sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Bom fim de semana ... e fiquem com a voz que ajudou Billie Holiday a mudar de vida. Monnette Moore

Eleanora Fagan Gouth tinha tudo na vida para dar errado até se transformar em Billie Holiday. A cantora negra nascida em Filadélfia  no ano de 1915, nem imaginava poder ter tido pior inicio de vida, com abandono , violações e reformatórios à mistura. Mas uma simples noite mudaria tudo.
Com 12 anos Eleanora mudou-se para Nova Iorque com o intuito de viver com a mãe e, com apensa 15 anos, começou a cantar em clubes noturnos, muitos dos quais de duvidosa fama . Como adorava uma estrela de cinema chamada Billie Dove (uma atriz branca que nascera com o nome de Bertha Bohny), Eleanora Goough adotou o nome artístico de Billie Holiday.
Uma figura inadvertidamente fulcral na vida de Billie,  Monnette Moore, uma cantora e pianista de jazz que nunca iria atingir o estrelato, mas que no inicío dos anos 30 inauguraria o Monnette ´s Supper Club, um bar de jazz situado na ra 133 de Harlem.
(...)
Moore mal abriu o seu club não perdeu tempo a endereçar convites aos produtores mais importantes da época.  John Ammond, da Columbia, era o mais importante de todos. Uma noite acedeu e visitou esse tal de Monnette Club. Os seus olhos ficaram atónitos e os seus ouvidos não podiam crer no que estava a ouvir. Mas não fora Monnette Moore que o impressionara, antes a substituta, uma tal Billie Holliday, que sem saber acabava de viver a noite que mudaria para sempre a sua vida.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Prazeres e perigos da música, segundo Santo Agostinho



Santo Agostinho, Confissões, acerca dos prazeres e perigos da música

Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da vossa igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume. Assim flutuo entre o perigo do prazer e os salutares benefícios que a experiência nos mostra. Portanto, sem proferir uma sentença irrevogável, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja para que, pelos deleites do ouvido, o espírito, demasiado fraco, se eleve até aos afectos da piedade. Quando, às vezes, a música me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso, com dor, que pequei. Nestes casos, por castigo, preferia não ouvir cantar. Eis em que estado me encontro. Chorai comigo, chorai por mim, vós que praticais o bem no vosso interior, donde nascem as boas acções. Estas coisas, Senhor, não Vos podem impressionar, porque não as sentis. Porém, ó meu Senhor e meu Deus, olhai por mim, ouvi-me, vede-me, compadecei-vos de mim e curai-me. Sob o Vosso olhar transformei-me, para mim mesmo, num enigma que é a minha própria enfermidade.

Santo Agostinho, Confissões, x, cap. 33, trad. de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, Livraria Apostolado da Imprensa, 6.a ed., Porto, 1958, p. 278

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Olhares...



Ao descobrir este pintor Michele Del Campo, "Street View, algo me fez associar ao livro que entretanto tenho entre mãos... "Pela Estrada Fora", de Jack Kerouak.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Se és artista, não fales em ser maior ou menor, para não confundires a tua obra com uma prova de atletismo" *


Obras de Peter Blake (1932) autor da capa do disco Stg. Pepper.

* Virgílio Ferreira

Ora esta frase aplica-se bem a todos os "narcisos"... uma outra forma artística de estar na vida...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Leituras breves... "O Discípulo", Oscar Wilde



Quando Narciso morreu, a taça de água doce que era o lago dos seus prazeres converteu-se em taça de lágrimas amargas e as Ninfas dos Montes lamentaram-se  pelos bosques a fim de cantar para ele, consolando-o.
E, quando perceberam que o lago se transmudara de taça de água doce noutra de lágrimas amargas, desgrenharam as tranças verdes dos seus cabelos e disseram:
- Não nos admiramos de que pranteeis Narciso dessa maneira. Ele era tão belo!
- Narciso era belo? – indagou o lago.
- Quem sabe melhor do que vós? – responderam as Oréadas. Ao cortejar-vos, ele nos desprezava, debruçado às vossas margens mirando-vos, e, no espelho de vossas águas, contemplava a própria beleza.

E o lago respondeu:
- Mas eu amei Narciso porque enquanto ele se alongava sobre as minhas marrgens e olhava para mim, em baixo, no espelho dos seus olhos, eu vi sempre a minha beleza refletida.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Notícias do Jaime... As mais tristes de sempre... Uma cientista de 24 anos, deixou-nos...

Quando conheci o Jaime, que vive em Bochum, além de nos ligarem pessoas que nos são comuns e de quem muito gostamos , passei a gostar e a admirar uma outra que o Jaime me apresentou. A Bia, a jovem "pequenina" de Minas Gerais, uma mente brilhante, que sonhava salvar o mundo nas maleitas mais corrosivas e, aí já trabalhava.... Só 24 anos.
Leiam pois o que o Jaime, sofredor de uma "filha" que nunca teve, me enviou depois de já termos conversado sobre o assunto.


Morte prematura de promissora cientista brasileira


Beatriz Maria Nicácio era uma jovem doutoranda da “Harvard Medical School”. Coordenava um “team” de investigação que se propunha levar a cabo dois projectos científicos tão ambiciosos que professores e colegas brincavam com ela, dizendo-lhe que a atribuição do Prémio Nobel de Medicina, além de demorar muito tempo, nem sempre era justa...

Um desses projectos é uma vacina universal contra o cancro, a partir de uma proteína. O outro, que se chama “Gabi’s Stem Cells Research Project”, destina-se a estudar o uso de células estaminais na regeneração de tecidos danificados, e na criação de novos órgãos, que vão tornar supérfluas as transplantações, e curar muita gente que, hoje, está condenada a uma cadeira de rodas.
Vai ser, provavelmente, a Medicina do século XXI.
No dia 31 de Dezembro p.° p.° foi morta, num brutal acidente de viação, causado por um condutor embriagado. Ia a caminho de Belo Horizonte, onde tomaria o avião para Recife e, daí, para Boston, depois de ter vindo passar as férias natalícias com a família.
Beatriz Maria tinha 1,57 m de altura (como Immanuel Kant) e um QI entre 175 e 180. Em 26 de Novembro p.° p.° fizera 24 anos.
Ao dar-me a triste notícia, a Mãe de Bia escreveu: “Nossa Menina partiu. [...] Era um passarinho. Vivia a cantar a vida. [...] Desejava que todos nós fôssemos muito felizes!”
Foi esta, de facto, a mensagem profunda que ela nos deixou, ao partir tão cedo: vivamos cantando a vida.
Sábado, 5 de Janeiro de 2013

Pintura naif dr Ronaldo Mendes, de Belo Horizonte

Bom fim de semana...



Amo devagar os amigos que são tristes
com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem
e estão sentados,
fechando os olhos,
com os livros atrás a arder
para toda a eternidade.


Herberto Helder

Pintura de Ronaldo Mendes, Pintor naif de Minas Gerais

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Vidas... (continuação)

Anamar minha amiga

Esses são os mistérios das terras "de dentro" onde a vida nos surpreende...
Na minha infância, a ruralidade era uma certeza uma vez por ano. Algumas centenas de quilómetros abaixo moravam os meus avós. Sem luz, sem água,mas muitas galinhas, porcos, um burro, um macho uma mula,um carro que eles puxavam para levar donos à missa e visitar parentes. Terras de cultivo,uma nora, alpendres, oliveiras, alfarrobeiras e amendoeiras, as últimas, sem dúvida, as jóias da coroa.

E uma das conversas de Primavera andava à volta de "Esta ano há amêndoas???"
Sim, porque fazia toda a diferença. Já na altura era um produto bem pago mas nem todos os anos a coisa acontecia. A alternância não era certa. Caprichosa. Mas quando era ano de amêndoa, guardava-se dinheiro,os colchões engordavam, o amor era mais prazeiroso e a nossa "notinha"(a dos netos) era maior e os sorrisos sem dentes mais escancarados.
Ali o ritmo das estações e das tarefas não se confundia.

Ouvia-se os crescidos falar das colheitas, dos casamentos, dos filhos que tinham ido estudar para Faro, do comerciante de frutos que se seguravam demais nos preços...e inevitavelmente de "enforcamentos" de quem ficava sózinho.
E tudo parecia normal. Tão normal como as pequenas/grandes fortunas que se escondiam ou que jaziam no Banco, não para "adquirir coisas" para se contemplar. O papel do Banco ou a caderneta era um troféu,venerado como as fotos de família, consolo e prémio, porque o gozo era ver o número crescer e ficar gordinho como o porco do quintal...Comprar? O quê? Já tinham tudo.

Pelo que conta, não mudou muito a realidade que eu conheci porque a definição da felicidade é vasta, eterna e surpreendente.

Misterioso continua a ser o momento da decisão em que "os homens" precisamente "eles" vão buscar o baraço e o penduram na trave...
(Dizia-se por lá à boca pequena que era por causa da "prosta")

Levei muitos anos para perceber... 


ERA UMA VEZ, frequentadora deste MAR, em comentário ao post anterior, uma amiga sempre presente, desde que o deseje. Hoje o "post" é dela


A fotografia do moinho . Disse-me o "olho vivo", o senhor X, de que falei anteriormente, que foi ele que o construiu, mas a Câmara de Odemira comprou-lho.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Uma mulher, precisa-se... Vidas...


Podia ser Pão Mole ou Paitio, nome bem alentejano… Não foi importante saber o nome
para entabular conversa com este pequeno homem , franzino, olho verde bem vivo, sem dentes.. . o  que dificultou a minha audição,  e 71 anos idade. Parecia ter 80.
Dia 1 de Janeiro, concelho de Odemira, uma paragem obrigatória para resolver assuntos  e o meu vício pela fotografia.
Achei piada ao enquadramento do seu lazer acompanhado de um saco de cigarros partidos em metades e de uma cadelinha verdadeira e outros bichos em plástico.
Pedi para fotografar de longe. Um afirmativo feliz.
Aproximei-me. Apresentou-se como guarda reformado da Mondetti, no Montijo. Com 30 mil contos no banco… Só em nome dele, pois os filhos não querem saber dele para nada. No banco, ao terem feito o reparo de ser o único titular da conta, afirmou que o dinheiro em  questão  de morte ficaria para o estado.  “ os filhos não querem saber de mim para nada”… “com o asilo já me acertei com um terreno que doei”…
Fiquei aflita e disse-lhe. “ó homem , não deve dizer que tem esse dinheiro no banco”…
“digo pois, tenho lá 30 mil contos … e para o estado, mas se me apetecer vou lá buscar 40 ou 50 contos”…  Os euros, não são o seu mundo como o de muita gente.
Perguntei se vivia sozinho. Já por lá tinham passado umas velhotas…” e,  há umas na aldeia que estão mortas por fazer companhia… “ A última companheira roubou-lhe a dentadura com dentes de ouro… Alguns  terrenos à nossa vista são do senhor “olho vivo”.
Perguntei se tinha televisão. Sim senhor, tinho tudo o que precisava no cubículo aonde me convidou a entra e a fotografar. Fi-lo meio  envergonhada mas não resisti…
Estava ali um mundo alinhado e irrepreensivelmente arrumado que era tudo o que lhe era necessário.


Frigorifico, televisão, cama, uma mesinha com tudo arrumadinho e os seus bonecos de plástico, num canto a cozinha e um  mosqueiro onde guardava a comida que no topo alinhava frutos diversos que insistiu que eu comesse.
Num chão de laje muito húmida só com um tapete aos pés da cama, enregelaram os meus pés por simpatia…  Fiquei horrorizada…  30 mil contos no banco e um chão de pedra molhada…
Mas das paredes, que de despidas só tinha as mulheres de calendário que forravam as mesmas, imanava o calor que este senhor X  não se cansava de repetir… “Aqui    tenho tudo o que preciso, mas á noite deito-me sozinho como um cão”….
E, veio-me á memória o filme de Fellini, AMACORD…. “ QUERO UMA MULHER”…
É ASSIM O ALENTEJO OU O CONCELHO  ONDE MAIS GENTE SE SUICÍDA, O DE ODEMIRA.