domingo, 20 de janeiro de 2013

E a nós até onde nos levará a nossa cultura?

" A nossa luta é baseada na nossa cultura, porque a cultura é fruto da história e ela é uma força"
AC - 1924-1973 (clicar)

Amilcar Cabral queria ter as mulheres ao seu lado na luta. Sempre.
Combatentes na frente de guerra, como Carmen Pereira, ou dirigentes do partido em Conacri, como Lilica Boal, foram decisivas para a causa da libertação. As camponesas eram como anjos-da-guarda que protegiam os guerrilheiros.
PÚBLICO de 20de janeiro de 2013



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Bom fim de semana... e, umas leituras breves...

Augusto e os seus companheiros conseguiram reproduzir diariamente o drama da iniciação e do martírio.
Mergulhadas em círculos concêntricos de sombra, ali 
se erguiam filas e filas de rostos, atalhados aqui e além por lugares vagos que o projector lambia ávido  como língua em busca de um dente perdido. Os músicos , submersos em poeira e brilhos de magnésio, agarravam-se aos instrumentos como se alucinados, seus corpos juntos ondulando no jogo bruxuleante de sombra e claridade. Sempre ao rufar surdo do tambor o contorcionista enrolava, sempre o volteador se fazia anunciar por uma fanfarra de trombetas. Augusto , porém, umas vezes era o silvo agudo de um violino, noutras as notas trocistas de um clarinete qe o acompanhavam durante o cabriolar das suas palhaçadas. Mas chegado o momento de cair em transe, os músicos, subitamente, subitamente inspirados, perseguiam-no entre as suas espirais de êxtase como corcéis colados à plataforma de um carrossel dominado de loucura.
Todas as noites ao aplicar a maquilhagem, Augusto debatia-se com os seus botões  As focas, não importa o que fossem obrigadas a fazer, manter-se-iam sempre focas. O cavalo, um cavalo; a mesa uma mesa.  Augusto, embora sendo um homem, era forçado a tornar-se em algo mais: tinha de adoptar os poderes de um ser excepcional dotado de um excepcional talento. Tinha de fazer rir as pessoas. Não era difícil fazê-las chorar, tão pouco fazê-las rir; descobrira isso há muito tempo, antes mesmo de sequer ter sonhado entrar para o circo . Mais altas contudo eram as suas ambições - ambicionava dotar os espectadores de uma alegria que se revelasse perpétua . Foi esta obsessão que no início o levou a sentar-se aos pés da escada e simular o êxtase.

(...)
Excerto do livro de Henry Miller, O SORRISO AOS PÉS DA ESCADA. Um livro para mim , que bem cedo o li, de uma ternura infinita.

Pintura de Picasso, " Os Saltimbancos".

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Olhares...




Passeando pela cidade branca em dia cinzento, uma chamada de atenção. O elevador da antiga casa Ramiro Leão, no Chiado, hoje Benetton.
Merecia outro trato...

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

CARTAS DE CASANOVA SOBRE LISBOA DE 1755



Apenas a minha vontade de em tudo vos agradar, nunca esquecendo a temporada, aliás desafortunadamente curta, que juntos vivemos na minha querida cidade natal de Veneza, e o favor e mercês com que me haveis acolhido em Paris, nos primeiros meses deste ano, me poderia levar a pegar na pena para vos descrever as peripécias que levaram à minha inesperada viagem a esta desgraçada cidade de Lisboa, varrida por um atroz terramoto há cerca de dois anos. Asseguro-vos, Excelência, que, por muitos desconcertos da Natureza que me tenha sido dado ver, ou que ainda verei, nenhum me parece de mais incompreensível extensão ou gravidade. De tal forma que, não fosse acreditar nas obscuras justificações derivadas da vontade divina – que, a manifestar-se assim, seria de maior malevolência que os castigos de Sodoma e Gomorra –, seria tentado a admitir que apenas os muitos pecados e desmandos de um povo podem explicar a desgraça que sobre o seu destino se abateu. Aliás, os jesuítas e o povo miúdo acreditam nesta explicação e, ignorantes das causas naturais que a recta ratio é capaz de identificar, espalham aos quatro ventos a notícia de outras calamidades que a persistência do governo temível do ministro do Rei, Sebastião de Carvalho, não deixará de provocar.»
[in Cartas de Casanova - Lisboa 1757, de António Mega Ferreira, Sextante, 2013]

Texto tirado do blogue O BIBLIOTECÁRIO DE BABEL

Imagem Google

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Bom fim de semana ... e fiquem com a voz que ajudou Billie Holiday a mudar de vida. Monnette Moore

Eleanora Fagan Gouth tinha tudo na vida para dar errado até se transformar em Billie Holiday. A cantora negra nascida em Filadélfia  no ano de 1915, nem imaginava poder ter tido pior inicio de vida, com abandono , violações e reformatórios à mistura. Mas uma simples noite mudaria tudo.
Com 12 anos Eleanora mudou-se para Nova Iorque com o intuito de viver com a mãe e, com apensa 15 anos, começou a cantar em clubes noturnos, muitos dos quais de duvidosa fama . Como adorava uma estrela de cinema chamada Billie Dove (uma atriz branca que nascera com o nome de Bertha Bohny), Eleanora Goough adotou o nome artístico de Billie Holiday.
Uma figura inadvertidamente fulcral na vida de Billie,  Monnette Moore, uma cantora e pianista de jazz que nunca iria atingir o estrelato, mas que no inicío dos anos 30 inauguraria o Monnette ´s Supper Club, um bar de jazz situado na ra 133 de Harlem.
(...)
Moore mal abriu o seu club não perdeu tempo a endereçar convites aos produtores mais importantes da época.  John Ammond, da Columbia, era o mais importante de todos. Uma noite acedeu e visitou esse tal de Monnette Club. Os seus olhos ficaram atónitos e os seus ouvidos não podiam crer no que estava a ouvir. Mas não fora Monnette Moore que o impressionara, antes a substituta, uma tal Billie Holliday, que sem saber acabava de viver a noite que mudaria para sempre a sua vida.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Prazeres e perigos da música, segundo Santo Agostinho



Santo Agostinho, Confissões, acerca dos prazeres e perigos da música

Quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da vossa igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume. Assim flutuo entre o perigo do prazer e os salutares benefícios que a experiência nos mostra. Portanto, sem proferir uma sentença irrevogável, inclino-me a aprovar o costume de cantar na igreja para que, pelos deleites do ouvido, o espírito, demasiado fraco, se eleve até aos afectos da piedade. Quando, às vezes, a música me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso, com dor, que pequei. Nestes casos, por castigo, preferia não ouvir cantar. Eis em que estado me encontro. Chorai comigo, chorai por mim, vós que praticais o bem no vosso interior, donde nascem as boas acções. Estas coisas, Senhor, não Vos podem impressionar, porque não as sentis. Porém, ó meu Senhor e meu Deus, olhai por mim, ouvi-me, vede-me, compadecei-vos de mim e curai-me. Sob o Vosso olhar transformei-me, para mim mesmo, num enigma que é a minha própria enfermidade.

Santo Agostinho, Confissões, x, cap. 33, trad. de J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina, Livraria Apostolado da Imprensa, 6.a ed., Porto, 1958, p. 278

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Olhares...



Ao descobrir este pintor Michele Del Campo, "Street View, algo me fez associar ao livro que entretanto tenho entre mãos... "Pela Estrada Fora", de Jack Kerouak.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

"Se és artista, não fales em ser maior ou menor, para não confundires a tua obra com uma prova de atletismo" *


Obras de Peter Blake (1932) autor da capa do disco Stg. Pepper.

* Virgílio Ferreira

Ora esta frase aplica-se bem a todos os "narcisos"... uma outra forma artística de estar na vida...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Leituras breves... "O Discípulo", Oscar Wilde



Quando Narciso morreu, a taça de água doce que era o lago dos seus prazeres converteu-se em taça de lágrimas amargas e as Ninfas dos Montes lamentaram-se  pelos bosques a fim de cantar para ele, consolando-o.
E, quando perceberam que o lago se transmudara de taça de água doce noutra de lágrimas amargas, desgrenharam as tranças verdes dos seus cabelos e disseram:
- Não nos admiramos de que pranteeis Narciso dessa maneira. Ele era tão belo!
- Narciso era belo? – indagou o lago.
- Quem sabe melhor do que vós? – responderam as Oréadas. Ao cortejar-vos, ele nos desprezava, debruçado às vossas margens mirando-vos, e, no espelho de vossas águas, contemplava a própria beleza.

E o lago respondeu:
- Mas eu amei Narciso porque enquanto ele se alongava sobre as minhas marrgens e olhava para mim, em baixo, no espelho dos seus olhos, eu vi sempre a minha beleza refletida.