quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Notícias do Jaime (continuação) A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise (Berlim: Suhrkamp Verlag)

Aqui vos deixo o link das 2 páginas anteriores , (13-14)
2. Os sucessos da União Europeia [15-18]
     55 anos após a assinatura dos Tratados de Roma, com os quais foi instituída a Comunidade Económica Europeia, a sua sucessora tenta, desesperadamente, provar a si própria e ao mundo que é capaz de passar no teste mais difícil da sua história. Ainda que, neste lugar, não se deva esquecer que muitos dos problemas não são por culpa da UE, mas sim uma consequência da crise financeira dos anos 2008 e seguintes – no decurso da qual gestores de bancos se converteram, de um dia para o outro, em fiéis do Estado, e os Governos abriram gigantescos guarda-chuvas de protecção –, a actual situação faz-nos afinal tomar consciência do erro central que está ligado ao nascimento do euro: num espaço económico de dimensão continental e com uma população de tamanho equivalente, surgiu um mercado comum [16] com moeda, em parte, comum. Mas ficou por dar o passo decisivo no sentido de uma verdadeira união económico-política – razão pela qual não foi possível coordenar, eficazmente, as economias dos Estados da Zona Euro. A concepção de um «nacionalismo recíproco», segundo a qual cada Estado tem o dever de controlar e resolver, ele próprio, os seus problemas financeiros, evitando consequências negativas para aos outros, poderá ser suficiente, em tempo de acalmia, mas em tempo de crise terá que falhar. Ao mesmo tempo, os acontecimentos do Verão de 2012 revelam, com toda a clareza, como todas as coisas estão relacionadas umas com as outras: se um Estado entrar em bancarrota, arrasta outros consigo.
     No meio desta agitação esquece-se, muitas vezes, que a UE, apesar de imperfeita, pode orgulhar-se de grandiosas conquistas: a União Europeia conseguiu o milagre de transformar inimigos figadais em vizinhos; os seus cidadãos gozam de liberdade política e de um nível de vida com o qual só podem sonhar outras populações de outras partes do mundo; a adesão à UE permitiu às anteriores ditaduras da Grécia, Portugal e Espanha converterem-se em democracias estáveis; com 27 Estados (depois da entrada da Croácia, prevista para o 1° de Julho de 2013, serão até 28) e mais de 500 milhões de habitantes, a UE é o maior mercado e bloco comercial do mundo; é possível que o modelo social e económico – a domesticação do capitalismo por parte do Estado-previdência – esteja a atravessar dificuldades, mas dispõe ainda de importantes trunfos e reservas de impulsos para reagir à crise financeira; seres humanos da África subsaariana ou do mundo árabe estão a pôr-se a caminho dos confins do continente da promissão, dispondo-se a correr enormes riscos; o desejo da Sérvia (e de outros Estados da antiga Jugoslávia) de aderir à União prova igualmente a duradoura atractividade da Europa organizada como lugar de liberdade e abastança. E agora tudo isto corre perigo de ficar em ruínas.
     O sucesso da União Europeia é, paradoxalmente e ao mesmo tempo, um motivo para a sua falta de auto-estima. Muitas das suas conquistas parecem tão evidentes às pessoas que, provavelmente, só se aperceberiam delas se, [17] um dia, deixassem de existir. Imaginemos que o controle do passaporte, nas fronteiras e nos aeroportos, voltaria a ser introduzido; que não haveria, em toda a parte, regulamentos fiáveis sobre produtos alimentares, nem liberdade de opinião e de imprensa (que a Hungria, hoje, está a desrespeitar, razão por que este país se sujeita a ser olhado com severidade); que não seria possível, sem ter de superar grandes obstáculos burocráticos, os estudantes trabalharem, nas férias, em Barcelona ou Avignon; que iria ser preciso, em viagens para Paris, Madrid ou Roma cambiar dinheiro, outra vez, e tomar nota dos câmbios. A «Europa pátria» tornou-se a nossa segunda natureza e precisamente isso poderia ser o motivo por que, tão levianamente, a damos por perdida.
     Seja como for, encontramo-nos, efectivamente, num momento histórico difícil, em que deveríamos voltar a ter diante dos olhos a pertinente definição do conceito de crise, elaborada por Antonio Gramsci. A crise, diz Gramsci, é o momento em que a antiga ordem mundial chega ao fim, e em que tem que ser conquistado, superando resistências e contradições, um mundo novo. Mas é precisamente esta fase de transição que é caracterizada por muitos erros e confusões. (10) E, hoje, é justamente a isto que estamos a assistir: uma cisão, um interregno, a simultaneidade de um descalabro e de um novo começo – cujo desfecho está em aberto. (11) Perplexidade, medo, impossibilidade de saber, frustração, desassossego, mas também o desejo ardente de mudança – tudo isto é típico de situações como estas, em que pode ser difícil destrinçar as coisas, nas quais as expectativas das pessoas já não se encaixam nos arranjos institucionais em que deveriam consumar-se. Todos estes sintomas, porém, podem ser já indícios da mudança iminente, como revelam os exemplos históricos da Reforma, da Revolução Francesa ou da implosão do Bloco de Leste. O descontentamento é sempre também o resultado de se estar atentando contra determinados direitos que foram sendo historicamente adquiridos. Nós, Europeus, vivemos em sociedades que declararam a liberdade e a igualdade como princípios fundamentais. Como sociólogo que tem vindo a observar estes fenómenos, não estou por isso nada surpreendido por as pessoas, na Grécia e em Espanha, se revoltarem contra um sistema que provoca desigualdades e injustiças de tão gritantes dimensões e que, escandalosamente, atira os custos, causados por um sistema financeiro descontrolado, para os ombros dos grupos mais frágeis. Uma (18) tal discrepância entre as expectativas e a realidade é sempre um motor de mobilização social. E, de facto, nos últimos meses e anos, temos vindo a ser testemunhas de como as pessoas, em Nova Iorque, Londres, Madrid ou Atenas, vão para a rua – um assunto a que irei voltar, outra vez, no fim deste trabalho.               
     
[Quarta, 31 de Outubro de 2012]
Tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor universitário jubilado, Bochum, Alemanha

Manuel de Falla - nocturno


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Aconteceu...

Duas ou três coisas...
Domingo, recebi a visita de um amigo que me veio oferecer uns frutos secos da época da sua propriedade. Gentil. Entre dois dedos de conversa, que poderiam ter sido três... , falou-me da sua viagem à USA e do seu horror à  forma como foi tratado no aeroporto e da destruição quase maciça da sua bagagem.
Nada que não soubéssemos.
Entretanto , ontem passei pela Gulbenkian, com a intenção de ainda participar um pouco no encontro qe tem como tema   PORTUGAL E O HOLOCAUSTO, APRENDER COM O PASSADO, ENSINAR PARA O FUTURO. (aqui)
Bem , quando cheguei, fiquei em estado de choque  com o aspeto e a real segurança ao vasculharem as malas e da passagem pelo detetor para ter acesso ao Auditório 2.
Fiquei sem saber se ía assistir a  um concerto dedicado ao Holocausto, inauguração de uma belíssima exposição cronológica da história de Portugal e da Alemanha , desde 1926 até 1945 e ainda de um filme com testemunhos de judeus refugiados em Portugal , com histórias de vida e de guerra ou se ía embarcar para  Nova York para assistir à tempestade Sandy.
Ora tendo o encontro sido organizado pela embaixada americana e pela fundação dirigida pela Lurdinhas de má memória... não espanta tão triste ostentação de segurança num país que ainda considero de  acalmia no que concerne ao terrorismo...
Entre nós, terrorismo, só o que este governo implementa, para nos matar lentamente a uns e a outros fulminar.

As imagens do João Viana.... Silhuetas..
















Domingo, pela praia da Figueira da Foz, o João repete os seus passeios pela praia e pelo molhe norte à procura dos melhores momentos para um clik.
Sem exagero, na Figueira,  vislumbram-se os mais belos pôr de sol que me são dados a ver....
Acontece no outono.

domingo, 28 de outubro de 2012

Notícias do Jaime... (continuação). A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise

Amigos, antes de lerem este texto, podem passar por AQUI..... ,texto que antecede este, na magnífica tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor universitário jubilado, Bochum, Renânia, Alemanha.
A luta para derrotar o Merkeavelismo...
.(Ulrich Beck, fotografia)

O livro ser-vos-à apresentado até à tradução final....
Beck, Ulrich (2012)
A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise
(Berlim: Suhrkamp Verlag)

I. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga [12-25]


1. A política de austeridade alemã divide a Europa: os Governos aprovam-na, as populações
    estão contra [12-15]

     Ao contrário de reinos e impérios históricos, cuja origem se encontra em mitos ou heróicas vitórias, a União Europeia nasceu da agonia da guerra e como resposta ao horror do Holocausto. Hoje é a ameaça existencial, provocada pela crise financeira e do euro, que faz  os Europeus cientes de que não vivem na Alemanha, França, Itália, etc., mas sim na Europa. E na medida em que a bancarrota do Estado, a crise económica e a decadência dos mercados de trabalho colidem com expectativas mais ambiciosas, como consequência da expansão do sistema educativo, a «geração da crise» experimenta também o seu destino europeu.
     Quase um em cada quatro Europeus, com menos de 25 anos, não encontra trabalho e, além disso, muitos vão sobrevivendo através de contratos de trabalho mal pago e a prazo. Na Irlanda e em Itália, cerca de um terço dos jovens com menos de 25 anos está, oficialmente, sem trabalho; na Grécia e em Espanha, em Junho de 2012, a taxa de desemprego dos jovens rondava os 53%, em cada um destes dois países. Na Grã-Bretanha, desde o início da crise financeira, em 2008, a taxa subiu de 15 para 22%. Em Tottenham, onde rebentaram os distúrbios, no ano de 2011, para cada lugar de trabalho há 57 candidatos. (6)
     Em toda a parte onde o precariado académico acampou e ergueu a voz, reivindica-se justiça social – uma reivindicação que em Espanha, Portugal, mas também na Tunísia, Egipto e Israel é feita sem violência, mas de forma veemente. A geração do facebook transporta este protesto, apoiada pela maioria da população dos respectivos países. A Europa e a sua geração jovem estão unidas na ira contra uma política que salva os bancos, com somas de dinheiro incalculáveis, mas que descura o futuro das gerações jovens.
     A crise e os programas para a salvação do euro deixam sobressair os contornos de uma outra Europa, de um continente dividido, [13] atravessado por novos fossos e fronteiras. Um destes fossos ocorre entre os países do Norte e os do Sul, entre Estados credores e Estados endividados. Uma outra fronteira separa os Estados da Zona Euro, obrigados a agir, dos membros da UE que não aderiram ao euro e, agora, têm de assistir, impotentes, por nelas não poderem participar, a tomadas de decisões-chave sobre o futuro da União. Uma terceira cisão fundamental sobressai das eleições nos países endividados, e vai ter consequências políticas duradouras: os governantes aprovam os pacotes de medidas de austeridade, e as populações votam contra. Torna-se visível, aqui, a tensão estrutural entre um projecto europeu que é apresentado e gerido, de cima, pelas elites político-económicas, e a resistência a ele, que vem de baixo. Os cidadãos defendem-se de uma impertinência, sentida como altamente injusta, recusando-se a tomar um remédio de efeitos provavelmente letais. Não só em Atenas, mas também em toda a parte, na Europa, está a formar-se um movimento de resistência a uma política de gestão da crise que – de acordo com o lema: socialismo de Estado para os ricos e os bancos, neoliberalismo para a classe média e os pobres – está a abrir caminho para levar a cabo uma nova repartição da riqueza de baixo para cima. O que fazem então os salvadores se os que devem ser salvos não querem que os salvem? Em todo o caso, não da maneira apresentada como sendo alegadamente «sem alternativa» pelos próprios Governos?
     Outro paradoxo: assistimos a debates apaixonados e a tremendas lutas de poder – e no fim de contas ficam todos a perder. Na Alemanha, as pessoas estão furiosas por «dinheiro dos contribuintes alemães» estar a ser desbaratado com «Gregos tesos», como se podia ler nas parangonas sensacionalistas do Bild-Zeitung, apelando para os baixos instintos dos leitores desse tablóide (neste trombone, porém, também tocou a revista Stern, consumida por outro público da classe média, com uma capa que, entretanto, assumiu uma lamentável notoriedade, mostrando a Afrodite de Milo de dedo médio em riste, fazendo um gesto obsceno). Nos Estados em crise, por sua vez, muitas pessoas consideram-se perdedoras, por a política de austeridade alemã-europeia lhes roubar as bases da sua existência – e, simultaneamente, também a sua dignidade. É assim que as populações, nos Estados membros da UE, são manipuladas e instigadas umas contra as outras, a este nível rasteiramente populista, sem se aperceberem de que elas todas, no seu conjunto, são vítimas da crise financeira e das insuficientes tentativas de a resolver. 
     [14] Portanto no futuro vai haver muitas Europas, na Europa. Uma delas é a Europa de baixo, a Europa dos cidadãos que talvez nem sequer saibam (ou não queiram saber) que são cidadãos europeus. Reside, aqui, um estado de espírito fatal, em que se misturam a insegurança, o receio e a indignação, e que se manifesta na fórmula: «Não estou a entender nada disto!» Crise dos bancos e crise financeira. A Europa em crise. O euro em crise – cada dia outra coisa nova – ou é tudo, afinal, o mesmo? Todos estão perplexos. E de certo modo desamparados. Em Agosto de 2011, o jornalista Holger Gertz escreveu o seguinte, numa grande reportagem acerca do receio e da confusão que reina na cabeça das pessoas: «É possível levar a cabo manifestações contra a guerra, contra a energia nuclear, e de comovedora clareza são estações de caminho de ferro ou pistas de aterragem já planeadas, pois também é perfeitamente possível organizar manifs contra elas.» «Mas contra a crise financeira?», e cita uma política de Berlim, do partido Die Linke. «O que é que se pode então escrever nos cartazes de uma manif dessas? Crise, vai pró raio que te parta?» (7)
     Como é que se pode perceber que já mais ninguém entenda seja o que for? Para encontrar resposta a esta pergunta, vou seguidamente retomar teses que desenvolvi na minha obra teórica Sociedade de Risco e aperfeiçoei, depois, em Sociedade de Risco Mundial. Este não-saber que se está a difundir, segundo a minha interpretação, é uma característica essencial de uma dinâmica a que estão expostas, no presente, as sociedades ocidentais. (8) A sociedade de risco é, em determinado sentido, também sempre uma sociedade do poderia ser. As centrais de energia nuclear, cuja complexa vida interna nós não compreendemos, poderiam avariar-se; os mercados financeiros, que até mesmo os “virtuosos” das especulações da bolsa parecem já não entender, poderiam entrar em colapso. Aqui, o modo condicional é um estado permanente: estamos constantemente a antecipar, hoje, catástrofes que, amanhã, poderiam vir a acontecer. Este modo condicional catastrófico irrompe, com violência, no meio de instituições e no dia-a-dia das pessoas – não se pode calcular com precisão, está-se nas tintas para a constituição e as regras democráticas, está carregado de um não-saber explosivo, e arrasta para o sorvedouro todos os pontos de orientação.
     Estas ameaças difusas instituem, ao mesmo tempo, algo como um sentimento de comunidade. Tomemos como exemplo a crise do euro: sociedades inteiras fazem a experiência comum de como, perante os programas de austeridade, no [15] elevador, são transportadas para um piso inferior. Em toda a Europa, uma geração inteira está a ser confrontada com o facto de ninguém precisar dela, se as curvas da bolsa apontarem para baixo, abruptamente. As consequências da crise não se detêm nas fronteiras nacionais, porque as imbricações, no âmbito da sociedade globalizada, já são muito estreitas. Então as pessoas perguntam-se: Se a Grécia cair na bancarrota, a minha pensão de reforma, na Alemanha, ainda está garantida? Mas afinal o que é que significa a «bancarrota de um Estado»? Que implicações é que ela tem para mim? O facto de serem precisamente os bancos – que, normalmente, protestam, com veemência, contra toda a intervenção do Estado – a pedirem ajuda a Estados endividados, e o facto de estes Estados, efectivamente, disponibilizarem somas astronómicas –, quem é que, ainda há poucos anos, seria capaz de pensar numa coisa destas? Hoje são todos capazes. O que não quer dizer, porém, que haja alguém que entenda isto. (9)
     Como está exposto na minha obra Sociedade de Risco, a expectativa, profundamente alojada no quotidiano, de uma catástrofe global, constitui uma das grandes formas de mobilização do nosso tempo. Este tipo de ameaça, percepcionada em todo o mundo, torna possível que se faça a experiência da relação, não raro aborrecida, que há entre a nossa própria vida e a vida de outros seres humanos, em outras regiões do mundo.              
        

Samba de Bênção - Vinicius de Moraes e Toquinho .... Bom domingo...


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Fernando Botero vem aí... Novembro está próximo...






































Nunca esquecerei a mega exposição de escultura que durante meses esteve patente  na Praça do Comércio  em Lisboa da autoria de Fernando Botero.
Além de passar todos os dias a caminho da minha escola, no Castelo de S. Jorge, também rapidamente lá chegava com os meus alunos que se divertiam imenso com aquelas figuras hiper redondas e lascivas...
Hoje, repetida , na beleza em que se tornou esta nossa Praça seria um outro desfrute ...
Isto para vos dizer que em novembro, 14, vai ser inaugurada uma nova exposição, como  (Aqui) podem ver, mas de temática bem diferente....
Aguardemos pois....

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Notícias do Jaime... "A Europa Alemã", (continuação)

Como foi proposto AQUI,  na primeira parte da tradução do livro do sociólogo alemão, Ulrich Beck," A Europa Alemã", hoje mais duas páginas chegaram atá mim...

Beck, Ulrich (2012)
A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise
(Berlim: Suhrkamp Verlag)

Introdução: [9-11]
A Alemanha perante a decisão do ser ou não ser da Europa

     «Hoje, o parlamento federal alemão decide o futuro da Grécia», ouço dizer, no fim de Fevereiro de 2012, nos noticiários radiofónicos. Nesse dia tinha lugar uma votação acerca do segundo «pacote de ajuda», associado a imposições de austeridade e a condições obrigando a Grécia a aceitar ingerências na sua soberania orçamental. É claro que é assim mesmo, diz uma voz, no interior do meu peito. A outra, porém, pergunta, sem poder acreditar no que acabara de ouvir: Como é possível uma coisa destas? Mas afinal o que significa que uma democracia decide, pela votação, o destino de uma outra democracia? Bem, os Gregos precisam de dinheiro dos contribuints alemães. As medidas de austeridade impostas, porém, equivalem a uma limitação do direito de autodeterminação do povo grego.
     Nessa altura, chocante era não só o conteúdo da asserção, mas também a maneira como tal situação, na Alemanha, era considerada perfeitamente normal. Escutemos isto, de novo, com mais atenção: o parlamento alemão – e não o grego – decide o futuro da Grécia. Será que uma coisa destas faz sentido?
     Vamos fazer um pequeno “Gedankenexperiment”, ou seja, usemos uma palavra alemã que não se costuma traduzir e que significa algo como uma simulação mental de uma experiência. Admitamos então que os Alemães iriam ser convidados a decidir, por votação, se a Grécia, agora (portanto no Verão de 2012, quando este texto está a ser elaborado), haveria de sair do euro. O resultado previsível seria: «Acrópole, adeus!” – como se podia ler na capa da revista “Der Spiegel”. (2) Vamos ainda admitir que os Gregos iriam ter que responder à mesma pergunta, num plebiscito. O resultado provável teria sido uma clara maioria (segundo uma sondagem de Maio de 2012, cerca de 85%) a favor da permanência no euro. (3)
     Como iria ser possível resolver estas discrepâncias nas decisões de democracias nacionais? Qual é a democracia que leva a melhor? Com que direito? Com que legitimação democrática? Ou será que as constrições económicas desempenham, aqui, um papel-chave? Será que, afinal, a retenção de créditos constitui [10] a alavanca de poder decisiva? Ou a Grécia, o país que inventou a democracia, perde, por causa do peso das suas dívidas, possivelmente também o  direito à autodeterminação democrática?
     Em que país, em que mundo, em que crise estamos nós a viver... quando uma tal interdição democrática, levada a cabo por outra democracia, não provoca o menor escândalo? Neste processo, a fórmula «Hoje, o “Bundestag” decide o destino da Grécia» peca por insuficiência. É que, aqui, já não se trata apenas da Grécia. Trata-se da Europa. «Hoje, a Alemanha decide o ser ou não ser da Europa» – esta frase é que exprime, com precisão, o estado da atual situação mental e política do momento histórico que atravessamos.
     A União Europeia tem 27 Estados membros, com os Governos e Parlamentos respectivos, dispõe de um Parlamento próprio, de uma Comissão, de um Tribunal, de uma encarregada de Negócios Estrangeiros, de um Presidente da Comissão Europeia, de um Presidente do Conselho Europeu, etc., etc. Mas a crise financeira e do euro catapultou a Alemanha, com o seu poderio económico, para a posição de grande potência decisiva da Europa. Em escassos setenta anos, a Alemanha que, depois da Segunda Guerra mundial e do Holocausto, estava de rastos, tanto moral como materialmente, passou de aluno aplicado para mestre-escola da Europa. De acordo com a autocompreensão dos Alemães, a palavra «poder», tanto ontem como hoje, continua a ser considerada palavra suja, preferindo-se por isso substituí-la por «responsabilidade». Os interesses nacionais ficam discretamente escondidos por detrás de grandes palavras como «Europa», «paz», «cooperação» ou «estabilidade económica». Quem ousar pronunciar a fórmula de poder da «Europa alemã» quebra este tabu. Seria ainda muito pior dizer: a Alemanha assume a «chefia» da Europa, porque a palavra alemã «Führung», para “chefia”, faz logo lembrar o «Führer» Adolfo Nazista, ou o «duce» do fascismo italiano. (4) Por isso só se poderá dizer, de acordo com este código eufemista alemão: a Alemanha assume «responsabilidade» pela Europa.
     A crise da Europa, porém, está a agudizar-se e a Alemanha vê-se colocada perante a decisão histórica de: ou revitalizar, contra todas as resistências, a visão da Europa política; ou manter, porém, a política do ir-se arranjando no meio da crise e da táctica domesticadora da hesitação – e isto «até que o euro nos separe». A Alemanha tornou-se demasiado poderosa para poder dar-se ao luxo de não tomar qualquer decisão.
     [11] Na esfera pública alemã, o facto de ter chegado este «momento de decidir» é raras vezes mencionado, embora o seja, e muito claramente, nos comentários de observadores estrangeiros. Por exemplo, Eugenio Scalfari, jornalista e escritor italiano, argumenta da seguinte maneira: «Se a Alemanha levar a cabo uma política financeira que conduza ao fracasso do euro, então os Alemães terão que assumir a responsabilidade pelo fracasso da Europa. Isto seria a sua quarta culpa, depois das duas guerras mundiais e do Holocausto. A Alemanha tem que assumir, agora, a sua responsabilidade para com a Europa.» (5)   
     Ninguém deverá ter dúvidas quanto a este ponto: numa «Europa alemã», a Alemanha seria sempre responsabilizada pelo fracasso do euro e da UE.

(Tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor jubilado , Bochum)

Divulgação... Auditório Sra da Boa Nova



Ontem assisti a um concerto no Auditório da Srª da  Boa Nova pela Sinfonetta  de Lisboa com 
a participação de Pedro Jóia.
Foi um belo momento o da fusão de Pedro Jóia  e da Orquestra, interpretando um Díptico de Lisboa : Barra do Tejo e Evocação do Fado Menor.

Ora o motivo desta conversinha convosco tem a ver com a divulgação de um espaço que precisa e ser frequentado. 
Este auditório, pertence à Paróquia do Estoril e inclui um colégio, apoio a idosos e jovens em risco. (ocupa o antigo Bairro Fim do Mundo, antro de droga, consumo e venda, em S. João do Estoril).
Claro que também foi construído com o dinheiro  dos munícipes.... pois a CMC colaborou.
É o único auditório do concelho de Cascais, com umas condições ao nível de um Centro Cultural de Belém, com uma programação erudita... mas com  pouca frequência.

Ontem houve um apelo à sua divulgação... Penso que há um desfasamento , ou falta de comunicação, entre a entidade responsável, a Paróquia, e a CMC, pois a divulgação da programação nem sequer tem constado até aqui da Agenda Cultural. (coisa que não me espanta... )

4 de Novembro começará o Ciclo Mozart & Mendelssonhn.
18h 30m

1 de Dezembro 18h, Auditório Municipal Ruy de Carvalho

terça-feira, 23 de outubro de 2012

A Alemanha e as conversas do Jaime....


O HOMO TEUTONICUS actual

O Alemão contemporâneo, ou seja, o HOMO TEUTONICUS representado por um universo de 82 milhões de indivíduos, do qual também faço parte desde finais do século passado, pode classificar-se em dois grandes grupos: o Alemão Burro e o Outro Alemão.

O Alemão Burro, em geral, fala bávaro, suábio, alemânico, saxónico, turíngio, francónico, frísio...; os seus bisavós e tetravós alcandoraram Hitler ao poder, legalmente, em 1933; hoje satisfaz as suas necessidades intelectcuais lendo o maior tablóide da Europa, que é também a maior nódoa da imprensa alemã e europeia, e em que Anja Markiavel é taxada de “chanceler de ferro”, uma imagem fatal, porque vem aí chuva abundante e aquele ferro vai apanhar muita ferrugem; vota nela, enquanto não aparece o segundo Adolfo, que o ajude a dar cabo de tudo, outra vez, como no “milénio” do III Reich, com maior eficácia e rapidez.

Não fala línguas estrangeiras, a não ser, na melhor das hipóteses, um Inglês macarrónico, com forte sotaque. Não se lhe peça que aprenda a falar Francês, por exemplo, porque o Alemão Burro nunca irá entender os não Alemães, em geral, e muito em especial os povos provenientes de culturas românicas. Mas gosta de passar férias em Maiorca, lendo o maior tablóide para imbecis, e emborrachando-se de tal maneira, após ter satisfeito as necessidades da pobre mioleira... que acaba por urinar nos baldes de sangria... como os porcos na gamela. (Estas imagens, transmitidas pelos canais privados de TV, foram proibidas, por serem demasiado chocantes).

O Outro Alemão descende de uma elite intelectual, científica e artística que deu ao mundo génios como Leibniz e Goethe, Einstein e Heisenberg, Kant e Hegel, Bach e Beethoven, Thomas e Heinrich Mann, B. Brecht... e tantos outros que seria ocioso mencionar. Hoje está representado por sociólogos como Ulrich Beck, professor jubilado da Universidade de Munique, e docente da London School of Economics e da Harvard University. Ou por filósofos como Jürgen Habermas, conhecido em todo o mundo civilizado.

O Outro Alemão, na Suábia, levou ao poder, recentemente, um político ambientalista (o ministro-presidente Kretschmann) e, no domingo passado próximo, em Estugarda, o primeiro burgomestre Verde, Fritz Kuhn.

O Outro Alemão prepara-se para corrigir os desmandos da política desastrada de Anja Merkiavel, a filha do pastor que bem gostaria de ter formato de estadista, coitada, mas que não passa de mais uma banal cínica de poder, com um apetite ávido pelo tacho, como tanta outra gentinha do nível rasteiro dela.

Resumindo: até Setembro futuro próximo, o mundo irá assistir ao duelo entre o Alemão Burro e o Outro Alemão.

Como militante do SPD (mas tão desiludido que nunca ponho os pés nas reuniões organizadas pelos zelosos funcionários para entreterem quem vai pagando as quotas)... espero que o Outro Alemão leve a melhor.

Para bem da Europa e do mundo. E... last but not least... da própria Alemanha!

Afinal… também sou Alemão, repito… não obstante os esforços desesperados do taxista sr. Schneider, ativista nazi convicto... para tentar impedir-me de o fazer... uma cena tão imbecil e grotesca... que nem vale a pena dar mais pormenores.

[Bochum, terça, 23 de Outubro de 2012], Jaime Ferreira da Silva

Momentos...


Este Outono quase me mata...
Hoje, em Sintra...

domingo, 21 de outubro de 2012

Notícias do Jaime.... « A Europa Alemã», partes (0) e (1)


Vamos lá preparando a visita de "Merkiavel".... para Novembro...
Mão amiga.... lutador incansável desta "forma " de Europa, mas crente numa outra,  se Merkel desaparecer nas eleições de 2013... , Jaime Ferreira um estudioso de filosofia e sociologia, apresenta-nos, "petit à petit"... a tradução de um pequeno livro saído na Alemanha, do sociólogo alemão, Ulrich Beck (1944)
Vão passando pois pelo Mar....

Beck, Ulrich (2012)
A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise
(Berlim: Suhrkamp Verlag)

(0)Índice [p. 5]

Prefácio
Introdução: a Alemanha perante a decisão do ser ou não ser da Europa

I. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga
1. A política de austeridade alemã divide a Europa: os Governos aprovam-na, as populações
    estão contra
2. Os sucessos da União Europeia
3. A cegueira da economia
4. Política interna europeia: o conceito de política referida ao Estado nacional é anacrónico
5. A crise da União Europeia não é uma crise de endividamento

II. As novas coordenadas de poder na Europa: como se chega à Europa alemã
1. A Europa ameaçada e a crise da política
2. A nova paisagem de poder na Europa
3. «Merkiavel»: a hesitação como táctica domesticadora

III. Um contrato social para a Europa
1. Maior liberdade através de mais Europa
2. Maior segurança social através de mais Europa
3. Mais democracia através de mais Europa
4. A questão do poder: quem é capaz de impor o contrato social?
5. Uma Primavera europeia?



[p. 6 ]

(1)Prefácio [pp. 7-8]


     Será que, quando o leitor tiver este livrinho entre mãos, na Grécia se voltará a efectuar pagamentos em dracmas ou, até na própria Alemanha, em marcos alemães? Ou será que o leitor vai sorrir destes cenários sombrios, por a crise ter sido superada, há muito, e a Europa política ter saído dela, fortalecida? Já o simples facto de se fazerem estas perguntas, o andar às apalpadelas na névoa da incerteza, diz muitas coisas acerca do estado volátil da Europa e do risco de se querer entendê-lo.
     Todos sabem isso, mas dizê-lo, explicitamente, é o mesmo que quebrar um tabu: a Europa tornou-se alemã. Ninguém o quis, deliberadamente, mas, em face do colapso do euro, a potência económica que é a Alemanha «resvalou» para a posição de grande potência europeia decisiva. O historiador inglês Timothy Garton Ash escreveu o seguinte, sobre este assunto, em Fevereiro de 2012.

No ano de 1953, Thomas Mann proferiu, em Hamburgo, um discurso perante estudantes em que lhes implorou que não lutassem por « Europa alemã» uma mas sim por uma« Alemanha europeia» . Este fórmula foi repetida, vezes sem conta, nos dias da reunificação alemã. Hoje, porém, assistimos a uma variação dela que só poucos tinham previsto: uma Alemanha europeia, em uma Europa alemã.(1)

     Como é que foi possível acontecer isto? Quais são as suas consequências? Que futuros ameaçadores haverá, ou que vantagens aliciantes? Tudo isto são questões que irei discutir, neste trabalho.
     Presentemente, o debate público é quase exclusivamente dominado pela perspectiva da economia, o que parece ser um pouco absurdo, se nos lembrarmos de como os próprios economistas foram surpreendidos pela crise. O problema que, aqui, reside, é o seguinte: a perspectiva económica não vê que não se trata apenas de uma crise da economia [8] (e do pensamento económico) mas antes, muito em especial, de uma crise da sociedade e da política – e da compreensão predominante de sociedade e de política. Não sou eu portanto que, como sociólogo, estou a fazer incursões no terreno alheio da economia, a economia é que se esqueceu da sociedade de que ela trata.  
      A minha intenção é propor, neste trabalho, uma nova interpretação da crise. Gostaria de tentar analisar, detidamente, as notícias que se vêem, diariamente, nos programas televisivos ou nas parangonas dos jornais, e investigar o seu relacionamento mútuo. A leitura que ofereço assenta no quadro de referência da minha teoria da sociedade de risco. Esta perspectiva, focada num modernismo sobre o qual se perdeu o controle, que apresentei nas obras respectivas, vai ser, aqui, desenvolvida em relação à crise da Europa e do euro.
     Para superar a crise precisamos, de acordo com um ponto de vista muito difundido, de mais Europa. Este “mais Europa”, porém, encontra cada vez menos adesão nas sociedades dos Estados membros. Poder-se-á pensar na consumação da união política partindo destes pressupostos? Em uma política fiscal, económica e social comum? Ou, no decurso da união política, deixou-se de fora, durante muito tempo, a questão decisiva, ou seja, a questão da sociedade europeia, ignorando-se o soberano, ou seja, o cidadão?
   Put society back in it! Não se esqueçam da sociedade! O objectivo deste trabalho é dar visibilidade, na crise financeira, às modificações do poder e à nova paisagem de poder, na Europa.
       

Tradução de Jaime Ferreira, professor/leitor na Alemanha, jubilado

Bom domingo...


sábado, 20 de outubro de 2012

Manuel António Pina.... 1943-2012... As suas palavras...

Amor como em Casa

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa
.

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"




sexta-feira, 19 de outubro de 2012

As fotografias do João...

O sol e o  sono...
Os passeios do João pelo molhe norte na praia da Figueira ...
O outono é assim...

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Maternidade... hoje, porque sim..

     

 POEMA DE ME CHAMAR ANTÓNIO   
                 
 Hoje ao nascer do sol, de manhãzinha,
ouvi cantar um galo no quintal
quando eu tinha seis anos e fui passar as férias do Natal
com a minha madrinha.

Na cama improvisada no corredor
sabiamente fingia que dormia
muito embrulhado num cobertor,
enquanto numa luz melada e quase fria,
o mundo, sabiamente,
fingia que nascia.

E então apeteceu-me também nascer,
nascer por mim, por minha expressa vontade,
sem pai nem mãe,
sem preparação de amor,
sem beijos nem carícias de ninguém,
só, só e só por minha livre vontade.

Dobrado em círculo no ventre do meu cobertor,
enrugado como um feto à espera da liberdade
(viva a liberdade!)
cerrava e descerrava as pálpebras, sabiamente,
como se as não movesse,
como se não sentisse nem soubesse,
abrindo-as numa fenda dissimulada e estreita,
insensível às coisas quotidianas,
mas hábil para aquela alvorada puríssima e escorreita
que me inundava o sangue através das pestanas.
Fremiam-se-me as pálpebras sacudindo na luz um pó de borboletas,
um explodir de missangas furta-cores,
bacilos e vapores,
rendas brancas e pretas.

Cada vez mais feto, mais redondo, mais bicho-de-conta,
mais balão, mais planeta, bola pronta
a meter-se no forno,
mais eterno retorno,
mais sem fim nem princípio, sem ponta nem aresta,
excremento de escaravelho aberto numa fresta.

Foi então
que o tal galo cantou.
Looooooonge...
Muito looooooonge...
no quintal da vizinha,
lá para o fim do mundo mesmo ao lado da casa da minha madrinha.
Era uma voz redonda, débil, inexperiente,
bruxuleante como a chama
que está mesmo a apagar-se e esperta de repente
e novamente morre e de novo se inflama.
Uma voz sub-reptícia, anódina, irresponsável,
fugaz e insinuante,
um canto sem contornos, aéreo, imponderável.
Tudo isso e muito mais, mas principalmente distante.

Foi assim que a voz do galo na capoeira
do quintal da vizinha
que tinha plantado ao centro uma nespereira
mesmo junto da casa da minha madrinha,
penetrou no ventre macio do meu cobertor.
Era uma frente de onda, compacta e envolvente,
pura já na garganta e agora mais que pura,
filtrada
e destilada
nos poros ávidos da minha cobertura.
Chegou e fulminou o meu ser indigente,
exposto e carecido,
naquele gesto mole e distraído
do Deus omnipotente
da Capela Sistina
quando ergue a mão terrível e fulmina
o coração
de Adão.

E pronto. Eis-me nascido. Cheio de sede e fome.

António é o meu nome.

POEMA DE ANTÓNIO GEDEÃO
PINTURA DE GINO SEVERINI (1883-1966)

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Recebo a chuva... e penso a vida nas palavras dos outros...

Viver é...

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'


Pintura de Ronaldo Mendes

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Efemérides... pois hoje um faria e outro faz hoje anos...


"Não se pode deixar a democracia unicamente entregue aos políticos".
Gunter Grass


"A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre."



Oscar Wilde


domingo, 14 de outubro de 2012

Notícias da minha terra... tristes...

 A casa onde Jorge de Sena passou férias...
Na Rua Fernandes Coelho, antiga Rua da Igreja. Foi nesta casa que o jovem Jorge de Sena passou férias no verão de 1936, ano do início da Guerra Civil de Espanha,  no qual decorre a ação do romance "Sinais de Fogo".... já aqui falado neste Mar, em 2010 (AQUI).
Só agora o soube... Entrei nesta casa várias vezes... Vivia lá uma excelente professora e ao lado era a minha escola primária.
Na década de 90 as  filmagens de "Sinais de Fogo" passaram por aqui...

Com tristeza assisto ao encerrar de uma livraria de referência na Figueira da Foz, "A Havaneza"... 
Manteve-se sempre nas mãos dos mesmos donos... até ao envelhecimento da sua única herdeira e ao ter que se desfazer dela já por algumas dificuldades   financeiras... 
Só um romântico poderia ter pegado nesta pérola...  
Não aconteceu... E, imagino,  que o jovem Jorge de Sena também por aqui tenha passado...

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Bom fim de semana...



Traz-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.


Cecília Meireles/Evelina Oliveira

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

" A Operação da Pedra" e "As Cores do Pensamento"


Hyeronimus Bosch (clicar)  pintor de profissão, há mais de cinco séculos que intriga os espíritos sagazes que procuram decifrar-lhe os mistérios, descodificar-lhe a gramática, conferir enigmáticas profecias. Favorito de um rei beato, surrealista antes do tempo, a sua pintura é dieta inesgotável para estudiosos que nela encontram folclore, alquimia, a cabala, traço de alucinógeneos e até Freud ou Jung......
 Assim o escreveu João Lobo Antunes....

Libertar pela arte... Boa semana....


domingo, 7 de outubro de 2012

Porque há domingos assim...

De Alexandre Cabanel , O Nascimento de Vénus

Vénus

À flor da vaga, o seu cabelo verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!
Pútrido o ventre, azul e aglutinoso,
Que a onda, crassa, num balanço alaga,
E reflui (um olfato que se embriaga)
Como em um sorvo, murmura de gozo.
O seu esboço, na marinha turva...
De pé flutua, levemente curva;
Ficam-lhe os pés atrás, como voando...
E as ondas lutam, como feras mugem,
A lia em que a desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.

II

Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
_ Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente cor de rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrui, compara,
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
_ Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...

Poema de Camilo Pessanha 


sábado, 6 de outubro de 2012

Esta noite está a acontecer.... Maurice Steger, "o flautista imparável"... junta-se ao Divino Sospiro... Há noites belas...


Uma visita que não tem data...

...porque este espaço veio para ficar.
Fui ver e gostei muito, LISBOA STORY (AQUI).
No mesmo Terreiro, segundo uma opinião abalizada,  poderia ter passado a existir o Museu da Cidade, localizado num belo Palácio, mas distante do coração da cidade... 
Ficar no Páteo da Galé.... tão subaproveitado..., por exemplo...

Há  que ir .... e desfrutar a praça mais linda em espaço e limpidez... O nosso Terreiro do Paço.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Memórias da linha de Cascais que se vão apagando...

 Tenho assistido ao desmoronar lento e cuidado de um dos últimos redutos de Memória da II Guerra Mundial, o Hotel Atlântico, situado no Monte Estoril....
Vai dar lugar a um apartotel  dizem, mas nas nossas memórias e só nas nossas , ficará a imagem daquele hotel que albergou espiões, neste caso os da Gestapo, porque os da Resistência instalavam-se no belo British Bar , uns metros à frente, e de lado oposto , hoje um restaurante de referencia ," O CIMAS."
No seu Blogue, Irene Pimentel, traz uma completa história  REVIVER O ESTORIL DURANTE A II GUERRA  MUNDIAL. ( VER AQUI).
E eu acrescento algo que me toca profundamente... pois é o meu cantinho... "O Monte Estoril, génio dum outro século, conserva- se indenme da mácula estrangeirada. Conserva o seu ar de bucolismo português, de jardim de convento, de elegância antiga e recatada.
E não se sabe se o perfume do Monte Estoril, é essa graça saudosista de coisa portuguesa e de visão do passado - se o dos goivos, dos heliotrópios, das magnólias, dos lilases, das glicínias, do seu jardim de jardins... "
Este pequeno texto contrapõe -se a" um  Estoril estrangeirado, enervante e banal como um mundo standardizado, cosmoplita e internacional" 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Sol de que gosto...


    Sol de Outono.... o que se mais aproxima de mim...  Por isso gosto tanto dele e o procuro.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Aconteceu ontem à noite... porque há noites assim...



No auditório da Boa Hora, com a Orquestra Divino Sospiro.

Leituras breves...


Bom dia , proverbial Outubro...


Com a vinha em Outubro, come a cabra, engorda o boi e ganha o dono.
 Em Outubro centeio ruivo.
 Em Outubro não fies só lã; recolhe teu milho e feijão, senão de Inverno tens a tua barriga em vão.
 Em Outubro o fogo ao rubro.
 Em Outubro o lume já é amigo.
 Em Outubro ou secam as fontes, ou passam os rios por cima das pontes.
 Em Outubro, S. Simão, favas no chão.
 Em Outubro, S. Simão; semear, sim; navegar, não.
Em Outubro sê prudente; guarda pão, guarda semente.
 Em Outubro semeia e cria, terás alegria.
 Outubro chuvoso torna o lavrador venturoso.
 Outubro erveiro, guarda para Março o palheiro.
 Outubro nublado, Janeiro molhado.
 Outubro pega tudo.
 Outubro quente traz o Diabo no ventre.

Fotografia de Robert Doisneau