sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Bom fim de semana... e, umas leituras breves...

Augusto e os seus companheiros conseguiram reproduzir diariamente o drama da iniciação e do martírio.
Mergulhadas em círculos concêntricos de sombra, ali 
se erguiam filas e filas de rostos, atalhados aqui e além por lugares vagos que o projector lambia ávido  como língua em busca de um dente perdido. Os músicos , submersos em poeira e brilhos de magnésio, agarravam-se aos instrumentos como se alucinados, seus corpos juntos ondulando no jogo bruxuleante de sombra e claridade. Sempre ao rufar surdo do tambor o contorcionista enrolava, sempre o volteador se fazia anunciar por uma fanfarra de trombetas. Augusto , porém, umas vezes era o silvo agudo de um violino, noutras as notas trocistas de um clarinete qe o acompanhavam durante o cabriolar das suas palhaçadas. Mas chegado o momento de cair em transe, os músicos, subitamente, subitamente inspirados, perseguiam-no entre as suas espirais de êxtase como corcéis colados à plataforma de um carrossel dominado de loucura.
Todas as noites ao aplicar a maquilhagem, Augusto debatia-se com os seus botões  As focas, não importa o que fossem obrigadas a fazer, manter-se-iam sempre focas. O cavalo, um cavalo; a mesa uma mesa.  Augusto, embora sendo um homem, era forçado a tornar-se em algo mais: tinha de adoptar os poderes de um ser excepcional dotado de um excepcional talento. Tinha de fazer rir as pessoas. Não era difícil fazê-las chorar, tão pouco fazê-las rir; descobrira isso há muito tempo, antes mesmo de sequer ter sonhado entrar para o circo . Mais altas contudo eram as suas ambições - ambicionava dotar os espectadores de uma alegria que se revelasse perpétua . Foi esta obsessão que no início o levou a sentar-se aos pés da escada e simular o êxtase.

(...)
Excerto do livro de Henry Miller, O SORRISO AOS PÉS DA ESCADA. Um livro para mim , que bem cedo o li, de uma ternura infinita.

Pintura de Picasso, " Os Saltimbancos".

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Olhares...




Passeando pela cidade branca em dia cinzento, uma chamada de atenção. O elevador da antiga casa Ramiro Leão, no Chiado, hoje Benetton.
Merecia outro trato...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

CARTAS DE CASANOVA SOBRE LISBOA DE 1755



Apenas a minha vontade de em tudo vos agradar, nunca esquecendo a temporada, aliás desafortunadamente curta, que juntos vivemos na minha querida cidade natal de Veneza, e o favor e mercês com que me haveis acolhido em Paris, nos primeiros meses deste ano, me poderia levar a pegar na pena para vos descrever as peripécias que levaram à minha inesperada viagem a esta desgraçada cidade de Lisboa, varrida por um atroz terramoto há cerca de dois anos. Asseguro-vos, Excelência, que, por muitos desconcertos da Natureza que me tenha sido dado ver, ou que ainda verei, nenhum me parece de mais incompreensível extensão ou gravidade. De tal forma que, não fosse acreditar nas obscuras justificações derivadas da vontade divina – que, a manifestar-se assim, seria de maior malevolência que os castigos de Sodoma e Gomorra –, seria tentado a admitir que apenas os muitos pecados e desmandos de um povo podem explicar a desgraça que sobre o seu destino se abateu. Aliás, os jesuítas e o povo miúdo acreditam nesta explicação e, ignorantes das causas naturais que a recta ratio é capaz de identificar, espalham aos quatro ventos a notícia de outras calamidades que a persistência do governo temível do ministro do Rei, Sebastião de Carvalho, não deixará de provocar.»
[in Cartas de Casanova - Lisboa 1757, de António Mega Ferreira, Sextante, 2013]

Texto tirado do blogue O BIBLIOTECÁRIO DE BABEL

Imagem Google

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Bom fim de semana ... e fiquem com a voz que ajudou Billie Holiday a mudar de vida. Monnette Moore

Eleanora Fagan Gouth tinha tudo na vida para dar errado até se transformar em Billie Holiday. A cantora negra nascida em Filadélfia  no ano de 1915, nem imaginava poder ter tido pior inicio de vida, com abandono , violações e reformatórios à mistura. Mas uma simples noite mudaria tudo.
Com 12 anos Eleanora mudou-se para Nova Iorque com o intuito de viver com a mãe e, com apensa 15 anos, começou a cantar em clubes noturnos, muitos dos quais de duvidosa fama . Como adorava uma estrela de cinema chamada Billie Dove (uma atriz branca que nascera com o nome de Bertha Bohny), Eleanora Goough adotou o nome artístico de Billie Holiday.
Uma figura inadvertidamente fulcral na vida de Billie,  Monnette Moore, uma cantora e pianista de jazz que nunca iria atingir o estrelato, mas que no inicío dos anos 30 inauguraria o Monnette ´s Supper Club, um bar de jazz situado na ra 133 de Harlem.
(...)
Moore mal abriu o seu club não perdeu tempo a endereçar convites aos produtores mais importantes da época.  John Ammond, da Columbia, era o mais importante de todos. Uma noite acedeu e visitou esse tal de Monnette Club. Os seus olhos ficaram atónitos e os seus ouvidos não podiam crer no que estava a ouvir. Mas não fora Monnette Moore que o impressionara, antes a substituta, uma tal Billie Holliday, que sem saber acabava de viver a noite que mudaria para sempre a sua vida.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Prazeres e perigos da música, segundo Santo Agostinho



Santo Agostinho, Confissões, acerca dos prazeres e perigos da música

Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da vossa igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume. Assim flutuo entre o perigo do prazer e os salutares benefícios que a experiência nos mostra. Portanto, sem proferir uma sentença irrevogável, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja para que, pelos deleites do ouvido, o espírito, demasiado fraco, se eleve até aos afectos da piedade. Quando, às vezes, a música me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso, com dor, que pequei. Nestes casos, por castigo, preferia não ouvir cantar. Eis em que estado me encontro. Chorai comigo, chorai por mim, vós que praticais o bem no vosso interior, donde nascem as boas acções. Estas coisas, Senhor, não Vos podem impressionar, porque não as sentis. Porém, ó meu Senhor e meu Deus, olhai por mim, ouvi-me, vede-me, compadecei-vos de mim e curai-me. Sob o Vosso olhar transformei-me, para mim mesmo, num enigma que é a minha própria enfermidade.

Santo Agostinho, Confissões, x, cap. 33, trad. de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, Livraria Apostolado da Imprensa, 6.a ed., Porto, 1958, p. 278

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Olhares...



Ao descobrir este pintor Michele Del Campo, "Street View, algo me fez associar ao livro que entretanto tenho entre mãos... "Pela Estrada Fora", de Jack Kerouak.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Se és artista, não fales em ser maior ou menor, para não confundires a tua obra com uma prova de atletismo" *


Obras de Peter Blake (1932) autor da capa do disco Stg. Pepper.

* Virgílio Ferreira

Ora esta frase aplica-se bem a todos os "narcisos"... uma outra forma artística de estar na vida...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Leituras breves... "O Discípulo", Oscar Wilde



Quando Narciso morreu, a taça de água doce que era o lago dos seus prazeres converteu-se em taça de lágrimas amargas e as Ninfas dos Montes lamentaram-se  pelos bosques a fim de cantar para ele, consolando-o.
E, quando perceberam que o lago se transmudara de taça de água doce noutra de lágrimas amargas, desgrenharam as tranças verdes dos seus cabelos e disseram:
- Não nos admiramos de que pranteeis Narciso dessa maneira. Ele era tão belo!
- Narciso era belo? – indagou o lago.
- Quem sabe melhor do que vós? – responderam as Oréadas. Ao cortejar-vos, ele nos desprezava, debruçado às vossas margens mirando-vos, e, no espelho de vossas águas, contemplava a própria beleza.

E o lago respondeu:
- Mas eu amei Narciso porque enquanto ele se alongava sobre as minhas marrgens e olhava para mim, em baixo, no espelho dos seus olhos, eu vi sempre a minha beleza refletida.

sábado, 5 de janeiro de 2013

Notícias do Jaime... As mais tristes de sempre... Uma cientista de 24 anos, deixou-nos...

Quando conheci o Jaime, que vive em Bochum, além de nos ligarem pessoas que nos são comuns e de quem muito gostamos , passei a gostar e a admirar uma outra que o Jaime me apresentou. A Bia, a jovem "pequenina" de Minas Gerais, uma mente brilhante, que sonhava salvar o mundo nas maleitas mais corrosivas e, aí já trabalhava.... Só 24 anos.
Leiam pois o que o Jaime, sofredor de uma "filha" que nunca teve, me enviou depois de já termos conversado sobre o assunto.


Morte prematura de promissora cientista brasileira


Beatriz Maria Nicácio era uma jovem doutoranda da “Harvard Medical School”. Coordenava um “team” de investigação que se propunha levar a cabo dois projectos científicos tão ambiciosos que professores e colegas brincavam com ela, dizendo-lhe que a atribuição do Prémio Nobel de Medicina, além de demorar muito tempo, nem sempre era justa...

Um desses projectos é uma vacina universal contra o cancro, a partir de uma proteína. O outro, que se chama “Gabi’s Stem Cells Research Project”, destina-se a estudar o uso de células estaminais na regeneração de tecidos danificados, e na criação de novos órgãos, que vão tornar supérfluas as transplantações, e curar muita gente que, hoje, está condenada a uma cadeira de rodas.
Vai ser, provavelmente, a Medicina do século XXI.
No dia 31 de Dezembro p.° p.° foi morta, num brutal acidente de viação, causado por um condutor embriagado. Ia a caminho de Belo Horizonte, onde tomaria o avião para Recife e, daí, para Boston, depois de ter vindo passar as férias natalícias com a família.
Beatriz Maria tinha 1,57 m de altura (como Immanuel Kant) e um QI entre 175 e 180. Em 26 de Novembro p.° p.° fizera 24 anos.
Ao dar-me a triste notícia, a Mãe de Bia escreveu: “Nossa Menina partiu. [...] Era um passarinho. Vivia a cantar a vida. [...] Desejava que todos nós fôssemos muito felizes!”
Foi esta, de facto, a mensagem profunda que ela nos deixou, ao partir tão cedo: vivamos cantando a vida.
Sábado, 5 de Janeiro de 2013

Pintura naif dr Ronaldo Mendes, de Belo Horizonte