sexta-feira, 20 de março de 2020

Momento de reflexão, num texto longo mas absorvente



   Lido no Expresso Diário de hoje e a sair na edição de amanhã . 
 Li-o sentidamente, como tudo o que leio do Cardeal Tolentino de Mendonça, e achei por bem reparti-lo por quem passa. Não consegui furtar-me ao anúncio ... Coisas do "copy/paste".
   Oitavo dia de auto isolamento agora obrigatório.


B
ruscamente, sem pré-avisos, a nossa vida foi sorvida para o interior de uma daquelas imagens inquietantes de Giovanni Battista Piranesi, cujo terceiro centenário de nascimento, por coincidência, este 2020 assinala. Poucas vezes se descreveu a angústia, o efeito do caos, as intransigentes paredes de vidro do isolamento com a precisão que o artista alcançou nas suas alegorias sombrias, onde os seres humanos parecem pontos ainda mais minúsculos e torturados, ilhas ainda mais desprotegidas, num mundo contaminado e distorcido até ao absurdo.
Confinados a um isolamento compreendemos talvez melhor o que significa ser — e ser de forma radical — uma comunidade. A nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas: todos estamos nas mãos uns dos outros
A fantasmagórica visão de uma ponte levadiça que se recolhe, numa das gravuras mais famosas de Piranesi — determinando com isso uma incomunicabilidade forçada — dá-nos como que o símbolo para representar, quase à pele, uma realidade que se transmuta, do dia para a noite, em forma distópica. Pois o desconcertado sentimento geral que hoje predomina é esse: o de que entramos, à maneira de Jonas no ventre da baleia, nas entranhas imprevisíveis e confusas de uma distopia.
DENTRO DE UM MUNDO DESCONHECIDO
E, temos de reconhecer, esta situação apanha as nossas sociedades impreparadas. E não falo já do ponto de vista dos recursos sanitários para fazer face a um desafio tal. Falo do ponto de vista da nossa experiência e daquilo que a nossa memória pode extrair em nosso socorro. Falo da nossa visão do mundo e da existência. Do que julgamos distante e longínquo e do que está efetivamente perto. Do que temos por estritamente individual e do que é coletivo. Do que consideramos que nos protege e do que nos expõe. Do que temos (ou tínhamos) por adquirido ou como completamente improvável.


<span class="arranque"> <span style="color:#d0b667">Histórias</span></span> Que saibamos considerar devidamente todas as histórias de amor que estão a ser escritas, a começar por esta inteira multidão de profissionais e de voluntários que aproximam da nossa experiência hodierna a inesquecível parábola do bom samaritano. Imagem de “O Bom Samaritano”, de Eugene Delacroix (1849) <span class="creditofoto">D.R.</span>
Histórias Que saibamos considerar devidamente todas as histórias de amor que estão a ser escritas, a começar por esta inteira multidão de profissionais e de voluntários que aproximam da nossa experiência hodierna a inesquecível parábola do bom samaritano. Imagem de “O Bom Samaritano”, de Eugene Delacroix (1849)
D.R.

Da consciência da nossa real força e da nossa exata vulnerabilidade. Da dimensão do medo que podemos experimentar e dos trabalhos necessários para trazer, à alma, o nosso quinhão de paz. Não, não é fácil, repentinamente, constatar que sabemos, de nós próprios e da vida, menos do que pensávamos. Não é fácil despertar dentro de um mundo desconhecido, como o pobre caixeiro-viajante, na novela de Kafka. Há uns dias, o escritor italiano Antonio Scurati recordava que a nossa geração tem sido uma jeunesse dorée na história europeia. Todas as coisas más (que, na verdade, nunca deixaram de acontecer) aconteciam, porém, lá longe e aos outros, eram tragédias que assistíamos pela televisão, em diferido. E nem nos dávamos conta de que a perceção que construímos das nossas sociedades — a da humanidade com mais saúde, com maior esperança de vida, com mais segurança e proteção, melhor nutrida e vestida — assenta num contexto histórico que não é inabalável ou, pelo menos, não tão inabalável como acreditávamos.
A NECESSIDADE DE PARÁBOLAS
Um dado curioso, no atual contexto, tem sido a necessidade de encontrar parábolas. Sem chaves interpretativas para lidar interiormente com a situação presente, assiste-se a uma corrida a alguns textos clássicos capazes não só, por comparação, de ilustrar aquilo que vivemos, mas também de nos fornecer ferramentas narrativas para podermos contar, a nós próprios e uns aos outros, o que está a acontecer. Que, de uma hora para outra, tenham voltado ao top dos livros mais vendidos, em alguns países, “A Peste”, de Albert Camus, ou “Ensaio Sobre a Cegueira”, de José Saramago, não deixa de ser um elemento significativo. O texto de Saramago, uma poderosa e escuríssima parábola moral, cuja escrita ele próprio descreveu como das mais dolorosas experiências por que passou (“são 300 páginas de constante aflição”), está repleto de termos que se impuseram recentemente ao jargão dos nossos quotidianos: epidemia, infeção, quarentena, medidas de coerção, debate ético sobre o valor da vida, carência, medo e compaixão. Mas não só as palavras como que ultrapassaram o estrito campo da ficção e se infiltraram no nosso domínio histórico. Saramago encena ali, com genial agudeza, os fantasmas e os pesadelos que temos de fazer tudo para evitar. Porque, não nos enganemos, tudo pode ser sempre pior. Nesse sentido, o seu romance permite uma leitura preventiva em relação à realidade.
A nossa segurança não pode provir da despensa bem guarnecida ou do frigorífico a abarrotar. A vida é mais do que a materialidade necessária à sobrevivência. É isso, mas é mais do que isso
Por sua vez, o romance de Albert Camus, publicado em 1947, constitui uma incisiva reflexão sobre o mal, e certamente ali, como pano de fundo, está a sombra macabra do nazismo, denunciado como a “peste” que encurralou, naqueles anos, a nossa humanidade. Mas Camus escolhe para narrador-protagonista da sua simbólica crónica de resistência um médico. E isso certamente permite uma ligação direta ao presente, onde queremos sobretudo ouvir o que pensam os virólogos, os infectologistas, os especialistas em contágio, os clínicos em geral. De repente, o doutor Bernard Rieux, que desde aquela manhã de abril em que, saindo do consultório, se torna o narrador-protagonista do que sucede na cidade argelina de Oran, é um interlocutor plausível e familiar também daquilo que experimentamos, e para o qual nos faltam ainda narradores. E há três coisas que aprendemos ouvindo o dr. Rieux contar “A Peste”. A primeira delas é que a sobrevivência, perante surtos infecciosos desta dimensão, passa por adotar os cordões sanitários e seguir escrupulosamente, de forma continuada, as regras terapêuticas estabelecidas. A segunda é que a declaração de estado de peste e do fecho da cidade são também informações para uso das almas, pois colocam em questão aspetos da condição humana e do seu destino. A terceira, e não menos decisiva, é que, no meio de toda esta tribulação, abrem-se imprevistos espaços para a fraternidade entre os seres humanos.
PODEMOS REAPRENDER TANTAS COISAS
Parece paradoxal, mas o tempo presente representa também uma oportunidade para nos reencontrarmos. Confinados a um isolamento compreendemos talvez melhor o que significa ser — e ser de forma radical — uma comunidade. A nossa vida não depende apenas de nós e das nossas escolhas: todos estamos nas mãos uns dos outros, todos experimentamos como é vital esta interdependência, esta trama feita de reconhecimento e de dom, de respeito e solidariedade, de autonomia e relação. Todos esperam uns dos outros e estimulam-se positivamente a que façam a sua parte. Todos contam. Os cuidados individuais, que somos chamados a exercitar, não são a expressão de uma fobia ou do interesse próprio apenas, como se destinados a nos enclausurar na torre de marfim do nosso ego. São, sim, a forma de colaborar para uma construção maior, de colocar os outros no centro, de sacrificar-se por eles, de privilegiar o bem comum. Esta é a hora em que podemos, de facto, reaprender tantas coisas. Podemos reaprender a estar nas nossas casas, mas também a sentir que depende de nós o nosso prédio, a nossa rua, o nosso bairro, a nossa cidade, o nosso país, dando substância efetiva a palavras, tantas vezes destituídas dela, como são as palavras proximidade, vizinhança, humanidade, povo e cidadania. Podemos reaprender a utilizar as redes sociais não só como forma de divertimento e de evasão, mas como canais de presença, de solicitude e de escuta. Sem nos tocarmos, podemos reaprender o valor da saudação, o estímulo de um cumprimento, a incrível força que recebemos de um sorriso ou de um olhar. Sem que os nossos braços se estendam na direção uns dos outros podemo-nos abraçar afetuosamente, como já o fazíamos ou de um modo mais intenso ainda, transmitindo nesses abraços reinventados o encorajamento, a hospitalidade, a certeza de que ninguém será deixado só. Sem nos conhecermos podemos finalmente reaprender a não votar ninguém à indiferença ou a não tratar os nossos semelhantes como desconhecidos. Nenhum ser humano nos é desconhecido, pois sabemos por nós próprios o que é um ser humano: o que é esse pulsar de medo e de desejo, essa mistura de escassez e de prodigalidade, esse mapa que cruza o pó da terra com o pó das estrelas.
A DISTÂNCIA E A PROXIMIDADE
Conhecemos a semântica da proximidade e da distância, e, para dizer a verdade, precisamos de ambas. São elementos de comprovada importância na arquitetura do que somos: sem uma ou sem outra nós não seríamos. Sem a proximidade primordial nem seríamos gerados. Mas também sem a separação e a distinção progressivas a nossa existência não teria lugar. Na linguagem parabólica do livro do Génesis, Deus cria o homem amassando-o da argila da terra e oferecendo-lhe o seu próprio sopro, mas depois deixa o casal humano a sós no jardim para que a aventura da liberdade possa ter início. Do mesmo modo, cada um de nós, foi chamado a construir o seu mundo interno no balanço destas duas palavras: fusão e distinção.


<span class="arranque"><span style="color:#d0b667">Conforto</span></span> Cidadãos brasileiros abraçam-se num hospital depois de informações que dão conta de casos de coronavírus no Brasil <span class="creditofoto">Adriano Machado/REUTERS</span>
Conforto Cidadãos brasileiros abraçam-se num hospital depois de informações que dão conta de casos de coronavírus no Brasil
ADRIANO MACHADO/REUTERS

E através delas descobrimos, a tatear, o significado do amor, da confiança, do cuidado, da criação e do desejo. É verdade que no campo pessoal e social há tantas distâncias que são distorcidas formas de afirmar barreiras, de inocular com o vírus ideológico da desigualdade o corpo comunitário, de desnivelar a existência comum com assimetrias de toda a ordem (económicas, políticas, culturais, etc.). E, temos de reconhecer igualmente que tantas formas de proximidade não passam de prepotência sobre os outros, exercício perturbado de poder, como se os outros fossem propriedade nossa. A distância e a proximidade precisam, por isso, de ser purificadas. Este tempo em que repentinamente ficamos todos mais perto (penso nas famílias em quarentena numa casa, 24 horas sobre 24 horas) e todos mais separados (é recomendado para o contacto interpessoal que se mantenha, pelo menos, 1 metro de distância) pode representar uma oportunidade para redescobrir aquelas proximidade e distância que garantem a qualificação ética da existência.
AS MODALIDADES DO TEMPO
Que somos nós se não escravos do tempo? Vivemos sob a ditadura do tempo cronológico: aquele tempo utilitário e voraz, aquele contador ininterrupto que não dorme, aquele corredor que ninguém consegue travar. Somos literalmente engolidos pelo tempo, como a sugestiva imagem da mitologia diz ser a prática de chrónos, o inexpugnável rei dos titãs que, sem piedade, devorava os próprios filhos. E damos por nós a habitar dentro desse processo de devoração, correndo na ofegante corrente dos dias, acreditando que nada pode parar, temendo qualquer ralentização ou pausa e deixando com isso adiado o coração para outro século; e, com isso, adiando a vida para outra vida. Estamos sempre a empurrar para o fim de semana, ou então para as férias, ou para uma ocasião propícia que nunca chega. Porque o tempo não estica. Mas os inconformados gregos, a par do chrónos, tinham uma outra conceção de tempo para a qual reservavam o termo. No chrónos predomina uma visão quantitativa do tempo, uma espécie de contabilização vertiginosa, uma inalterável linha contínua que nos aprisiona na sua teia. E uma coisa sabemos: não é essa experiência de tempo que dará uma alma ao mundo. Porém, o tempo pode também experimentar-se como uma realidade qualitativa, isto é, pode ser finalmente definido como “o tempo de”, “o tempo para”. O que se sublinha não é tanto a duração, mas o momento propício, o ponto determinante, a hora do acolhimento da graça capaz de alterar os referentes do mundo. Se assim acontecer, o chrónos foi transformado em kairòs.
DE QUARENTENA A TEMPO GRATUITO
No imaginário contemporâneo o termo “quarentena” remete-nos para mundos recuados, que a modernidade superou. Quanto muito, podia-se aplicar a alguns poucos casos individuais, onde a gravidade das patologias impunha essa arcana prática securitária. A ideia de metrópoles inteiras ou de países em quarentena constitui uma absoluta estranheza. Não admira, por isso, que a primeira reação seja a de medo e dê lugar às formas mais diversas de expressão de claustrofobia exasperada. Aqueles que — movidos por motivações religiosas ou por escolhas conscientes de vida — aprenderam a tornar fecunda e solidária a própria solidão fizeram antes um percurso iniciático, educaram o seu coração nesse sentido, mas tiveram de se posicionar contra a corrente. De facto, essa educação falta a uma sociedade onde os estímulos maiores vão na direção contrária: na linha do escapismo, do atordoamento consumista, da vida massificada e dispersa.
Há já quem diga que a geração que vive o turbilhão desta pandemia olhará inevitavelmente para a vida de outramaneira. Esperemos que sim
Por isso, somos convocados como sociedades a uma experiência pedagógica. Que a quarentena não seja só um violento recurso forçado, do qual vemos apenas os aspetos negativos, mas, mesmo com indesmentível esforço, nos possa ajudar a transmutar o chrónos em kairòs. Passamos uma vida inteira a repetir que “time is money” e nem nos apercebemos do custo existencial dessa proposição. Este pode ser o momento para irmos ao encontro daquilo que perdemos; daquilo que deixamos sistematicamente por dizer; daquele amor para o qual nunca encontramos nem voz nem vez; daquela gratuidade reprimida que podemos agora saborear e exercer. Temos de olhar para a quarentena não apenas como um adverso congelamento da vida que nos deixa manietados, elencando de modo maníaco o que estamos a perder. Sairemos mais amadurecidos se a aproveitarmos como um dom, como um espaço plástico e aberto, como um tempo para ser.
NÃO BASTA ENCHER O FRIGORÍFICO
A nossa segurança não pode provir da despensa bem guarnecida ou do frigorífico a abarrotar. A vida é mais do que a materialidade necessária à sobrevivência. É isso, mas é mais do que isso. Esta estação que vivemos representa, assim, também uma oportunidade para refletir sobre aquilo que nos nutre. É que nos alimentamos de tanta contrafação, reduzindo a vida a um fast-food, de preferência sem pensar muito. É que nos alimentamos de tiques rotineiros e empalidecidos; de ideias feitas que não deixam lugar a percursos de escuta e de descoberta; de automatismos que pairam como pura abstração; de imagens filtradas que reduzem sempre mais a realidade a uma coisa plana, esvaziando-a da sua natureza rugosa, polifónica e concreta; de palavras que, mais do que uma real declaração de presença, se parecem a uma estratégia que nos subtrai às chamadas sucessivas que a vida faz. Recordo o discurso sapiencial de Jesus e como esse restabelece o contacto da nossa realidade com as suas fontes mais profundas: “Quanto à vossa vida, não coloqueis o cuidado no que haveis de comer ou beber; nem quanto ao vosso corpo, no que haveis de vestir. Pois não é a vida mais do que o mantimento, e o corpo, mais do que aquilo que o reveste? Reparem nas aves do céu, que não semeiam, nem colhem, nem armazenam em celeiros; e o Pai celeste as alimenta... Reparem nos lírios do campo: eles não trabalham, nem tecem. E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como um só deles” (Mateus 6:25-29).


<span class="arranque"><span style="color:#d0b667">Medo</span></span> Um homem com uma máscara passa junto ao Coliseu de Roma. A Itália é um dos países mais atingidos pela pandemia de Covid-19 <span class="creditofoto">Alberto PIZZOLI/AFP</span>
Medo Um homem com uma máscara passa junto ao Coliseu de Roma. A Itália é um dos países mais atingidos pela pandemia de Covid-19
ALBERTO PIZZOLI/AFP

Numa das horas mais opacas do século passado, uma rapariga holandesa de nome Etty Hillesum escreveu num campo de concentração este comentário às palavras do evangelho de Mateus: “Uma vez escrevi num dos meus diários: ‘gostava de tatear com as pontas dos dedos os contornos desta época’. Nessa altura estava sentada à secretária sem saber bem como atingir a vida... E então, de repente, fui lançada num foco de sofrimento humano numa das múltiplas frentes espalhadas por toda a Europa. E foi aí que eu experimentei isto abruptamente: a partir dos rostos das pessoas, de milhares de gestos, de pequenas manifestações, de biografias, comecei a interpretar estes tempos... Se as pessoas entendessem esta época, seriam capazes de aprender com ela a viver como os lírios do campo.”
O que significa sermos capazes de olhar os lírios do campo e as aves do céu? Significa adotar uma atitude contemplativa. Precisamos de olhar, mas não apenas como habitualmente o fazemos, pois a maior parte das vezes o nosso olhar morre junto aos sapatos. Somos desafiados a um olhar que vá além de nós, que supere os limites do nosso tracejado, que transcenda o perímetro das nossas preocupações imediatas, que se projete para lá do que sozinhos conseguimos ver... porque a vida não se resolve apenas com aquilo que trazemos ou conseguimos, mas sim no diálogo misterioso entre a nossa escala e a escala mais ampla que a própria vida é; no diálogo entre o que surge como conquista e o que brota como inexplicável dom; na interação entre o aqui e o agora e o que é da ordem do eterno.
AS HISTÓRIAS DE AMOR QUE ESTÃO A SER ESCRITAS
No meio da emergência que vivemos, não podemos esquecer o testemunho humano altíssimo que está a ser dado por todos os cuidadores. Esses são heróis desta história coletiva. E são milhões que, de forma anónima, e com um extraordinário sentido de abnegação, mantêm abertas fábricas e serviços, continuam a produção alimentar e de bens indispensáveis, vigilam pela segurança e, claro, nos hospitais combatem por todos nós na primeiríssima linha. Enumero três histórias minúsculas no universo de bem e dedicação que, nestes dias tão difíceis, se está também a construir. No sábado fui à pequena padaria do meu bairro. É o proprietário que atende ao balcão, um senhor dos seus setenta e muitos, um olhar cheio de cordialidade, um humor sempre a assomar. Vi-o, como o nunca vi, desolado, meditabundo, exausto. Perguntei-lhe se a padaria continuaria aberta. E ele confessou que por ele já a teria fechado. Mas depois começa a pensar nos clientes, nas pessoas que serve há tantos anos, muitas delas idosas como ele: como farão, se não há outra padaria nas redondezas! Outra história li-a no jornal. Uma senhora ligou para o posto da polícia do seu quarteirão, que naturalmente continua aberto, apenas para fazer esta pergunta: “E vocês como estão?” A terceira é contada, sem palavras, por uma fotografia que mostra os bastidores de um hospital. Uma enfermeira adormecida com a cabeça em cima de um teclado do computador. Tem os óculos e a máscara colocados no rosto. Os braços caídos ao longo do corpo, sem nenhum apoio. É uma imagem comovedora, no seu desamparo extremo, porque se percebe tudo. Há quantas horas aquela mulher não dormia? E que dimensão tem de ter o cansaço, que peso tem de atingir para fazer tombar assim um corpo? Há já quem diga que a geração que vive o turbilhão desta pandemia olhará inevitavelmente para a vida de outra maneira. Esperemos que sim. Mas que na equação, que porventura espoletará uma mudança de mentalidade, entre não só o poder desconhecido do medo e da urgência, que nos faz relativizar tanta coisa. Que saibamos considerar devidamente todas as histórias de amor que estão a ser escritas, a começar por esta inteira multidão de profissionais e de voluntários que aproximam da nossa experiência hodierna a inesquecível parábola do bom samaritano.
AS MÃOS SUSTÊM A ALMA
Uma das esculturas mais conhecidas de Rodin revela, numa primeira abordagem, uma impressionante simplicidade. Trata-se de uma composição em pedra constituída por um par de mãos. Na verdade, duas mãos direitas, de duas pessoas diferentes cujos braços se entrecruzam e alongam para que os dedos, no ponto mais alto, se toquem, desenhando a forma de um arco. Um programa aparentemente elementar, portanto. A poesia deflagra — e, desse modo, nos remete para uma outra visão da obra — quando nos é anunciado o seu título. Primeiramente, Rodin pensou denominá-la “A Arca da Aliança”, mas optou depois por chamá-la “A Catedral”. O que é uma catedral? A escultura de Rodin pode socorrer-nos na necessidade de obter uma resposta. Uma catedral não é apenas um território sagrado exterior onde os nossos pés nos levam. Nem é apenas um templo fixado num determinado espaço. Nem apenas um porto de abrigo que os mapas assinalam. Uma catedral também se alcança com as nossas mãos abertas, disponíveis e suplicantes, onde quer que nos encontremos. Porque onde está um ser humano, ferido de finitude e de infinito, está o eixo de uma catedral. Onde possamos realizar essa experiência vital de busca e de escuta para a qual a imanência não é resposta. Onde as nossas mãos se possam erguer para o alto em desejo, urgência e sede. Esse será sempre um dos eixos da catedral. O outro eixo é o mistério de Deus que o desenha, avizinhando-se de nós e segurando-nos, mesmo quando não nos apercebemos logo, mesmo quando o silêncio, o duro e espesso silêncio, parece a verdade mais tangível. Foi Pascal que escreveu que “as mãos sustêm a alma”. Hoje precisamos de mãos — mãos religiosas e laicas — que sustenham a alma do mundo. E que mostrem que a redescoberta do poder da esperança é primeira oração global do século XXI.

sábado, 14 de março de 2020

Bom recolhimento ...





Gosto de me passear pelas obras de Kasimir Malevich, construtivista russo (Kiev1877 - S: Petersburg 1935).

Estes rostos "sem alma", pois esta espelha-se nos olhos, faz-me lembrar o momento que atravessamos que nos priva do olhar das pessoas que amamos.
Assim terá que ser.
Bom recolhimento ... Afinal há tanta coisa que se pode fazer por casa .

sábado, 29 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Nem tudo o vento levou . . .

Excerto de crónica de Manuel Loff, no Público de hoje



MAL: "Estancamos diante do mal. E para mim é bem verdade que me sinto um pouco como esse Santo Agostinho que, antes da sua conversão ao Cristianismo, dizia: 'Procurava donde vinha o mal e não saía nunca dele'. Mas é também verdade que eu sei, como outros, o que é preciso fazer, se não para diminuir o mal, pelo menos a forma de o não aumentar." ("Atuais") 

Albert Camus
Pipper Smoker , de Paul Cézanne, 1900

O escritor norte-americano, Paul Auster, tem como protagonista do seu livro “Homem na escuridão”, August Brill, um crítico literário de 72 anos, que sofre de insónias.
“Sozinho na escuridão, revolvo o mundo na minha cabeça enquanto me debato com mais uma insónia, com mais uma noite em branco na imensidão da natureza selvagem da América (…)  A noite ainda é uma criança e, enquanto para aqui estou deitado na cama, perscrutando a escuridão, uma escuridão tão negra que nem consigo ver o tecto, ponho-me a recordar a história que comecei a noite passada. É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer. No entanto, a concentração pode ser um problema e, a maior parte das vezes, a minha mente afasta-se da história que estou a tentar contar e regressa às coisas em que não quero pensar. Não há nada a fazer. Falho vezes sem conta, os fracassos são mais frequentes do que os êxitos, mas isso não quer dizer que eu não me esforce, e muito, para contrariar essa tendência”
in Homem na Escuridão, Paul Auster, Lisboa, 2008
Lido na revista online Isleep

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Surrealismo no seu melhor....



                                   Obras de Dorothea Tanning, 1910 - 2012

Sobre a mulher e a artista, aqui.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Uma boa razão para se ir até ao Museu do Chiado ...

Estudo para o óleo “Concerto de Amadores”, 1882, de Columbano Bordalo Pinheiro
O Museu do Chiado apresenta a sua coleção de desenho numa visita à arte portuguesa do século
In Expresso de dia 15/02/2020

domingo, 16 de fevereiro de 2020

Leituras breves, mas profundas... ( I )

   Pego no livro há tempo fora do meu alcance visual , PORTUGAL A TERRA E O HOMEM, antologia de textos de escritos do séc. XX, por David Mourão Ferreira, II volume de uma edição da Fundação Calouste Gulbenkian. 

   Uma noite de insónia como tantas outras em que a mando médico, não devo ficar na cama . Não tenho tendência para me fixar em leituras longas, saltito de livro em livro ou revista em espera, tentando fugir á luz do computador pelas razões óbvias. Tenho 19 escritores para escolha .    Aleatoriamente abro a pagina aonde está um texto de Afonso Lopes Vieira, que nasceu em Leiria em 1878-1946 , formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra . 

   Ora sendo  de Leiria, Vieira escreveu sobre a região, sua cidade e localidades adjacentes.
   Sendo eu de perto, tocou-me saber algo mais sobre o que escreveu , do que vivenciou no fim e princípio dos séculos XIX e XX . Há ideias que perduram no tempo sobre as pessoas de uma localidade . Penso que quando somos de "uma terra" ou romantizamos o local ou somos desanuviados de mente e clarividentes no olhar sobre as gentes. 
Vou deixar-vos alguns excertos de uma bela prosa romântica e a sua ideia de Pátria que foi buscar a Camões .

...

NAQUELE soneto de épica piedade que Luís  de Camões põe na boca espectral de um soldado português morto na costa da Abissínia e aí  lançado ao mar, lêmos esta bela e tão comovedora confissão:


                            Criou-me Portugal na verde e cara
                             Pátria minha Alenquer . . . 

   À hora da morte, tão longe de Portugal, aquêle soldado resumiu a sua grande Pátria no cantinho dela mais querido do seu coração: as saudades do desterrado, a sua última evocação foram para Alenquer, onde Portugal o criara.
   Todos os homens honrados do nosso triste planeta possuem, como o soldado de Camões, a sua Pátria resumida, que é também a face mais carinhosa e mais querida da Pátria histórica. Até nas grandes cidades há os bairros dilectos e as freguesias natais. É do amor das pequenas pátrias que se enraíza e fortifica o amor das grandes (. . .)

( De Nova Demanda do Graal)
Afonso Lopes Vieira por  Columbano Bordalo Pinheiro, 1910


. . . 

   Vieira  é da Estremadura e eu da Beira Litoral , de Leiria à Figueira da Foz distam 30 Km. 
  Nesta sequência de belas "crónicas" que  Mourão - Ferreira compilou,   penso deixar por aqui excertos de diferentes autores e uma ou outra história por mim vivenciada em épocas tão diferentes. 
   Com Vieira hei-de ir a S. Pedro de Moel e Marinha Grande . . . 

  Neste link que aqui vos deixo podereis ler algumas poesias de Afonso Lopes Vieira. 



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020

Estilo

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   Uma vez fui ao médico.
   - Doutor, estou louco - disse. - Devo estar louco.
   - Tem loucos na família? - perguntou o médico.
-Alcoólicos, sifilíticos ?
   - Sim , senhor. O pior. Loucos, alcoólicos, siflíticos, místicos, prostitutas, homossexuais. Estarei louco?
   O médico tinha sentido de humor, e receitou-me barbitúricos.
   - Não preciso de remédios - disse eu. - Sei historias tenebrosas acerca da vida. De que me servem barbitúricos?
   - A verdade é que eu ainda não havia encontrado o estilo. Mas ouça, meu amigo: Conheço por exemplo a história de um homem velho. Conheço também a de um homem novo. A do velho é melhor, pois era muito velho, e que poderia ele esperar? Mas veja, preste bem atenção. esse homem velhíssimo não se resignaria nunca a prescindir do amor. Amava as flores. No meio da sua solidão tinha vasos de orquídeas.
   O mundo é assim, o que quer? É forçoso encontrar um estilo. Seria bom colocar grandes cartazes nas ruas, fazer avisos na televisão e nos cinemas. Procure o seu estilo se não quer dar em pantanas.
Arranjei o meu estilo estudando matemática e ouvindo um  pouco de música. - João Sebastião Bach. Conhece o Concerto Brandeburguês nº5 ? Conhece com certeza essa coisa tão simples , tão harmoniosa e definitiva que é um sistema de três equações a três incógnitas.  Primário, rudimentar. Resolvi milhares de equações. Depois ouvia Bach.  Consegui um estilo.

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Excerto da prosa ESTILO. de Herberto Hélder , OS PASSOS EM VOLTA

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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

O Belo e a Consolação , George Steiner , 1929-2020


Este curto e brilhante ensaio de George Steiner, recém lançado pela Âyiné, divide-se em três partes: Aqueles que queimam livros, O povo do livro e Os dissidentes do livro.
Steiner é um mestre absoluto. Erudito e metódico, ele é autor de um impressionante número de clássicos para os estudiosos de humanidades — entre os quais Nenhuma Paixão Desperdiçada, Lições dos Mestres e este livro que ora comento.
Steiner não é um otimista, mas dá alguns remédios: os livros seriam um meio seguro para nos tornamos melhores. Pode parecer algo já muitas vezes dito, mas o que vale é a argumentação certeira de Steiner. Li o livro fazendo inúmeras anotações, não dá para abrir meu exemplar sem que se vejam frases ou parágrafos sublinhados. Tudo parece fundamental, necessário, perfeito.
A primeira parte trata do encontro, da relação entre leitor e livro. Esta é imprevisível, vulnerável à mudanças de espírito ou de idade, muito semelhante às afinidades mediadas por Eros.
O encontro com o livro, assim como aquele encontro com o homem ou a mulher destinada a mudar nossas vidas, pode ser completamente casual. O texto que vai nos converter a uma fé, que vai nos fazer aderir a uma ideologia, que dá a nossa existência um fim ou um critério, pode estar a nos esperar na estante de livros de ocasião, de usados, com desconto. Talvez empoeirado e esquecido, ao lado do livro que procurávamos. (…) Um texto é sempre capaz de ressuscitar. Walter Benjamin ensinava, Borges construiu sua mitologia: um livro jamais é impaciente. Ele pode esperar séculos para despertar um eco vivificante.
A segunda parte trata dos judeus e de seu amor pelos livros. Trata do fato de um religioso judeu ter de ler e estudar a Torá, de ser um povo que tem um lápis na mão ao ler um livro. Também fala na resistência da igreja católica à invenção da imprensa. A invenção de Gutenberg serviu muito mais aos protestantes, pois os católicos desejavam seguir com a informação oral, pelos padres.
A terceira parte fala sobre a tirania do celular, o livro digitalizado e sobre as condições políticas e culturais que favorecem ou não o livro. Fala-se da postura dos escritores e filósofos nazistas — habitantes de um país altamente culto e produtivo mesmo durante Hitler –, de Wagner, da variedade demencial de lançamentos de livros — 121 mil novos títulos são lançados no Reino Unido a cada ano — e de sua efemeridade, pois se não vendem vão para o balcão de ofertas em 20 dias. Fala-se também na relação entre censura — a grande propulsora de metáforas, segundo Borges — e criatividade.
Sem dúvida, um livro de um mestre, um clássico moderno.
Escrito em 2018
Retirado DAQUI

sábado, 1 de fevereiro de 2020




Dois dias seguidos de escuridão e nevoeiro como não via e sentia há muito.
Sou levada a procurar Turner, o pintor da luz.


 Bom fim de semana a quem passa. A vosso jeito.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

"Senti-me Júlio Exílio quando me chamaram para a RTP Memória ". Memórias


    Ora, ora ... Não pertenço ao mundo das pessoas que dizem não ver televisão. Com parcimónia e selectividade,  à noite é infalível. Cinema, Netflix, HBO , notícias na RTP2, programas gravados na 2, que fica para os almoços tardios. Afinal,  para quem vive só,  a imagem, o baixo som (quando estou de auditivo esquerdo ...), uma boa conversa resolve problemas de solitude ou desacompanhamento .
    Amo tanto o silêncio como a música e na cozinha,  o meu rádio Tivoli, está formatado para programas obrigatórios. Sou uma alegre aposentada que encontrou neste modo de vida la joie de vivre que sempre me acompanhou. 
     E toda esta conversa vem a propósito do zapping feito à hora do jantar .
    Reparei que ontem na RTP 1 passou em directo uma homenagem feita a Júlio Isidro pelos seus 60 anos como profissional da rádio e televisão.
   Enquanto escrevo, com alguma emotividade, continuo a ver e verei atá ao fim o programa. É uma viagem no tempo, o meu tempo, o tempo que não tinha televisão e  ía ao domingo à  tarde, quando possível, ver os passatempos infantis, entremeados com  Vitorino Nemésio e João Villaret,  que em criança me enfastiavam. Mais tarde, amei.
   Teatro às segundas feiras no salão dos Bombeiros Voluntários. Televisão só entrou em minha casa quando tinha 19 anos.
   É um desfile ao mundo da canção, da representação,  da dicção, viagens a Hollywood nas suas multiplas entrevistas a artistas laureados. Tudo no mundo do espectáculo e da cultura , pessoas esquecidas, outras nem tanto, passaram pelos seus programas . Os velhos spots publicitários onde Júlio tinha imensa piada.
   Dá-me prazer ver quem eu pensava "out", ver a beleza e a magreza de homens e mulheres  que só mais tardiamente conheci, e ver que continuam belos, uns,  gordinhos encantadores, outros , mas todos belos nas suas roupagens e nas suas idades. 
   Enfim, não era um programa para ver sozinha, mas com alguém do meu tempo com a mesma joie de vivre, para umas emoções, risadas e cantaroladas .
   Deixo aqui um vídeo de um artista que apareceu neste desfile,  que me fez correr muito para a noite lisboeta, acordeonista e sapateado. Terá quase 80 anos ou mais.... Michele.