sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

"quando Augusto se torna ele próprio, a vida começa - e não só para Augusto: para toda a humanidade"

Seremos nós próprios, unicamente nós próprios, é algo de extraordinário. 
Mas como chegar a isso, como alcançá-lo? Ah!, eis o truque mais difícil de todos. Difícil, precisamente, porque não envolve qualquer esforço. (...)
E eis que de repente lhe surgiu a ideia - tão simples! - que ser um Zé-ninguém ou ser Alguém ou ser mesmo toda a gente não o impedia de ser ele próprio. Se era realmente um Palhaço, então sê-lo-à sempre e sempre, desde a hora madrugadora do levantar até ao momento nocturno de fechar os olhos.


Excerto do livro O SORRISO AOS PÉS DA ESCADA, DE Henry Miller
Ilustrações de Frederico Rocha
Fotografia de Marcel Marceau

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O sofrimento que atravessa dolorosamente os nossos dias...

Hoje o tema da Antena 1 tem sido dedicado `a ansiedade e depressão entre crianças e jovens...
Pela manhã. os testemunhos  de pessoas ligadas à Sociedade de Saúde Mental impressionaram-me. Eu que vivi profissionalmente  30 anos entre crianças, tive vivências dolorosas, mas felizmente em quantidade limitada. Problemas em família e sociedade, sempre os houve. 
Hoje , veio-me mais uma vez á memória,  a lembrança do pedopsiquiatra  Professor Doutor João dos Santos e da sua Casa da Praia, que em 2013, completaria 100 anos e cuja exposição visitei na Biblioteca Nacional. 
Para mim, as suas conversas nos anos 80 na Antena 1 com João Sousa Monteiro e o suplemento do JL, Jornal da Educação , eram homilias semanais e quinzenais. 
Também, duas semanas seguidas, o P2, publicou dois interessantes textos saídos na revista Time, de alguém que odeia sofrer de "ansiedade" e da afetação da mesma  em casos agudos e hereditários que tal doença provoca.. Espantei. 
Vou deixar o último artigo AQUI convosco e também a lembrança de João dos Santos, AQUI.

(o Jornal Público não me deu acesso ao link... Pena)...

Pintura de Sarah Affonso, "As Meninas"

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Leituras breves... e o fim de semana possível

Teresinha Rosa já passava dos sessenta quando a vida lhe armou um campo de batalha e ela tomou o gosto ao pelejar.   Atravessara até então os tempos - primaveras rosadas, invernias, sufocações de verão, tremores de outono - em perfeita harmonia com as coisas, como um madeiro a passear-se na corrente, abandonado às águas, prazenteiro, divertindo-de até com algumas topadas em bicos de rochedo. Era uma dessas raras culturas capazes de encontrar num ninho ou num rebento motivo para horas, dias, meses de uma incompreensível alegria. E mesmo nos desgostos carregava um tal deslumbramento no olhar; uma tal inocência e um tal espanto surgiam por detrás do véu das lágrimas que todos comentavam com inveja - alguns em confusão de escândalo e piedade - o quão eram felizes os pobres de espírito, coincidentes, por subtis desígnios, com os pobres do corpo, as mais das vezes....
Nunca foi bela. Mas trazia em si um excesso de vida, um dom animador que entrava pelas veias e a fazia necessária como um vinho, um discreto vapor euforizante.   As visitas da casa ansiavam, mudamente, por que fosse Teresinha a abrir-lhes a porta e a reconduzi-la à saída.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Chove e a noite caiu sobre mim...

            "Umbrella", de Marc Chagall

As coisas mais simples, ouço-as no intervalo
do vento, quando um simples bater de chuva nos vidros rompe o silêncio da noite, e o seu ritmo
se sobrepõe ao das palavras.

Nuno Júdice, Poema

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Para os tempos que correm....


Fevereiro proverbial .... O povo era quem mais ordenava...

Água de Fevereiro, mata o Onzeneiro.
Ao Fevereiro e ao rapaz, perdoa tudo quanto faz.
Aproveite Fevereiro quem folgou em Janeiro.
Em Fevereiro, chega-te ao lameiro.
Em Fevereiro, chuva; em Agosto, uva.
Fevereiro é dia, e logo é Santa Luzia.
Fevereiro enxuto, rói mais pão do que quantos ratos há no mundo.
Fevereiro quente, traz o diabo no ventre.
Fevereiro recouveiro, afaz a perdiz ao poleiro.
Janeiro geoso e Fevereiro chuvoso fazem o ano formoso
.

DESENHO DE JOSÉ PENICHEIRO, 1968

Leituras breves e actuais

"Não são ladrões apenas os que cortam as bolsas.
Os ladrões que mais merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e as legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais, pela manha ou pela força, roubam e despojam os povos.
Os outros ladrões roubam um homem, estes roubam cidades e reinos; os outros furtam correndo risco, estes furtam sem temor nem perigo.
Os outros, se furtam, são enforcados; mas estes furtam e enforcam."

Padre António Vieira

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Fim de semana a caminho.... Boa viagem

"Toco a tua boca, com um dedo toco o contorno do tua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a tua boca se entreabrisse e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha não escolheu e te desenha no rosto, uma boca eleita entre todas, com soberana liberdade eleita por mim para desenhá-la com minha mão em teu rosto e que por um acaso, que não procuro compreender, coincide exatamente com a tua boca que sorri debaixo daquela que a minha mão te desenha.

Me olhas, de perto me olhas, cada vez mais de perto e, então, brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam entre si, sobrepõem-se e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas onde um ar pesado vai e vem com um perfu
C
me antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se nos teus cabelos, acariciar lentamente a profundidade do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de frangância obscura. E, se nos mordemos, a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta, e eu te sinto tremular contra mim, como um lua na água."

Julio Cortázar

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Utopias... O pássaro azul nunca virá. Coisas de poeta

O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível

Ruy Belo, O Portugal Futuro
Colagem de Fernando Azevedo, A cigarreira breve, 1986