segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Crises... mas as de Beethoven...

 A "melancolia" talvez se devesse à sua surdez. Esta surdez, o mais terrível dos males para um músico, começou a manifestar-se já em 1796, e foi-se agravando cada vez mais, até que, em 1820, Beethoven praticamente já não ouvia. No Outono de 1802 o compositor escreveu uma carta, conhecida como "testamento de Heiligenstadt", destinada a ser lida pelos irmãos após a sua morte; nela descreve, em termos comoventes, o seu sofrimento quando se apercebeu de que a doença que o afectava era incurável:

Tenho de viver quase só, como alguém que tivesse sido banido; só posso conviver com os homens na medida em que a absoluta necessidade o exige. Se me aproximo das pessoas, sou tomado de um profundo terror e receio expor-me ao perigo de que alguém se aperceba do meu estado. E assim tem sido nestes últimos seis meses que passei no campo [...] que humilhação para mim quando alguém ao meu lado ouvia uma flauta ao longe e eu não ouvia nada, ou alguém ouvia um pastor a cantar e de novo eu nada ouvia. Tais incidentes quase me levaram ao desespero, por pouco não pus termo à vida - só a minha arte me deteve. Ah, parecia-me impossível deixar o mundo antes de transmitir tudo o que sentia ter dentro de mim [...] Oh Providência - concede-me ao menos um dia de pura alegria -, há tanto tempo que a verdadeira alegria não ecoa no meu coração [...]1.
Adágio da 9.a Sinfonia, ouvir...

in, História da Música Ocidental

3 comentários:

Justine disse...

Comovente!
(não conhecia a carta - obrigada por ma mostrares!)

heretico disse...

... e mesmo surdo escreveu ainda obras geniais.

(vontade move montanhas...)

jrd disse...

Não era ele que era surdo. Surdo está o mundo.

Um poste belíssimo.

Abraço