sábado, 16 de maio de 2009

O mundo estava no rosto amado























O mundo estava no rosto amado
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo além


Por que não o bebi quando o encontrei
No rosto amado, um mundo à mão ali
Aroma em minha boca, eu só seu rei?


Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi
mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei


De Rainer Maria Rilke, in Vida e Canções

"Rilke possui uma obra original, marcada pelo tratamento da forma e pelas imagens inesperadas. Celebra a união transcendental do mundo e do homem, numa espécie de “espaço cósmico interior”. Sua poesia provocava a reflexão existencialista e instigava os leitores a se defrontarem com questões próprias do desencantamento da primeira metade do século XX. Sua obra influenciou muitos autores e intelectuais em diversas partes do mundo."



Como a luz é intensa...


(aumente, p. f.)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Bom fim de semana...



Gosto de alguns "escritos na pedra" que saem diàriamente no P2.

Andava há tempo para escrever um e que me foi oferecido pelo meu filho , quando há dois anos, depois de um brutal acidente, fiquei hospitalizada, e ,a ser operada a um braço , Coisa com estória longa!

O António, com o seu sentido de humor, por me ver privada de um prazer, que é bem comer, levou-me o escrito do dia do P2.

"Não podemos pensar bem, amar bem, dormir bem, se não tivermos jantado ."

Virgínia Woolf

Hoje.

"As nossas paixões sempre se justificam, quer dizer, sugerem-nos opiniões que ajudam a justificá-las."

Nicolas de Malebranche, filósofo francês

quinta-feira, 14 de maio de 2009

"Como falamos a democracia"?




Como falamos a democracia?
Os nacionalistas africanos não ficaram à espera que um vocabulárioapropriado nascesse nas línguas maternas dos seus países.


Mia Couto *
Na bela cidade de Durban, falávamos eu e outros escritores africanos da surpresa do modo como, no Zimbabwe, tantos ainda apoiam RobertMugabe. Havia, no grupo, escritores de vários países de África.Aproveitámos o que melhor há nas conferências literárias: os intervalos. A nossa perplexidade não se limitava ao caso zimbabweano.Como é que povos inteiros, em outras nações, se acomodaram perantedirigentes corruptos e venais. De onde nasce tanta resignação?Uma das razões dessa aceitação reside na forma como as línguas serelacionam com conceitos políticos da modernidade. Por exemplo, umzimbabweano rural designa os seus líderes nacionais como entidadesdivinizadas, fora das contingências da História e longe da vontade dos súbditos. O mesmo se passa em quase todas as línguas bantus.A questão pode ser assim formulada: como pensar a democracia numa língua em que não existe a palavra «democracia»? Num idioma em que«Presidente» se diz «Deus»? Nas línguas do Sul de Moçambique, o termo para designar o chefe de Estado é «hossi». Essa mesma palavra designa também as entidades divinas na forma dos espíritos dos antepassados,traduzindo uma sociedade em que não há separação da esfera religiosa.Parece uma questão de ordem linguística. Não é. Trata-se do modo como se organizam as percepções e as representações que uma sociedadeconstrói sobre si mesma. A sacralização do poder não pode casar com r egimes em que se supõe que os líderes são escolhidos por livre votação. Numa sociedade em que os súbditos se convertem em cidadãos.Esse assunto escapa muitas vezes a quem se especializou em organizar seminários sobre cidadania e modernidade em África. A problemáticapolítica é vista, quase sempre, na sua dimensão institucional,exterior à intimidade dos cidadãos. Quando o participante do seminário explicar à sua comunidade o conteúdo dos debates usará a sua língua materna. E sempre que se referir ao Presidente ele fará uso do termo«deus». Como pedir uma atitude de mudança nestas circunstâncias?O que se pode fazer? Será que os falantes destas línguas estão condenados à imobilidade por causa desta inércia linguística? Na realidade, existem tensões entre a lógica interna de algumas destas línguas e a dinâmica social. Estas tensões não são novas e sempre foram resolvidas a favor da adaptação criativa e da criação de futuro.Já no passado, as culturas africanas (e todas as outras em todos os continentes) tiveram que se moldar e se reajustar perante aquilo que surgia como novidade. Eu mesmo testemunhei o modo veloz como aslínguas moçambicanas se municiaram de instrumentos novos, roubando e apropriando-se de termos não próprios.Com o uso generalizado esses termos acabaram indigenizando-se. Semdrama linguístico, sem apoio de academias nem de acordos ortográficosos falantes dessas línguas «pediram» de empréstimo palavras de outros idiomas. Moçambique é, nesse domínio, um caldeirão dessas mestiçagens.Os nacionalistas africanos não ficaram à espera que um vocabulário apropriado nascesse nas línguas maternas dos seus países. Elescomeçaram a luta e essa mesma dinâmica contaminou (mesmo com uso determos e discursos inteiros em português) as restantes línguas locais.Tudo isto nos traz a convicção do seguinte: a capacidade de questionar o presente necessita de língua portadora de futuro. A necessidade de sermos do nosso tempo e do nosso mundo exige línguas abertas ao cosmopolitismo. África – tantas vezes pensada como morando no passado– já está vivendo no futuro no que respeita à condição linguística:quase todos africanos são multilingues.Essa disponibilidade é uma marca de modernidade vital. O destino da nossa espécie é que cada pessoa seja a humanidade toda inteira


Crónica de Mia Couto, escritor moçambicano, publicada na edição deAbril da revista África 21

terça-feira, 12 de maio de 2009

Lembrar Guerra Junqueiro, um pequeno delírio ...





















O Padre Eterno está coberto de maselas,
E tu, (teu nome o atesta, ó bonzo), és uma delas.
Masella, escuta:

………….
Embaixador de quem? De Cristo? Não; do papa.
Quem é o papa?

Um Deus inventado à sucapa,
Um deus, para fazer o qual bastam apenas
Quatro coisas :- cardeais, papel, tinteiro e penas,
Deita-se numa saca uma lista qualquer,
Qualquer nome – Gregório. Ou Bórgia, ou Lacenaire,
Ou Papavoine – e pronto! Em dois minutos, fica
Manipulado um Deus autêntico, obra rica,
Tonsurado, sagrado,, infalível, divino…
Quer dizer, saiu Deus de uma bolsa do quino!
É um Deus por concurso, um deus feito por tretas,
E em cuja divindade ideal há favas pretas!
Apesar disso é Deus. Vai pousar-lhe no seio
O Espírito Santo, esse pombo correio
Da providência. É ele o redentor e o oráculo.
A humanidade vai adiante do seu báculo,
Soluçando, ululando, exausta, ensanguentada,
Pavoroso tropel de sombras pela estrada
Do destino fatal. O pensamento humano
É simplesmenete um cão sabujo e ultramontano,
Um cão vadio, um cão faminto, um cão impuro,
Que o papa recolheu de noite num monturo,
E a quem às vezes dá, com parcimónia bíblica,
A pitança dum Breve e o osso duma Encíclica.
Um papa é isto :- um juiz sem lei; omnipotente
Czar das consciências. Pode irremissivelmente
Chamuscá-las em fogo, ou torrá-las em brasas,
Ou fazer-lhes nascer das costas um par de asas.
O globo é para ele a bóia dum bilhar.
Domina os reis. O Trono é lacaio do Altar.
Seus templos são prisões e seus dogmas algemas.
Cingem-lhe a fronte augusta e nobre os três diademas,
E na potente mão, invencível harpéu,
Tem as chaves do inferno…e a gazúa do céu.

Excerto de Ao Núnc(io Massela, in A Velhice do Padre Eterno, de Guerra Junqueiro)
Pinturas: De Vélasquez, Papa Inocêncio IX, de 1650 e Poppe de F. Bacon, segundo Vélasquez, 1950

Lembranças...

A propósito da viagem papal a Israel ,transcrevo palavras suas, " O silêncio, porque não há palavras suficientemente fortes para deplorar a terrível tragédia da Shoah."

O silêncio continua a existir... porque os holocaustos continuam no nosso dia a dia!

Um destes dias também silenciei , numa rua de Paris, ao ler o que se passou nesta escola...
Tentei imaginar tudo e todos! E, hoje estou aqui a lembrá-los.

Esta noite... TV1

Um corte e costura com alguma parcimónia... e mais não digo!

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Para os amigos do FCP


Como não tinha foguetes para vos festejar ... eu , agnóstica
do futebol, envio-vos um foguetão!!!!
Já que não consegui reproduzir o painel que está à entrada do estádio do Maracanã , muito bonito, de Cláudio Tozzi , segue esta metáfora para vós , os contentes!
Viva O....
(não deixem de ouver o 2º video ou o 3ºº , Autumn leaves e Rainbow ,obrigatório...)

Canção com lágrimas e sol

Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangenteno
fundo da memória perturbada.


Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.


Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
com Lisboa tão longe ó meu irmão de Maio
que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.
[...]

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa viúva (com lágrimas com lágrimas).
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.


Manuel Alegre, A Praça da Canção (excerto de poema)

sábado, 9 de maio de 2009

Quem?

De Elisabete Da´ Silva, Cantiga de Amor

"Quem é tão firme que não possa ser seduzido?"

W. Shakespeare