terça-feira, 6 de novembro de 2012

Notícias do Jaime..."Como a crise do euro dilacera a Europa - e como a liga

 Beck, Ulrich (2012)A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise

(Berlim: Suhrkamp Verlag)

IBeck, Ulrich (2012)
A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise
(Berlim: Suhrkamp Verlag)

I. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga [12-25]

4. Política interna europeia: o conceito de política, cunhado com base no Estado nacional, é anacrónico [21-23]

     Há já vários anos, escrevi no meu livro Die Erfindung des Politischen (A Descoberta do Político) o seguinte:

«O modelo da época moderna ocidental [...] tem que ser novamente discutido e redesenhado. [...] [Não se trata só de] uma política que se limite a aplicar regras (regelausführende Politik) mas também de uma política que as mude (regelverändernde Politik), [...] não só de política de mero exercício de poder (Machtpolitik) mas também de uma política criativa (Gestaltungspolitik). Encontramo-nos perante um número cada vez maior de perguntas, em situações que não podem ser abrangidas pelas instituições, conceitos e concepções correntes, que igualmente se mostram incapazes de lhes darem as respostas adequadas.» (15)

     Ao falarmos, aqui, de velhas regras e de instituições, estamos a referir-nos, antes de mais, às regras e às instituições políticas no âmbito de cada Estado-nação. A actual crise do euro mostra-nos, com insuperável clareza, que elas já não se adequam aos problemas e às tarefas. Por isso as regras têm de ser modificadas. No antigo mundo dos Estados nacionais seria impensável que os contribuintes da Alemanha, da Finlândia ou dos Países Baixos assumissem a responsabilidade por riscos orçamentais de outros países da Zona Euro ou pelas dívidas de bancos espanhóis. Mas até mesmo as regras, de cujo cumprimento a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional fazem depender a concessão de novos créditos, na sua qualidade de instituições transnacionais, correm sempre atrás da crise que se vai agudizando de forma dramática. E também a ideia de que a Alemanha e outros países credores poderiam, através do pacto fiscal, controlar a política orçamental de outros países da Zona Euro está ainda presa, no fim de contas, à antiga perspectiva nacional. Igualmente aqui as regras deveriam ser, na verdade, modificadas de tal maneira que, no futuro, se torne possível uma política económica e financeira europeia comum. Se, porém, nos ativermos às regras antigas, como reivindicam aqueles que, junto do Tribunal Constitucional de Karlsruhe, processaram contra o “chapéu de chuva” de protecção permanente do euro MEE (Mecanismo Europeu de Estabilidade) e o [22] pacto orçamental – por ele atentar, segundo eles, contra a soberania orçamental do Bundestag (Parlamento Federal alemão), garantida constitucionalmente –, depressa se constata que as regulamentações e os procedimentos antigos são afinal demasiado pesados e morosos para poderem responder aos desafios actuais.
     Dizendo isto de outra maneira:  há um tempo para a pequena política que se contenta com a aplicação das regras, e há um tempo para a grande política da criatividade. A fim de se encontrar resposta adequada para a crise do euro – ou para os perigos da mudança climática e do capitalismo financeiro desregulamentado – carece-se da grande política. A ideia de que, na era dos riscos globalizados, seria possível agir segundo o lema «Nós vamos resolver isto sozinhos», acaba por se revelar uma ilusão fatal.
     Nestas condições, a simples distinção entre política interna e política externa deixa de se poder manter, de uma vez por todas. É precisamente na Europa da crise que observamos como as fronteiras se vão esbatendo, de maneira crescente. Muitos autores reivindicam, desde há anos, ou até mesmo décadas, uma «política interna europeia», uma política democraticamente legitimada, que se ocupe, empenhadamente, no interesse da UE, de áreas como a política social, educacional ou económica. Ora estamos a assistir, agora, a como está a surgir algo, em face da crise, a que se poderia chamar «política interna europeia», embora tenha pouco que ver com a reivindicação esboçada mais acima. Nos Estados-membros, a Europa está a tornar-se um tema de polítia interna: na Primavera de 2012, verificou-se isto aquando das eleições presidenciais, em França, e das eleições parlamentares, na Grécia; Alexis Tsipras, a nova estrela política grega, viajou, em Maio de 2012, até às capitais da UE, esteve em Berlim e em Paris, a fim de impressionar os eleitores, na Grécia, com as imagens da sua competência europeia. Na Alemanha, Angela Merkel encena-se como a chanceler de ferro, que não permite aos povos dos países meridionais continuarem com a sua falta de disciplina; as declarações de David Cameron, o “Premier” britânico, acerca de política europeia, têm como alvo despertar ressentimentos, por parte da população, e ser aplaudido pelos banqueiros, no mercado financeiro de Londres.    
     «Política interna europeia» significa, aqui, portanto que não há uma linha de orientação centrada no bem comum europeu, mas sim em eleições nacionais [23], nos meios de comunicação de massa e em interesses económicos.
     Até mesmo a política europeia do Presidente dos EUA Barack Obama, aliás, é, em grande parte, motivada pela política interna. Ao ser-lhe feita a pergunta por que motivo a crise do euro tinha importância para os EUA, respondeu Obama, em Maio de 2012: «A crise europeia também nos afecta porque a Europa é o nosso maior parceiro comercial. [...] Se, em Paris ou Madrid, diminuir a procura dos nossos produtos, isso poderia ter como consequência a redução das encomendas de fábricas em Pittsburgh ou Milwaukee.» (17) A crise do euro põe portanto em perigo empresas e bancos americanos e, deste modo, a reeleição de Obama. Lutando por um segundo mandato, o presidente está inquieto por causa da Europa. Merkel, porém, que, ela própria, em pensamento e acção também se guia pelo cálculo de poder da política interna, mostra-se (até agora) renitente. «Ela tem menos receio de um Barack Obama do que dos eleitores alemães», resume, lapidarmente, a revista Der Spiegel. (18)
     O caso inverso, ou seja, que o superior interesse europeu se sobreponha à política interna nacional é mais raro. Exemplo disso foi dado pelo ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, ao defender aumentos salariais na Alemanha, para apoiar o euro. Desempenhou, então, por assim dizer, as funções de ministro europeu de política de tarifas salariais: «Está certo que os salários, actualmente, subam mais, aqui, do que em todos os outros países da Zona Euro. O aumento salarial, no nosso País, contribui também para atenuar os desequilíbrios no seio da Europa.» (19)  


  [12-25]

4. Política interna europeia: o conceito de política, cunhado com base no Estado nacional, é anacrónico [21-23]

     Há já vários anos, escrevi no meu livro Die Erfindung des Politischen (A Descoberta do Político) o seguinte:

«O modelo da época moderna ocidental [...] tem que ser novamente discutido e redesenhado. [...] [Não se trata só de] uma política que se limite a aplicar regras (regelausführende Politik) mas também de uma política que as mude (regelverändernde Politik), [...] não só de política de mero exercício de poder (Machtpolitik) mas também de uma política criativa (Gestaltungspolitik). Encontramo-nos perante um número cada vez maior de perguntas, em situações que não podem ser abrangidas pelas instituições, conceitos e concepções correntes, que igualmente se mostram incapazes de lhes darem as respostas adequadas.» (15)

     Ao falarmos, aqui, de velhas regras e de instituições, estamos a referir-nos, antes de mais, às regras e às instituições políticas no âmbito de cada Estado-nação. A actual crise do euro mostra-nos, com insuperável clareza, que elas já não se adequam aos problemas e às tarefas. Por isso as regras têm de ser modificadas. No antigo mundo dos Estados nacionais seria impensável que os contribuintes da Alemanha, da Finlândia ou dos Países Baixos assumissem a responsabilidade por riscos orçamentais de outros países da Zona Euro ou pelas dívidas de bancos espanhóis. Mas até mesmo as regras, de cujo cumprimento a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional fazem depender a concessão de novos créditos, na sua qualidade de instituições transnacionais, correm sempre atrás da crise que se vai agudizando de forma dramática. E também a ideia de que a Alemanha e outros países credores poderiam, através do pacto fiscal, controlar a política orçamental de outros países da Zona Euro está ainda presa, no fim de contas, à antiga perspectiva nacional. Igualmente aqui as regras deveriam ser, na verdade, modificadas de tal maneira que, no futuro, se torne possível uma política económica e financeira europeia comum. Se, porém, nos ativermos às regras antigas, como reivindicam aqueles que, junto do Tribunal Constitucional de Karlsruhe, processaram contra o “chapéu de chuva” de protecção permanente do euro MEE (Mecanismo Europeu de Estabilidade) e o [22] pacto orçamental – por ele atentar, segundo eles, contra a soberania orçamental do Bundestag (Parlamento Federal alemão), garantida constitucionalmente –, depressa se constata que as regulamentações e os procedimentos antigos são afinal demasiado pesados e morosos para poderem responder aos desafios actuais.
     Dizendo isto de outra maneira:  há um tempo para a pequena política que se contenta com a aplicação das regras, e há um tempo para a grande política da criatividade. A fim de se encontrar resposta adequada para a crise do euro – ou para os perigos da mudança climática e do capitalismo financeiro desregulamentado – carece-se da grande política. A ideia de que, na era dos riscos globalizados, seria possível agir segundo o lema «Nós vamos resolver isto sozinhos», acaba por se revelar uma ilusão fatal.
     Nestas condições, a simples distinção entre política interna e política externa deixa de se poder manter, de uma vez por todas. É precisamente na Europa da crise que observamos como as fronteiras se vão esbatendo, de maneira crescente. Muitos autores reivindicam, desde há anos, ou até mesmo décadas, uma «política interna europeia», uma política democraticamente legitimada, que se ocupe, empenhadamente, no interesse da UE, de áreas como a política social, educacional ou económica. Ora estamos a assistir, agora, a como está a surgir algo, em face da crise, a que se poderia chamar «política interna europeia», embora tenha pouco que ver com a reivindicação esboçada mais acima. Nos Estados-membros, a Europa está a tornar-se um tema de polítia interna: na Primavera de 2012, verificou-se isto aquando das eleições presidenciais, em França, e das eleições parlamentares, na Grécia; Alexis Tsipras, a nova estrela política grega, viajou, em Maio de 2012, até às capitais da UE, esteve em Berlim e em Paris, a fim de impressionar os eleitores, na Grécia, com as imagens da sua competência europeia. Na Alemanha, Angela Merkel encena-se como a chanceler de ferro, que não permite aos povos dos países meridionais continuarem com a sua falta de disciplina; as declarações de David Cameron, o “Premier” britânico, acerca de política europeia, têm como alvo despertar ressentimentos, por parte da população, e ser aplaudido pelos banqueiros, no mercado financeiro de Londres.    
     «Política interna europeia» significa, aqui, portanto que não há uma linha de orientação centrada no bem comum europeu, mas sim em eleições nacionais [23], nos meios de comunicação de massa e em interesses económicos.
     Até mesmo a política europeia do Presidente dos EUA Barack Obama, aliás, é, em grande parte, motivada pela política interna. Ao ser-lhe feita a pergunta por que motivo a crise do euro tinha importância para os EUA, respondeu Obama, em Maio de 2012: «A crise europeia também nos afecta porque a Europa é o nosso maior parceiro comercial. [...] Se, em Paris ou Madrid, diminuir a procura dos nossos produtos, isso poderia ter como consequência a redução das encomendas de fábricas em Pittsburgh ou Milwaukee.» (17) A crise do euro põe portanto em perigo empresas e bancos americanos e, deste modo, a reeleição de Obama. Lutando por um segundo mandato, o presidente está inquieto por causa da Europa. Merkel, porém, que, ela própria, em pensamento e acção também se guia pelo cálculo de poder da política interna, mostra-se (até agora) renitente. «Ela tem menos receio de um Barack Obama do que dos eleitores alemães», resume, lapidarmente, a revista Der Spiegel. (18)
     O caso inverso, ou seja, que o superior interesse europeu se sobreponha à política interna nacional é mais raro. Exemplo disso foi dado pelo ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, ao defender aumentos salariais na Alemanha, para apoiar o euro. Desempenhou, então, por assim dizer, as funções de ministro europeu de política de tarifas salariais: «Está certo que os salários, actualmente, subam mais, aqui, do que em todos os outros países da Zona Euro. O aumento salarial, no nosso País, contribui também para atenuar os desequilíbrios no seio da Europa.» (19)  

Enviado pelo Prof. Universitário Jubilado, Jaime Ferreira da Silva, , Bochum, Alemanha
Pintura do expressionista alemão Die Brucke, 1911



Vale a pena gastar 5 minutos por aqui....


Leituras breves... e tocantes

Tantos somos o que navegamos neste barco da incerteza... que Luís Osório nos pôs hoje à  disposição no FB.

"Um copo de vinho na companhia de um bom filme ou livro. Estar sozinho, viver sozinho, implica encontrar territórios de partilha connosco próprios. Há noites em que a falta de mais é dolorosa, mas acompanhados recordamos as noites de nós para nós. Viver na plenitude é estar permanentemente em falta: dos outros ou de nós. E depois há os medos. De o coração nos trair quando ninguém nos pode acudir, essas coisas. Pelo sim, pelo não nunca me dispo antes de ir para a cama, não se vá dar o caso de ser chamado "

Pintura de Edward Hopper, "Autmn" 

Toots Thielemans - Pausa para esta melodia de sonho...


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Leitura breves...

                                                   Pintura de António Viana, anos 80

" Depois de termos subido uma grande montanha, só descobrimos que existem ainda mais grandes montanhas para subir."

Nelson Mandela

sábado, 3 de novembro de 2012

Notícias do Jaime.. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga.


De novo as notícias do Jaime e a continuação da sua tradução do livro de Ulrich Beck ,A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise, das paginas 18 a 20.
Deixo aqui o link do post anterior.
Partilhemos pois a forma lúcida de Beck ver a Europa "sob o signo da crise"...



I. Como a crise do euro dilacera a Europa – e como a liga [12-25]

3. A cegueira da Economia [18-20]

     Em face da impossibilidade de se saber, ao certo, e da dificuldade de destrinçar as coisas que as modernas sociedades de risco produzem, por assim dizer, automaticamente – e para nos oferecerem orientação, nesta selva gnoseológica, estão disponíveis, hoje, multidões de especialistas, ou expertos, como agora se diz. E é verdade que os economistas, ao  pronunciarem-se sobre a crise, contribuem para tornar o mundo mais compreensível. No entanto os que «entendem o capital» (12) estão a reduzir, agora, de uma maneira estranha, a complexidade dos mercados financeiros globais: personalizam e emocionalizam o que acontece nos mercados, introduzindo conceitos sobre o estado de saúde – tirados de manuais de diagnósticos terapêuticos – na linguagem da bolsa, cunhada segundo parâmetros racionais. É por isso que lemos expressões como: nos mercados «os nervos estão à flor da pele», não se deixam «enganar», são «tímidos», estão «nervosos» e têm propensão para «reacções de pânico».
     Também se poderia dizer: a perspectiva económica, em termos sociais e políticos, é cega e causa a cegueira, os conselhos das Ciências Económicas, que dominam a discussão, assentam num «analfabetismo» político-social (Wolfgang Münchau). (13) Esta cegueira deriva, possivelmente, do facto de os economistas contemplarem o mundo sempre através de uns modelos quaisquer – e, se os modelos não se ajustarem à realidade, surge um problema. Wolfgang Münchau, no Financial Times, pôs o dedo na ferida:

«Os macro-economistas, em geral, não dispõem de um modelo adequado para a União Monetária Europeia. Confundem-na com um chamado «loose fixed-exchange-rate system» [ou seja, uma união monetária em que as cotações estão fixadas de acordo com determinados [19] parâmetros directores; UB], ou com um país com uma moeda única, portanto com sistemas para os quais dispõem de modelos. A uma união monetária, porém, não se podem aplicar estes modelos, por ela não ser nem um Estado, nem um acordo flexível combinado entre Estados, no qual os Estados-membro continuem a exercer a sua plena soberania. [...] É certo que continua a haver [nos respectivos acordos; UB] algum espaço de manobra para a adesão de Estados que, como a Dinamarca ou a Grã-Bretanha, decidiram não entrar já para o euro. Não há, porém, o mínimo espaço de manobra para a saída de um ou de mais países.» (14)

     É, precisamente, com base neste último ponto que se pode mostrar, com muita clareza, como os especialistas de Ciências Económicas estão a induzir em erro, com as suas propostas, tanto a área pública como a política. Muitos manifestam-se como se a saída da Grécia do euro fosse a solução. Depois – como está implícito, ou explícito, nesta mensagem – os Alemães deixariam de ter de «se sacrificar», em termos financeiros, por causa dos Gregos. Estas asserções, porém, têm pernas curtas e estão até mesmo erradas, pelo menos por quatro motivos:
     Primeiro: A saída de um Estado-membro do euro não está regulamentada. Poderia, quando muito, ocorrer apenas a pedido do país em causa. Os Gregos, porém, na sua maioria, querem continuar a fazer parte da união monetária.
     Segundo: Um retorno dos Gregos ao dracma provocaria um corte da dívida que iria afectar bancos e empresas, em todo o mundo – antes de mais as instituições financeiras alemãs, francesas e americanas que, anteriormente, tinham investido nas dívidas estatais gregas que eram, nessa altura, um negócio «favorável». Isto quer então dizer, na verdade, que uma saída dos Gregos da Zona Euro poderia desencadear, de novo, o perigo duma crise como a que foi provocada pela bancarrota do Banco Lehman Brothers.   
     Terceiro: Mesmo que os Gregos, no caso de saírem do euro, não viessem a receber quaisquer transferências do “chapéu de chuva” de protecção europeu, continuariam a ter direito, como país da União Europeia em dificuldades, a receber ajuda (o que, de resto, é o motivo por que os Britânicos são, de forma tão veemente, a favor de “eurobonds” [20] e da permanência da Grécia na Zona Euro – já que, de outro modo, também teriam de contribuir para essa ajuda). Como ninguém pode estar interessado em que a Grécia se afunde no caos e na anarquia – ou até que se torne, de novo, uma ditadura militar – os restantes membros da UE seriam obrigados a apoiar o Estado grego com somas que, ainda hoje, são inimagináveis e estão também por contabilizar. Os custos sociais que o retrocesso para o nacionalismo, talvez até mesmo também para a xenofobia, a violência e a ditadura iriam causar aos próprios Gregos, mas igualmente aos restantes Europeus e à comunidade mundial – é assunto que a perspectiva meramente economicista não pode, nem quer tomar em consideração. Por este motivo também ninguém está, realmente, em condições de poder «calcular» o que nos iria sair mais caro: se a permanência ou a saída da Grécia do euro.
     Quarto: Portanto faria muito mais sentido discutir se os Gregos não deveriam sair não só do euro mas também da UE. Um tal passo, porém, iria ter, antes de mais, consequências fatais para a própria Grécia, por ir ficar arredada do acesso a recursos de sobrevivência vitais (por exemplo, os fundos de fomento agrário da UE). Um tal passo, porém, teria igualmente consequências graves para os restantes Estados da UE, se tomarmos em conta que a Grécia (a par de países como a Espanha, a Itália, Portugal, etc.) protege a fronteira externa da União.
     O que uma saída do euro por parte da Grécia, ou de outros Estados endividados, iria, realmente, custar, não se torna portanto visível a partir dos modelos abstractos dos economistas: quem tiver feito poupanças perde grande parte do seu património, o Estado corre o risco de ficar arruinado, as camadas médias da sociedade de ficarem empobrecidas, os pobres ficam ameaçados pela exclusão social – e todos os Europeus ficam com um problema caro e de longa duração, em termos económicos, sociais e políticos. 

Tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor universitário jubilado, Bochum
Fotografia de Ulrich Beck



   


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Entre o aqui e o agora...



















Pintura de Edward Hopper, Square Rock, 1914, exposto na Gulbenkian, exposição AS IDADES DO MAR


Hoje, um amigo meu , disse-me que segundo  Marx, a vergonha é um sentimento revolucionário...
Não sei se me envergonhe ou fique triste...

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lisboa recriada antes do terramoto .Super interessante...







Lisboa, Terreiro do Paço, 1640, segundo o pintor holandês, Dirk Stoop

Recriação do Terreiro do Paço antes do Terramoto se 1 de Novembro de 1755.
Muito interessante. VER AQUI

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Notícias do Jaime (continuação) A Europa alemã. Novas paisagens de poder sob o signo da crise (Berlim: Suhrkamp Verlag)

Aqui vos deixo o link das 2 páginas anteriores , (13-14)
2. Os sucessos da União Europeia [15-18]
     55 anos após a assinatura dos Tratados de Roma, com os quais foi instituída a Comunidade Económica Europeia, a sua sucessora tenta, desesperadamente, provar a si própria e ao mundo que é capaz de passar no teste mais difícil da sua história. Ainda que, neste lugar, não se deva esquecer que muitos dos problemas não são por culpa da UE, mas sim uma consequência da crise financeira dos anos 2008 e seguintes – no decurso da qual gestores de bancos se converteram, de um dia para o outro, em fiéis do Estado, e os Governos abriram gigantescos guarda-chuvas de protecção –, a actual situação faz-nos afinal tomar consciência do erro central que está ligado ao nascimento do euro: num espaço económico de dimensão continental e com uma população de tamanho equivalente, surgiu um mercado comum [16] com moeda, em parte, comum. Mas ficou por dar o passo decisivo no sentido de uma verdadeira união económico-política – razão pela qual não foi possível coordenar, eficazmente, as economias dos Estados da Zona Euro. A concepção de um «nacionalismo recíproco», segundo a qual cada Estado tem o dever de controlar e resolver, ele próprio, os seus problemas financeiros, evitando consequências negativas para aos outros, poderá ser suficiente, em tempo de acalmia, mas em tempo de crise terá que falhar. Ao mesmo tempo, os acontecimentos do Verão de 2012 revelam, com toda a clareza, como todas as coisas estão relacionadas umas com as outras: se um Estado entrar em bancarrota, arrasta outros consigo.
     No meio desta agitação esquece-se, muitas vezes, que a UE, apesar de imperfeita, pode orgulhar-se de grandiosas conquistas: a União Europeia conseguiu o milagre de transformar inimigos figadais em vizinhos; os seus cidadãos gozam de liberdade política e de um nível de vida com o qual só podem sonhar outras populações de outras partes do mundo; a adesão à UE permitiu às anteriores ditaduras da Grécia, Portugal e Espanha converterem-se em democracias estáveis; com 27 Estados (depois da entrada da Croácia, prevista para o 1° de Julho de 2013, serão até 28) e mais de 500 milhões de habitantes, a UE é o maior mercado e bloco comercial do mundo; é possível que o modelo social e económico – a domesticação do capitalismo por parte do Estado-previdência – esteja a atravessar dificuldades, mas dispõe ainda de importantes trunfos e reservas de impulsos para reagir à crise financeira; seres humanos da África subsaariana ou do mundo árabe estão a pôr-se a caminho dos confins do continente da promissão, dispondo-se a correr enormes riscos; o desejo da Sérvia (e de outros Estados da antiga Jugoslávia) de aderir à União prova igualmente a duradoura atractividade da Europa organizada como lugar de liberdade e abastança. E agora tudo isto corre perigo de ficar em ruínas.
     O sucesso da União Europeia é, paradoxalmente e ao mesmo tempo, um motivo para a sua falta de auto-estima. Muitas das suas conquistas parecem tão evidentes às pessoas que, provavelmente, só se aperceberiam delas se, [17] um dia, deixassem de existir. Imaginemos que o controle do passaporte, nas fronteiras e nos aeroportos, voltaria a ser introduzido; que não haveria, em toda a parte, regulamentos fiáveis sobre produtos alimentares, nem liberdade de opinião e de imprensa (que a Hungria, hoje, está a desrespeitar, razão por que este país se sujeita a ser olhado com severidade); que não seria possível, sem ter de superar grandes obstáculos burocráticos, os estudantes trabalharem, nas férias, em Barcelona ou Avignon; que iria ser preciso, em viagens para Paris, Madrid ou Roma cambiar dinheiro, outra vez, e tomar nota dos câmbios. A «Europa pátria» tornou-se a nossa segunda natureza e precisamente isso poderia ser o motivo por que, tão levianamente, a damos por perdida.
     Seja como for, encontramo-nos, efectivamente, num momento histórico difícil, em que deveríamos voltar a ter diante dos olhos a pertinente definição do conceito de crise, elaborada por Antonio Gramsci. A crise, diz Gramsci, é o momento em que a antiga ordem mundial chega ao fim, e em que tem que ser conquistado, superando resistências e contradições, um mundo novo. Mas é precisamente esta fase de transição que é caracterizada por muitos erros e confusões. (10) E, hoje, é justamente a isto que estamos a assistir: uma cisão, um interregno, a simultaneidade de um descalabro e de um novo começo – cujo desfecho está em aberto. (11) Perplexidade, medo, impossibilidade de saber, frustração, desassossego, mas também o desejo ardente de mudança – tudo isto é típico de situações como estas, em que pode ser difícil destrinçar as coisas, nas quais as expectativas das pessoas já não se encaixam nos arranjos institucionais em que deveriam consumar-se. Todos estes sintomas, porém, podem ser já indícios da mudança iminente, como revelam os exemplos históricos da Reforma, da Revolução Francesa ou da implosão do Bloco de Leste. O descontentamento é sempre também o resultado de se estar atentando contra determinados direitos que foram sendo historicamente adquiridos. Nós, Europeus, vivemos em sociedades que declararam a liberdade e a igualdade como princípios fundamentais. Como sociólogo que tem vindo a observar estes fenómenos, não estou por isso nada surpreendido por as pessoas, na Grécia e em Espanha, se revoltarem contra um sistema que provoca desigualdades e injustiças de tão gritantes dimensões e que, escandalosamente, atira os custos, causados por um sistema financeiro descontrolado, para os ombros dos grupos mais frágeis. Uma (18) tal discrepância entre as expectativas e a realidade é sempre um motor de mobilização social. E, de facto, nos últimos meses e anos, temos vindo a ser testemunhas de como as pessoas, em Nova Iorque, Londres, Madrid ou Atenas, vão para a rua – um assunto a que irei voltar, outra vez, no fim deste trabalho.               
     
[Quarta, 31 de Outubro de 2012]
Tradução de Jaime Ferreira da Silva, professor universitário jubilado, Bochum, Alemanha

Manuel de Falla - nocturno


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Aconteceu...

Duas ou três coisas...
Domingo, recebi a visita de um amigo que me veio oferecer uns frutos secos da época da sua propriedade. Gentil. Entre dois dedos de conversa, que poderiam ter sido três... , falou-me da sua viagem à USA e do seu horror à  forma como foi tratado no aeroporto e da destruição quase maciça da sua bagagem.
Nada que não soubéssemos.
Entretanto , ontem passei pela Gulbenkian, com a intenção de ainda participar um pouco no encontro qe tem como tema   PORTUGAL E O HOLOCAUSTO, APRENDER COM O PASSADO, ENSINAR PARA O FUTURO. (aqui)
Bem , quando cheguei, fiquei em estado de choque  com o aspeto e a real segurança ao vasculharem as malas e da passagem pelo detetor para ter acesso ao Auditório 2.
Fiquei sem saber se ía assistir a  um concerto dedicado ao Holocausto, inauguração de uma belíssima exposição cronológica da história de Portugal e da Alemanha , desde 1926 até 1945 e ainda de um filme com testemunhos de judeus refugiados em Portugal , com histórias de vida e de guerra ou se ía embarcar para  Nova York para assistir à tempestade Sandy.
Ora tendo o encontro sido organizado pela embaixada americana e pela fundação dirigida pela Lurdinhas de má memória... não espanta tão triste ostentação de segurança num país que ainda considero de  acalmia no que concerne ao terrorismo...
Entre nós, terrorismo, só o que este governo implementa, para nos matar lentamente a uns e a outros fulminar.

As imagens do João Viana.... Silhuetas..
















Domingo, pela praia da Figueira da Foz, o João repete os seus passeios pela praia e pelo molhe norte à procura dos melhores momentos para um clik.
Sem exagero, na Figueira,  vislumbram-se os mais belos pôr de sol que me são dados a ver....
Acontece no outono.