quinta-feira, 17 de junho de 2021

Bom fim de semana a quem passa


 Agrada-me que tudo assim fosse, e agora

que começaste a fazer corpo com a terra

a única evidência é crescer para o sol.

Eugénio de Andrade, À Memória de Ruy Belo


PS. breve serei mais atenta aos amigos blogueiros. Há tanto tempo que aqui não vinha...

quarta-feira, 19 de maio de 2021

Paz, precisa-se


 “Temos de aprender a viver todos como irmãos ou morreremos todos como loucos”

 Martin Luther King (1929-1968), Nobel da Paz

Fotografia tirada em 2018 por Mustafa Hassona a manifestante de Gaza.




 

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Boa semana a quem passa


 
Uma centena de pessoas fugiu de uma festa no Porto.

A polícia entrou na festa e disse: é absolutamente ilegal uma festa sem a distância mínima entre os sujeitos festivos.
O futuro das festas são os ecrãs.
O ecrã pode ser beijado, uma pessoa não.
Que porcaria, diz um. Que porcaria, diz outro.
O ecrã, para uns, é nojento enquanto objecto a ser beijado.
O rosto ou a boca são nojentos, para outros, enquanto objectos ansiosos por serem beijados.
Uma diferença essencial entre o ecrã e a pele humana, é que o ecrã não mostra a mínima ansiedade antes de ser beijado.
Mas também não retribui.
O que é o frio? É a não retribuição, a pura ausência de qualquer troca.
O que é o calor? É a retribuição.
A pele é uma das poucas superfícies no mundo que quando recebe também emite.
A pele que recebe um beijo emite calor, ansiedade ou etc.
(Não se costuma escrever: ou etc. — mas pode perfeitamente assumir-se que o etc. — que é na linguagem o que o infinito é na matemática — pode ser colocado como alternativa e nem sempre como sequência interminável. Ou isto ou etc.).
Um ecrã fica frio como estava — e frio permanece até aparecer uma avaria.
Um ecrã fica demasiado quente apenas no trágico momento de uma avaria técnica.
Já a pele humana tem bem diferentes regras e hábitos bem distintos.
A pele fica quente no momento da alegria.
E parece que isso não passa.

Gonçalo M. Tavares, Revista E, Expresso

quinta-feira, 8 de abril de 2021

De passagem ...


 

Esplanada

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'


terça-feira, 23 de março de 2021

Hoje vim até ao meu "Mar "fazer prova de vida…

Sempre imagine que o paraíso fosse uma espécie de livraria.

José Luís Borges

"The Librarian, 1905, de Elizabeth Green


 

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Desejo de viajar ? Não, de momento só passear



“Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados”

 Miguel de Cervantes, 1547-1616, 

Pintura de João Hogan

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Leituras breves ...


 

«Não julgues. A vida é um mistério, cada um obedece a leis diferentes. Conheces porventura a força das coisas que os conduziram, os sofrimentos e os desejos que cavaram o seu caminho? Surpreendeste porventura a voz da sua consciência a revelar-lhes em voz baixa o segredo do seu destino? Não julgues: olha o lago puro e a água tranquila onde vêm quebrar-se as mil vagas que varrem o universo… É preciso que aconteça tudo aquilo que vês. Todas as ondas do oceano são precisas para levar ao porto o navio da verdade.

Acredita na eficácia da morte do que queres para participares do triunfo do que deve ser.»


~In, O Tempo Esse Escultor, Marguerite Youcenar

As minhas fotos.

sábado, 30 de janeiro de 2021

"O Norte", crónica


O

Norte atlântico resiste mais ao Chega do que Lisboa e o Sul. Porquê? O ressentimento populista deriva da solidão familiar, da transformação do ser humano num átomo sem ligações familiares e comunitárias, sem bairro, sem fábrica, sem clube, sem igreja, sem família. No Sul e na Grande Lisboa, as pessoas sentem-se sozinhas, desamparadas, sem ligações familiares ou bairristas, e este vazio acaba por criar ressentimento, que agora tem uma expressão política. Sim, é difícil viver na Grande Lisboa, uma metrópole que destrói famílias com as suas distâncias geográficas e humanas. Sim, é difícil viver no Alentejo, e esta dificuldade sulista começa no estilhaçar da base familiar.

Está nos livros, meus caros: o sucesso populista tem por base o colapso da família. Todos os grandes livros sobre esta ascensão populista, “Uma Educação” (Bertrand) de Tara Westover, “Quem Matou o Meu Pai” (Elsinore) de Édouard Louis, “Regresso a Reims” (D. Quixote) de Didier Eriborn, e “Lamento de Uma América em Ruínas” (D. Quixote) de Vance, são também livros sobre o colapso familiar, tal como, se me permitem, o meu “Alentejo Prometido” (FFMS). Não por acaso, no Norte da família há menos mortos de idosos nos lares. 676 idosos do Norte morreram de covid na solidão dos lares; 1219 morreram em lares da Grande Lisboa. No Alentejo, morreram 305 em lares. Este, aliás, é o número mais revelador do Alentejo: com apenas 700 mil pessoas, o Alentejo tem três centenas de mortos em lares. Com 3 milhões e meio de pessoas, o Norte tem seis centenas. Estas diferenças falam por si, dizem-nos tudo sobre a imensa solidão que é a vida familiar no Alentejo e na Grande Lisboa. Quando entramos no Porto através da estação da Campanhã, sentimos logo que estamos noutro mundo, um mundo mais orgânico, com mais toque humano e familiar, um mundo onde é inconcebível a separação das três gerações, um mundo onde a avó marreca é passeada por netos e filhos.

Quando a poeira covídica assentar, é esta a grande lição civilizacional que temos pela frente: os velhos não podem ser largados em armazéns de pessoas

Quando a poeira covídica assentar, é esta a grande lição civilizacional que temos pela frente: os velhos não podem ser largados em armazéns de pessoas. As mortes em cadeia nos lares são a grande tragédia desta pandemia. Ao entrar num lar, o vírus tem ali um dominó de peças facilmente derrubáveis. No pós-pandemia, as cidades ultraindividualistas do Ocidente, representadas aqui por Lisboa, têm de aprender com as cidades mais familiares (Porto, Braga, Aveiro). As pessoas não podem continuar a viver para a sua conta do Instagram, têm de viver para os outros, para os seus próprios pais, avós e filhos. Sim, a vivência em cidade tem de mudar, tal como a organização arquitetónica das próprias casas. Os apartamentos da cidade têm de ser repensados para acolher mais pessoas além da família nuclear. A pandemia destapou de vez a nossa obsessão errada com o isolamento da família nuclear. Quando nos pensamos apenas neste quadrado fechado (mãe, pai, dois filhos), perdemos a capacidade comunitária para ter filhos e para cuidar dos velhos. É preciso uma aldeia para educar uma criança e para cuidar de um velho. Temos de saber criar esse velho espírito comunitário no coração das cidades. Devemos isso aos mortos covid e não covid destes dez meses.

Crónica de João Raposo, Expresso de ontem