sábado, 3 de junho de 2017
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Armando Silva de Carvalho , 1938-2017, - o poeta -
W.C.
Neste país onde ninguém sabe
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.
Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma.
Armando Silva Carvalho, in 'Sentimento de um Acidental'
Peça do Museu de Arte Nova de Aveiro, as minhas fotografias
como obram as musas,
já dizia o outro,
fazer versos realmente versos,
que sigam o espasmo do ânus provecto
dessas criaturas fúteis, decantadas,
ainda é e será muito difícil.
Existe sempre um braço etéreo
que puxa o autoclismo
no momento exacto da defecação.
Ouve-se um ruído,
alguém pergunta ao outro o que se passa:
«É o som das águas que bate na garganta.»
Aliviados então os corações repousam
na sala de visitas da casa devassada
a que chamam d'alma.
Armando Silva Carvalho, in 'Sentimento de um Acidental'
Peça do Museu de Arte Nova de Aveiro, as minhas fotografias
quinta-feira, 1 de junho de 2017
O significado de "chapada ou bofetada de luva branca " ...
![]() |
As minhas fotografias |
A expressão mais conhecida é «bofetada de luva branca» ou «bofetada de luva de pelica», que significa «resposta delicada, apropriada a uma ofensa» (Orlando Neves, Dicionário das Expressões Correntes, Lisboa, Ed. Notícias, 1999).
É uma expressão usada com bastante frequência como elogio a alguém que tem a arte de ser subtil (mas assertivo) na resposta a algo desagradável que sofreu, de que foi vítima. Trata-se, portanto, de uma expressão metafórica e, simultaneamente, irónica, em que se procura traduzir a ideia de uma situação em que sobressai a inteligência e a subtileza do atingido como forma de retribuir ou responder a uma agressão. Com este ato, a vítima ultrapassa o seu agressor, não respondendo da mesma maneira, não se exaltando, nem enervando. A sua superioridade é evidenciada pelo seu sangue-frio, pelo distanciamento a que se impôs para não descer ao nível do outro.
terça-feira, 30 de maio de 2017
"Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" Miguel Urbano
Ela (final) - "Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento"
ELA
"Eu conhecera-a muitos anos antes, quando ela era uma adolescente. Mas ao reencontrá-la em Serpa naquela manhã vi uma desconhecida.
Foi num dia de Junho e o calor abrasava as lajes da velha praça.
Estávamos numa esplanada, tomando refrescos. No grupo, as conversas, cruzadas, incidiam sobre assuntos diferentes. Eu não as acompanhava. Estava concentrado nela.
Os cabelos, aquecidos pelo sol alentejano, adquiriram um tom acobreado. Os olhos, enormes, irradiavam uma luminosidade húmida (...). Falava devagar, com um ritmo que lhe valorizava a voz que também me pareceu ser diferente de qualquer voz já escutada. E tudo o que dizia parecia-me profundo, inteligente.
Reencontrei-a no dia seguinte, num almoço ruidoso na aldeia da sua família materna. E a minha atenção voltou a ser absorvida por ela.
Lera livros meus e recordou deles personagens, interrogando-me sobre situações e comportamentos em que, como autor, não havia reflectido.
Reencontrei-a no dia seguinte, num almoço ruidoso na aldeia da sua família materna. E a minha atenção voltou a ser absorvida por ela.
Lera livros meus e recordou deles personagens, interrogando-me sobre situações e comportamentos em que, como autor, não havia reflectido.
Deu-me o e-mail para mantermos contacto permanente. Nas semanas seguintes recebi quase diariamente breves mensagens suas. Numa delas citava Proust, a propósito de personagens de grandes romances criadas pela imaginação mas que amamos como se fossem gente. Impressionou-me a sua capacidade para descer fundo no que em cada um de nós é quase incomunicável e registei também o seu domínio da palavra. Ana Catarina transmitia ideias e sentimentos com um estilo original [...].
À inibição somava-se o temor do ridículo.
Ela tinha 38 anos e eu ia completar 80. Uma jovem como Ana Catarina não podia sentir-se atraída por um velho como eu. Tomar uma grande afinidade intelectual e humana por um sentimento diferente seria uma atitude reveladora de que eu entrava em fase senil sem me dar conta disso [...]
Passei a dormir menos. Sem insónias. Deitado, pensava nela durante horas. Um dia venci as muralhas da inibição e disse-lhe que a atracção complexa que exercia sobre mim era um sentimento muito próximo do amor, o que me assustava.
Mas ela não se assustou. Respondeu que eu a fazia feliz e sugeriu que levantasse as barreiras ao amor. [...]
Em Agosto desse ano, 2005, viajei para o Brasil. Decidimos que no meu regresso iríamos passar um fim de semana alargado a Mérida (...). Redescobri ali a felicidade (...).
Fechei numa gaveta do cérebro as elucubrações sobre o absurdo de romper todas as fronteiras que se interpunham entre mim e uma mulher jovem. Esqueci que tinha mais do dobro da sua idade [...]
Hoje sei que Etna no Vendaval da Perestroika é um livro filho do amor. Não teria sido escrito se não houvesse encontrado a Caty numa manhã de Junho em Serpa. Quando eu envelhecia, pensando na contagem decrescente do tempo de vida útil, ela me sacudiu até às raízes, levando-me a redescobrir o amor em patamares que não imaginava existirem.
Reencontrei pela sua mão a felicidade pessoal, meta perseguida pelo homem como fim supremo, esse estado de paz interior, de alegria pagã cultivado pelos epicuristas gregos e satanizado pela igreja de Jesus e muitas outras.
Caty somente se desentende comigo quando o diálogo incide sobre a brevidade dessa felicidade. Porque na lógica da vida, ela continuará em breve sozinha o seu caminhar (...). A corrente da vida prosseguirá quando eu desaparecer. E de alguma maneira continuarei presente nos meus filhos e netos e em Caty".
Serpa e Vila Nova de Gaia, Setembro de 2008
Miguel Urbano Rodrigues - Parte IV, pag, 211 a 216 In "Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - Ed.Calendário
Do blogue Quanto Tempo o Tempo Tem
Serpa e Vila Nova de Gaia, Setembro de 2008
Miguel Urbano Rodrigues - Parte IV, pag, 211 a 216 In "Meditação Descontínua sobre o Envelhecimento" - Ed.Calendário
Do blogue Quanto Tempo o Tempo Tem
quinta-feira, 25 de maio de 2017
quarta-feira, 24 de maio de 2017
por aqui, há mar e mar e areia sem fim....
O que eu andei para aqui chegar , ó mar.
E , mesmo assim não te alcancei.
Talvez um destes dias , com a força do vento, ele me empurre para te ver e procura a improvável estrela do mar...
(as minhas fotografias na praia da Figueira da Foz)
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Sinais de vida...
CARTA A UMA AVÓ
Avó
o céu está muito azul
como o meu olhar
e o sol muito amarelo
como o meu cabelo
e eu estou a ver uma cerejeira
com um ninho de passarinhos
e uma gaivota
com umas grandes asas abertas
a tua casa
avó
é uma cerejeira
com um ninho de passarinhos.
AF (surripiado a Ana de Freitas ) FB
Fotografia de Luisa, mordomias, Gi Ribeiro
Avó
o céu está muito azul
como o meu olhar
e o sol muito amarelo
como o meu cabelo
e eu estou a ver uma cerejeira
com um ninho de passarinhos
e uma gaivota
com umas grandes asas abertas
a tua casa
avó
é uma cerejeira
com um ninho de passarinhos.
AF (surripiado a Ana de Freitas ) FB
Fotografia de Luisa, mordomias, Gi Ribeiro
sábado, 13 de maio de 2017
Bom fim de semana...
sexta-feira, 12 de maio de 2017
"copo e vela dez tostões"... a treze de Maio na Cova da Iria.... (desabafos)
Nas redes sociais brinca-se muito com Fátima .
Até entrámos de novo na fase do F/f/f …. E eu apetece-me gritar f…. se, para tantos humoristas, filósofos e
jornalista, professores e escritores e
outros escribas, acrescentando aos leitores, comentadores, onde também me
incluo. Mas, desta, sobre o tema, só leio.
Daí a vontade também de escrever.
Respeito as pessoas de
fé, e corroborando as palavras de Frei Bento, ai de mim criticar ou pôr em
causa o que leva as pessoas a fazer determinado tipo de promessas. A exploração
das mesmas, é outra história.
Fui católica por
tradição, e aos 15 anos saí para uma vida laica, ateia com o crescimento e com enorme “inveja” dos homens/mulheres de
fé, cujo mistério não me tocou.
Procurei sempre as
explicações da vida na razão e nos humanos.
Estes últimos , também tão imperfeitos, e a caminho da” imortalidade”
graças à ciência e à tecnologia , são
uma enorme fonte de decepção. E se acontecer, serão Homens?
Mas há gente boa, muito boa, felizmente.
Como dizia um
publicista brasileiro “as únicas pessoas sem fé são que que têm saúde”.
E veio-me à memória
José Afonso, o nosso Zeca, que nos fins de sua vida se agarrou a Santa Teresa
d`’ Ávila e a Santo Agostinho.
A vida, desde que me
lembro dela em concreto, não me deixou passar muitas coisa ao lado, no que se
relaciona com Fátima. Sou de uma cidade,
Figueira da Foz, onde fins dos anos 60 /70, nesta data, saíamos á rua depois de jantar para ver as
centenas de autocarros com peregrinos, que no regresso ao norte, pernoitavam na
cidade.
E o que sentíamos como
um “folclore” ? A ocupação da cidade por autocarros e peregrinos, as botijas de
gás que acendiam os fogões de dois bicos para cozinhar, todos os artefactos de
cozinha, cobertores para dormir no chão e na relva do nossos jardins públicos, e as senhoras que alugavam quartos para os
que, com mais possibilidade, podiam dormir no conforto de uma cama limpa
mais banho. Uma forma de subsistência, num país de fracos recursos e próprio de
uma cidade que já vivia da época balnear.
Fui a última vez a
Fátima tinha eu 18/9 anos.
Já tinha ido mais vezes
em excursões do liceu e a casamento. Era hábito , quem podia, casar em Fátima .
Faz precisamente amanhã 47 anos que o 1º dia de trabalho sazonal como guia turística,
na empresa AVIC, foi a Fátima. Os clientes eram ingleses, classe média, média
baixa, “from” Manchester e Liverpool.
Foi precisamente a Fátima.
Quadro mais
surrealista, não poderia ter acontecido na minha vida. Ainda não sabia o que
era o surrealismo, ouvia falar dele, nem conhecia H. Bosch . Seria o Marrocos
de que se falava nos anos 60? Talvez. Mas o comportamento e a sujidade foram
aterradores. A pobreza, a do país. A fé,
a das desgraças que acontecem a cada um ou que se não desejassem que
acontecesse.
A ida a Fátima, era
roteiro de sábado depois de almoço. Numa
outra viagem , aonde decidi que os clientes teriam 2h para conhecer e “sentir”,
foi a última que saí do autocarro.
Deparei -me com
rapariguinhas jovens, grávidas, internadas em instituições religiosas de
freiras/madrastas, que as faziam andar de joelhos á volta da capelinha das
aparições, a penitenciarem-se do pecado …
Fiquei horrorizada.
Daí para a frente
evitei ir a Fátima fazendo-me substituir por um guia espanhol, muito católico e
que estimava muito a minha mãe como reputada funcionária da Biblioteca
Municipal.
Sou da geração das Mães
que lhes roubaram os filhos para a guerra colonial. Regressar ou não, era
sempre uma dúvida . Regressar são, era outra dúvida . Daí as promessas, as
caminhadas a pé a cumprir as suas promessas.
Um horror no sofrimento permitido pela igreja .
Era miúda quando o Papa
Paulo VI veio a Portugal. Também aterrou em Monte Real e passou pela Figueira. Foi uma loucura.
Porquê criticar o ênfase
dado pela CS desta vinda do Papa Francisco a Portugal ? Há
tantos outros canais alternativos e algumas estações de rádio com boa música.
..
Quantos “Franciscos” encontraram na vossa vida
como este ? Eu, só encontrei “francisquinhos”, e, esses meninos , e meus alunos.
Fui ver o
filme/documentário Fátima de João Canijo. Gostei bastante . E ainda ontem
comentei á mesa. É uma peregrinação que
quem assiste, faz durante 2 h e
tal, mas onde o país real e as idiossincrasias do ser humano estão lá quase
todas .
No fim, já em sentimento “beato”, beijam-se e
abraçam-se e perdoam-se.
Fez-me lembrar outras
situações de grandes encontros comunitários /partidários, onde cá fora se “apunhalam”,
e lá dentro, em festa, são todos
companheiros e camaradas. É a fé ….
É um filme hiper realista
Para finalizar este
desabafo que tinha comigo há dias, o poeta Tolentino, numa das suas crónicas
desta semana no Expresso, ao definir etimologicamente a palavra “Papa”, pai,
falou da nossa enorme” orfandade de pai”. E na verdade estamos órfãos de boas
referencias. Por isso Francisco se
tornou um fã de várias religiões, e de pessoas improváveis.
-------------------------------------------------------------------------------------------
( quando era miúda, ia com a minha avó , no mês de Maio, à procissão
das velas que se fazia na aldeia. Adorava aquela mística da vela acesa dentro
de um copo de papel , e ouvir vendedores gritarem, “copo e vela dez tostões”… )
E… para todos os que
fazem anos hoje e amanhã, “parabéns a você”… É que os há e eu conheço.
Fotografia do filme "Fátima", Rita Blanco e a outra menina que me desculpe, não fixei o nome.
terça-feira, 9 de maio de 2017
Os amigos de Baptista Bastos falam mais alto ... (1934-2017)
POEMA PARA OS MEUS AMIGOS
Virar a cabeça
não é resguardar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
*
Sedenta é aquela
que olha uma montra
no fundo dos olhos
reparem
está morta
*
os outros passeiam
com ar de enganados
*
Verdade é aquele
com a fome
no fato
*
Virar a cabeça
não é reparar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
*
O chão tem os
anos
e a área dos meses
*
e a morte é um fruto
com raiva nos dentes
*
Reparem
no choro que nos deram
no berço
*
verdade é a Hístória
com arado
e semente
*
Virar a cabeça
não é confrontar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
*
Tem o povo as mãos
pregadas na terra
*
Se um dia as recolhe
são armas de guerra
*
que o pão
é feitio que o corpo
ai toma
*
e verdade é no peito
uma bala sem lógica
*
Virar a cabeça
não é perguntar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
è vistoriar
*
Dobrada lava a mulher
o chão
de toda uma casa
*
que os braços
não lavram milho
com as espingar quebradas
*
questão de vício
ou vencer
*
questão de força
*
Reparem
*
há um clima
de raiva
com armas que não disparam
*
Virar a cabeça
não é transformar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
não é resguardar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
*
Sedenta é aquela
que olha uma montra
no fundo dos olhos
reparem
está morta
*
os outros passeiam
com ar de enganados
*
Verdade é aquele
com a fome
no fato
*
Virar a cabeça
não é reparar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
*
O chão tem os
anos
e a área dos meses
*
e a morte é um fruto
com raiva nos dentes
*
Reparem
no choro que nos deram
no berço
*
verdade é a Hístória
com arado
e semente
*
Virar a cabeça
não é confrontar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
*
Tem o povo as mãos
pregadas na terra
*
Se um dia as recolhe
são armas de guerra
*
que o pão
é feitio que o corpo
ai toma
*
e verdade é no peito
uma bala sem lógica
*
Virar a cabeça
não é perguntar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
è vistoriar
*
Dobrada lava a mulher
o chão
de toda uma casa
*
que os braços
não lavram milho
com as espingar quebradas
*
questão de vício
ou vencer
*
questão de força
*
Reparem
*
há um clima
de raiva
com armas que não disparam
*
Virar a cabeça
não é transformar
*
(amigos)
*
nem ver as pessoas
é vistoriar
*
("Cronista não á Recado" - 1967)
Fotografia de Alfredo Cunha
Poema de Teresa Horta ( poema dedicado aos amigos e um dos preferidos de BB ), em FB
domingo, 7 de maio de 2017
quinta-feira, 4 de maio de 2017
Leituras breves mas profundas
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