quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020
O escritor norte-americano, Paul Auster, tem como protagonista do seu livro “Homem na escuridão”, August Brill, um crítico literário de 72 anos, que sofre de insónias.
“Sozinho na escuridão, revolvo o mundo na minha cabeça enquanto me debato com mais uma insónia, com mais uma noite em branco na imensidão da natureza selvagem da América (…) A noite ainda é uma criança e, enquanto para aqui estou deitado na cama, perscrutando a escuridão, uma escuridão tão negra que nem consigo ver o tecto, ponho-me a recordar a história que comecei a noite passada. É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer. No entanto, a concentração pode ser um problema e, a maior parte das vezes, a minha mente afasta-se da história que estou a tentar contar e regressa às coisas em que não quero pensar. Não há nada a fazer. Falho vezes sem conta, os fracassos são mais frequentes do que os êxitos, mas isso não quer dizer que eu não me esforce, e muito, para contrariar essa tendência”
in Homem na Escuridão, Paul Auster, Lisboa, 2008
Lido na revista online Isleep
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Uma boa razão para se ir até ao Museu do Chiado ...
Estudo para o óleo “Concerto de Amadores”, 1882, de Columbano Bordalo Pinheiro
O Museu do Chiado apresenta a sua coleção de desenho numa visita à arte portuguesa do século
In Expresso de dia 15/02/2020
domingo, 16 de fevereiro de 2020
Leituras breves, mas profundas... ( I )
Pego no livro há tempo fora do meu alcance visual , PORTUGAL A TERRA E O HOMEM, antologia de textos de escritos do séc. XX, por David Mourão Ferreira, II volume de uma edição da Fundação Calouste Gulbenkian.
Uma noite de insónia como tantas outras em que a mando médico, não devo ficar na cama . Não tenho tendência para me fixar em leituras longas, saltito de livro em livro ou revista em espera, tentando fugir á luz do computador pelas razões óbvias. Tenho 19 escritores para escolha . Aleatoriamente abro a pagina aonde está um texto de Afonso Lopes Vieira, que nasceu em Leiria em 1878-1946 , formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra .
Ora sendo de Leiria, Vieira escreveu sobre a região, sua cidade e localidades adjacentes.
Sendo eu de perto, tocou-me saber algo mais sobre o que escreveu , do que vivenciou no fim e princípio dos séculos XIX e XX . Há ideias que perduram no tempo sobre as pessoas de uma localidade . Penso que quando somos de "uma terra" ou romantizamos o local ou somos desanuviados de mente e clarividentes no olhar sobre as gentes.
Vou deixar-vos alguns excertos de uma bela prosa romântica e a sua ideia de Pátria que foi buscar a Camões .
...
NAQUELE soneto de épica piedade que Luís de Camões põe na boca espectral de um soldado português morto na costa da Abissínia e aí lançado ao mar, lêmos esta bela e tão comovedora confissão:
Criou-me Portugal na verde e cara
Pátria minha Alenquer . . .
À hora da morte, tão longe de Portugal, aquêle soldado resumiu a sua grande Pátria no cantinho dela mais querido do seu coração: as saudades do desterrado, a sua última evocação foram para Alenquer, onde Portugal o criara.
Todos os homens honrados do nosso triste planeta possuem, como o soldado de Camões, a sua Pátria resumida, que é também a face mais carinhosa e mais querida da Pátria histórica. Até nas grandes cidades há os bairros dilectos e as freguesias natais. É do amor das pequenas pátrias que se enraíza e fortifica o amor das grandes (. . .)
. . .
Vieira é da Estremadura e eu da Beira Litoral , de Leiria à Figueira da Foz distam 30 Km.
Nesta sequência de belas "crónicas" que Mourão - Ferreira compilou, penso deixar por aqui excertos de diferentes autores e uma ou outra história por mim vivenciada em épocas tão diferentes.
Com Vieira hei-de ir a S. Pedro de Moel e Marinha Grande . . .
Neste link que aqui vos deixo podereis ler algumas poesias de Afonso Lopes Vieira.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
Estilo
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Uma vez fui ao médico.
- Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.
- Tem loucos na família? - perguntou o médico.
-Alcoólicos, sifilíticos ?
- Sim , senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, siflíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
- Não preciso de remédios - disse eu. - Sei historias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?
- A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: Conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
O mundo é assim, o que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo se não quer dar em pantanas.
Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um pouco de música. - João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês nº5 ? Conhece com certeza essa coisa tão simples , tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas. Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach. Consegui um estilo.
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Excerto da prosa ESTILO. de Herberto Hélder , OS PASSOS EM VOLTA
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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020
Este curto e brilhante ensaio de George Steiner, recém lançado pela Âyiné, divide-se em três partes: Aqueles que queimam livros, O povo do livro e Os dissidentes do livro.
Steiner é um mestre absoluto. Erudito e metódico, ele é autor de um impressionante número de clássicos para os estudiosos de humanidades — entre os quais Nenhuma Paixão Desperdiçada, Lições dos Mestres e este livro que ora comento.
Steiner não é um otimista, mas dá alguns remédios: os livros seriam um meio seguro para nos tornamos melhores. Pode parecer algo já muitas vezes dito, mas o que vale é a argumentação certeira de Steiner. Li o livro fazendo inúmeras anotações, não dá para abrir meu exemplar sem que se vejam frases ou parágrafos sublinhados. Tudo parece fundamental, necessário, perfeito.
A primeira parte trata do encontro, da relação entre leitor e livro. Esta é imprevisível, vulnerável à mudanças de espírito ou de idade, muito semelhante às afinidades mediadas por Eros.
O encontro com o livro, assim como aquele encontro com o homem ou a mulher destinada a mudar nossas vidas, pode ser completamente casual. O texto que vai nos converter a uma fé, que vai nos fazer aderir a uma ideologia, que dá a nossa existência um fim ou um critério, pode estar a nos esperar na estante de livros de ocasião, de usados, com desconto. Talvez empoeirado e esquecido, ao lado do livro que procurávamos. (…) Um texto é sempre capaz de ressuscitar. Walter Benjamin ensinava, Borges construiu sua mitologia: um livro jamais é impaciente. Ele pode esperar séculos para despertar um eco vivificante.
A segunda parte trata dos judeus e de seu amor pelos livros. Trata do fato de um religioso judeu ter de ler e estudar a Torá, de ser um povo que tem um lápis na mão ao ler um livro. Também fala na resistência da igreja católica à invenção da imprensa. A invenção de Gutenberg serviu muito mais aos protestantes, pois os católicos desejavam seguir com a informação oral, pelos padres.
A terceira parte fala sobre a tirania do celular, o livro digitalizado e sobre as condições políticas e culturais que favorecem ou não o livro. Fala-se da postura dos escritores e filósofos nazistas — habitantes de um país altamente culto e produtivo mesmo durante Hitler –, de Wagner, da variedade demencial de lançamentos de livros — 121 mil novos títulos são lançados no Reino Unido a cada ano — e de sua efemeridade, pois se não vendem vão para o balcão de ofertas em 20 dias. Fala-se também na relação entre censura — a grande propulsora de metáforas, segundo Borges — e criatividade.
Sem dúvida, um livro de um mestre, um clássico moderno.
Escrito em 2018
Retirado DAQUI
sábado, 1 de fevereiro de 2020
quarta-feira, 29 de janeiro de 2020
"Senti-me Júlio Exílio quando me chamaram para a RTP Memória ". Memórias
Ora, ora ... Não pertenço ao mundo das pessoas que dizem não ver televisão. Com parcimónia e selectividade, à noite é infalível. Cinema, Netflix, HBO , notícias na RTP2, programas gravados na 2, que fica para os almoços tardios. Afinal, para quem vive só, a imagem, o baixo som (quando estou de auditivo esquerdo ...), uma boa conversa resolve problemas de solitude ou desacompanhamento .
Amo tanto o silêncio como a música e na cozinha, o meu rádio Tivoli, está formatado para programas obrigatórios. Sou uma alegre aposentada que encontrou neste modo de vida la joie de vivre que sempre me acompanhou.
E toda esta conversa vem a propósito do zapping feito à hora do jantar .
Reparei que ontem na RTP 1 passou em directo uma homenagem feita a Júlio Isidro pelos seus 60 anos como profissional da rádio e televisão.
Enquanto escrevo, com alguma emotividade, continuo a ver e verei atá ao fim o programa. É uma viagem no tempo, o meu tempo, o tempo que não tinha televisão e ía ao domingo à tarde, quando possível, ver os passatempos infantis, entremeados com Vitorino Nemésio e João Villaret, que em criança me enfastiavam. Mais tarde, amei.
Teatro às segundas feiras no salão dos Bombeiros Voluntários. Televisão só entrou em minha casa quando tinha 19 anos.
É um desfile ao mundo da canção, da representação, da dicção, viagens a Hollywood nas suas multiplas entrevistas a artistas laureados. Tudo no mundo do espectáculo e da cultura , pessoas esquecidas, outras nem tanto, passaram pelos seus programas . Os velhos spots publicitários onde Júlio tinha imensa piada.
Dá-me prazer ver quem eu pensava "out", ver a beleza e a magreza de homens e mulheres que só mais tardiamente conheci, e ver que continuam belos, uns, gordinhos encantadores, outros , mas todos belos nas suas roupagens e nas suas idades.
Enfim, não era um programa para ver sozinha, mas com alguém do meu tempo com a mesma joie de vivre, para umas emoções, risadas e cantaroladas .
Deixo aqui um vídeo de um artista que apareceu neste desfile, que me fez correr muito para a noite lisboeta, acordeonista e sapateado. Terá quase 80 anos ou mais.... Michele.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2020
A poesia é a vida...
“A poesia é a vida? Pois claro!
Conforme a vida que se tem o verso vem
— e se a vida é vidinha, já não há poesia
que resista. O mais é literatura,
libertinura, pegas no paleio;
o mais é isto: o tolo dum poeta
a beber dia a dia a bica preta,
convencido de si, do seu recheio…
A poesia é a vida? Pois claro!
Embora custe caro, muito caro
e a morte se meta de permeio.”
(Alexandre O’Neill, in Feira Cabisbaixa, 1965)
Fotografia de Fernando Lemos, acervo da Gulbenkian
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