, a União Europeia nasceu da agonia da guerra e como resposta ao horror do Holocausto. Hoje é a ameaça existencial, provocada pela crise financeira e do euro, que faz  os Europeus cientes de que não vivem na Alemanha, França, Itália, etc., mas sim na Europa. E na medida em que a bancarrota do Estado, a crise económica e a decadência dos mercados de trabalho colidem com expectativas mais ambiciosas, como consequência da expansão do sistema educativo, a «geração da crise» experimenta também o seu destino europeu.
     Quase um em cada quatro Europeus, com menos de 25 anos, não encontra trabalho e, além disso, muitos vão sobrevivendo através de contratos de trabalho mal pago e a prazo. Na Irlanda e em Itália, cerca de um terço dos jovens com menos de 25 anos está, oficialmente, sem trabalho; na Grécia e em Espanha, em Junho de 2012, a taxa de desemprego dos jovens rondava os 53%, em cada um destes dois países. Na Grã-Bretanha, desde o início da crise financeira, em 2008, a taxa subiu de 15 para 22%. Em Tottenham, onde rebentaram os distúrbios, no ano de 2011, para cada lugar de trabalho há 57 candidatos. (6)
     Em toda a parte onde o precariado académico acampou e ergueu a voz, reivindica-se justiça social – uma reivindicação que em Espanha, Portugal, mas também na Tunísia, Egipto e Israel é feita sem violência, mas de forma veemente. A geração do facebook transporta este protesto, apoiada pela maioria da população dos respectivos países. A Europa e a sua geração jovem estão unidas na ira contra uma política que salva os bancos, com somas de dinheiro incalculáveis, mas que descura o futuro das gerações jovens.
     A crise e os programas para a salvação do euro deixam sobressair os contornos de uma outra Europa, de um continente dividido, [13] atravessado por novos fossos e fronteiras. Um destes fossos ocorre entre os países do Norte e os do Sul, entre Estados credores e Estados endividados. Uma outra fronteira separa os Estados da Zona Euro, obrigados a agir, dos membros da UE que não aderiram ao euro e, agora, têm de assistir, impotentes, por nelas não poderem participar, a tomadas de decisões-chave sobre o futuro da União. Uma terceira cisão fundamental sobressai das eleições nos países endividados, e vai ter consequências políticas duradouras: os governantes aprovam os pacotes de medidas de austeridade, e as populações votam contra. Torna-se visível, aqui, a tensão estrutural entre um projecto europeu que é apresentado e gerido, de cima, pelas elites político-económicas, e a resistência a ele, que vem de baixo. Os cidadãos defendem-se de uma impertinência, sentida como altamente injusta, recusando-se a tomar um remédio de efeitos provavelmente letais. Não só em Atenas, mas também em toda a parte, na Europa, está a formar-se um movimento de resistência a uma política de gestão da crise que – de acordo com o lema: socialismo de Estado para os ricos e os bancos, neoliberalismo para a classe média e os pobres – está a abrir caminho para levar a cabo uma nova repartição da riqueza de baixo para cima. O que fazem então os salvadores se os que devem ser salvos não querem que os salvem? Em todo o caso, não da maneira apresentada como sendo alegadamente «sem alternativa» pelos próprios Governos?
     Outro paradoxo: assistimos a debates apaixonados e a tremendas lutas de poder – e no fim de contas ficam todos a perder. Na Alemanha, as pessoas estão furiosas por «dinheiro dos contribuintes alemães» estar a ser desbaratado com «Gregos tesos», como se podia ler nas parangonas sensacionalistas do Bild-Zeitung, apelando para os baixos instintos dos leitores desse tablóide (neste trombone, porém, também tocou a revista Stern, consumida por outro público da classe média, com uma capa que, entretanto, assumiu uma lamentável notoriedade, mostrando a Afrodite de Milo de dedo médio em riste, fazendo um gesto obsceno). Nos Estados em crise, por sua vez, muitas pessoas consideram-se perdedoras, por a política de austeridade alemã-europeia lhes roubar as bases da sua existência – e, simultaneamente, também a sua dignidade. É assim que as populações, nos Estados membros da UE, são manipuladas e instigadas umas contra as outras, a este nível rasteiramente populista, sem se aperceberem de que elas todas, no seu conjunto, são vítimas da crise financeira e das insuficientes tentativas de a resolver. 
     [14] Portanto no futuro vai haver muitas Europas, na Europa. Uma delas é a Europa de baixo, a Europa dos cidadãos que talvez nem sequer saibam (ou não queiram saber) que são cidadãos europeus. Reside, aqui, um estado de espírito fatal, em que se misturam a insegurança, o receio e a indignação, e que se manifesta na fórmula: «Não estou a entender nada disto!» Crise dos bancos e crise financeira. A Europa em crise. O euro em crise – cada dia outra coisa nova – ou é tudo, afinal, o mesmo? Todos estão perplexos. E de certo modo desamparados. Em Agosto de 2011, o jornalista Holger Gertz escreveu o seguinte, numa grande reportagem acerca do receio e da confusão que reina na cabeça das pessoas: «É possível levar a cabo manifestações contra a guerra, contra a energia nuclear, e de comovedora clareza são estações de caminho de ferro ou pistas de aterragem já planeadas, pois também é perfeitamente possível organizar manifs contra elas.» «Mas contra a crise financeira?», e cita uma política de Berlim, do partido Die Linke. «O que é que se pode então escrever nos cartazes de uma manif dessas? Crise, vai pró raio que te parta?» (7)
     Como é que se pode perceber que já mais ninguém entenda seja o que for? Para encontrar resposta a esta pergunta, vou seguidamente retomar teses que desenvolvi na minha obra teórica Sociedade de Risco e aperfeiçoei, depois, em Sociedade de Risco Mundial. Este não-saber que se está a difundir, segundo a minha interpretação, é uma característica essencial de uma dinâmica a que estão expostas, no presente, as sociedades ocidentais. (8) A sociedade de risco é, em determinado sentido, também sempre uma sociedade do poderia ser. As centrais de energia nuclear, cuja complexa vida interna nós não compreendemos, poderiam avariar-se; os mercados financeiros, que até mesmo os “virtuosos” das especulações da bolsa parecem já não entender, poderiam entrar em colapso. Aqui, o modo condicional é um estado permanente: estamos constantemente a antecipar, hoje, catástrofes que, amanhã, poderiam vir a acontecer. Este modo condicional catastrófico irrompe, com violência, no meio de instituições e no dia-a-dia das pessoas – não se pode calcular com precisão, está-se nas tintas para a constituição e as regras democráticas, está carregado de um não-saber explosivo, e arrasta para o sorvedouro todos os pontos de orientação.
     Estas ameaças difusas instituem, ao mesmo tempo, algo como um sentimento de comunidade. Tomemos como exemplo a crise do euro: sociedades inteiras fazem a experiência comum de como, perante os programas de austeridade, no [15] elevador, são transportadas para um piso inferior. Em toda a Europa, uma geração inteira está a ser confrontada com o facto de ninguém precisar dela, se as curvas da bolsa apontarem para baixo, abruptamente. As consequências da crise não se detêm nas fronteiras nacionais, porque as imbricações, no âmbito da sociedade globalizada, já são muito estreitas. Então as pessoas perguntam-se: Se a Grécia cair na bancarrota, a minha pensão de reforma, na Alemanha, ainda está garantida? Mas afinal o que é que significa a «bancarrota de um Estado»? Que implicações é que ela tem para mim? O facto de serem precisamente os bancos – que, normalmente, protestam, com veemência, contra toda a intervenção do Estado – a pedirem ajuda a Estados endividados, e o facto de estes Estados, efectivamente, disponibilizarem somas astronómicas –, quem é que, ainda há poucos anos, seria capaz de pensar numa coisa destas? Hoje são todos capazes. O que não quer dizer, porém, que haja alguém que entenda isto. (9)
     Como está exposto na minha obra Sociedade de Risco, a expectativa, profundamente alojada no quotidiano, de uma catástrofe global, constitui uma das grandes formas de mobilização do nosso tempo. Este tipo de ameaça, percepcionada em todo o mundo, torna possível que se faça a experiência da relação, não raro aborrecida, que há entre a nossa própria vida e a vida de outros seres humanos, em outras regiões do mundo.              
        

Samba de Bênção - Vinicius de Moraes e Toquinho .... Bom domingo...


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Fernando Botero vem aí... Novembro está próximo...






































Nunca esquecerei a mega exposição de escultura que durante meses esteve patente  na Praça do Comércio  em Lisboa da autoria de Fernando Botero.
Além de passar todos os dias a caminho da minha escola, no Castelo de S. Jorge, também rapidamente lá chegava com os meus alunos que se divertiam imenso com aquelas figuras hiper redondas e lascivas...
Hoje, repetida , na beleza em que se tornou esta nossa Praça seria um outro desfrute ...
Isto para vos dizer que em novembro, 14, vai ser inaugurada uma nova exposição, como  (Aqui) podem ver, mas de temática bem diferente....
Aguardemos pois....