quinta-feira, 11 de junho de 2020

" A minha pátria é a minha Língua"

De Nikias Skapinakis, Paisagem - Bandeira Portuguesa, 2009



Que eu cante o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta, 
Que outro valor mais alto se alevanta.


Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas

terça-feira, 2 de junho de 2020

“- Não te preocupes. Eu tenho trissomia 21, não tenho Covid.”

Que ninguém se sinta obrigado, mas leiam. "Diários da Peste", de Gonçalo M. Tavares, é do melhor que por aí há de leitura, no Expresso Diário.

Diário da Peste
1 de Junho
É evidente: quem respira está a resistir.
Uma ilegalidade, quase um crime.
Uma pedra, por exemplo, aceita a imobilidade de forma pacata.
Uma praticamente cidadã exemplar.
"Trump refere-se a tumultos como um "crime contra Deus" e ameaça chamar as Forças Armadas para as ruas".
Flexão ou extensão: o corpo expande-se ou esconde-se.
Nenhum humano tem sempre o mesmo tamanho.
Cidade vasta, feita de muitas coisas; umas paradas e sem pulmões.
Outras cheias de pulmões e palavras.
"Trump sai da igreja e posa para as câmaras com uma Bíblia na mão".
Detidos vários, montras partidas e assaltos; violência e protestos.
Este verso de Paul Bowles:
“The final rain kills the remaining trees”.
Ir para a chuva final com a Bíblia na mão.
Travar a chuva e os confrontos com a Bíblia e muito gás lacrimogéneo.
Se não vai a bem, vai a mal. Palavras, balas ou gás.
Em vez de fazer ver os cegos, tapar por um tempo o necessário movimento dos olhos.
Gás lacrimogéneo e balas de borracha: um gás que quase cega e uma bala que quase mata.
Trevor Noah fala da quebra de contrato entre a sociedade americana e os negros. Nina Simone canta I Got Life.
“Não tenho casa, não tenho sapatos Não tenho dinheiro, não tenho classe Não tenho saias, não tenho casacos Não tenho perfume, não tenho amor Não tenho fé”.
A fé, sempre. Bíblia de um lado, música e dança também.
Ouvi pela primeira vez esta música no filme Hair.
Não tinha idade para ver.
No cinema não me queriam deixar entrar porque umas mamas apareciam no meio da marijuana.
No meio da marijuana e da música.
A maturidade específica dos olhos, uma ideia a estudar.
Respondi que só tinha ouvidos e olfacto; visão quase nada, quase lusco-fusco. Deixaram-me entrar.
Uma amiga, 1 de Junho de 2020.
Trabalha com pessoas com dificuldades mentais. Mensagem:
“Hoje foi o recomeço com os alunos. Não nos víamos há dois meses.”
“Muitos olhos tristes. Muitos a controlar a vontade de nos abraçarem. Hoje foi um dia difícil.”
Nina Simone:
“Tenho o meu cabelo, tenho a minha cabeça Tenho o meu cérebro, tenho as minhas orelhas Tenho os meus olhos, tenho o meu nariz Tenho a minha boca.” Depois a minha amiga contou ainda:
“Um dos meus alunos (25 anos) chegou perto de mim e disse:
- Queres ir ali atrás?
- Fazer o quê? Perguntou ela.
- Quero dar-te um beijinho sem ninguém ver.”
Ela explicou-lhe que não podiam quebrar esse tipo de regras.
“- Não te preocupes. Eu tenho trissomia 21, não tenho Covid.”
Foi isso que ele disse. Tem 25 anos. Tem trissomia 21, não tem Covid.
Há problemas que vêm com a tosse e com o vento, e há problemas que vêm de trás.
Nina Simone canta e o número de mortes continua a descer em Itália e Espanha.
Os tempos são quase felizes, os tempos são quase tristes.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O que poderia ter Christo embrulhado em Portugal ? Como admiro os seus projectos.

Era um dos artistas contemporâneos mais famosos do mundo, sendo conhecido por fazer grandes intervenções artísticas que geraram tanta polémica como admiradores. Queria embrulhar o Arco do Triunfo, cumprindo um plano desenhado em Paris há quase sessenta anos. Morreu este domingo, semanas depois de ter dado esta entrevista. Os projectos em curso deverão ser postos em prática à mesma, seguindo a sua vontade

Os seus projectos mais conhecidos têm em comum o facto de serem temporários. Como gostaria de ser lembrado?
Não penso nisso. Gosto de trabalhar, não gosto de me ver em retrospectiva. Não me é possível pensar em como serei lembrado. Sei que vivi uma vida incrível, tive uma aventura incrível, fiz uma viagem incrível. E não me arrependo.


Excerto de sua ultima entrevista ao jornal Expresso

boa semana a quem passa



Sejamos modernos, sejamos radicais.
Como bem sabes não somos eternos.
E além do mais eu não digo nada aos teus pais.
Daniel Maia - Pinto Rodrigues

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Maria Velho da Costa , 1939-2020

 Revolução e Mulheres

Elas fizeram greves de braços caídos.
Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.
Elas gritaram à vizinha que era fascista.
Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.
Elas vieram para a rua de encarnado.
Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.
Elas gritaram muito.
Elas encheram as ruas de cravos.
Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes.
Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua.
Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo.
Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.
Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra.
Elas choraram de verem o pai a guerrear com o filho.
Elas tiveram medo e foram e não foram.
Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas.
Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa.
Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões.
Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.
Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos.
Elas disseram à mãe, segure-me aí os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é.
Elas vieram dos arrebaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada.
Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão.
Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.
Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam.
Elas acendem o lume.
Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado.
São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
Maria Velho da Costa
Novas Cartas Portuguesas, obra literária de 1972, escrita por Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, é um livro singular, tanto pelo seu caracter revolucionário e desafiador da ditadura fascista em Portugal, como pela sua narrativa inovadora, cruzando, a seis mãos, a poesia, o ensaio, o romance, a carta, o conto.
Símbolo do feminismo português do Seculo XX, Novas Cartas Portuguesas é um livro que tem como centro a indignação face à subordinação das mulheres e à sua invisibilidade – pessoal, social, cultural e política -, procurando dar voz aos seus desejos, às suas inquietações e pensamentos, constituindo um grito de libertação contra todas as formas de opressão e um verdadeiro manifesto reivindicativo dos seus Direitos Humanos.


Bibliografia, de Maria Velho da Costa

  • O Lugar Comum. 1966
  • Maina Mendes. 1969
  • Ensino Primário e Ideologia. 1972
  • Novas Cartas Portuguesas. (with Maria Teresa Horta and Maria Isabel Barreno) 1972
  • Desescrita. 1973
  • Cravo. 1976
  • Português; Trabalhador; Doente Mental. 1977
  • Casas Pardas. 1977
  • Da Rosa Fixa. 1978
  • Corpo Verde. 1979
  • Lucialima. 1983
  • O Mapa Cor de Rosa. 1984
  • Missa in Albis. 1988
  • Das Áfricas. (with José Afonso Furtado) 1991
  • Dores. (short stories, with Teresa Dias Coelho) 1994
  • Irene ou o Contrato Social. 2000
  • O Livro do Meio. (an epistolary novel, with Armando Silva Carvalho) 2006
  • Myra. 2008
  • O Amante do Crato. (short stories) 2012

sexta-feira, 22 de maio de 2020

dou-vos um verso ...

Tu
a primavera luminosa da minha expectativa
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice , Pedro, Lembrando Inês
Vincent Van Gogh
Vaso japonês com rosas e anémonas, 1890

terça-feira, 19 de maio de 2020

"os países são como as camas. Existem muito antes de, sobre eles, se estenderem lençóis "

  A cama e o como


 Recordo a  minha mãe, logo pela manhã, chamando-me para ajudar a « fazer a cama ». E lembro a minha estranheza:
   - Fazer a cama? Mas ela já não está feita?
    Para a minha mãe era bem claro: uma cama só existia se nela estivessem bem estendidos os lençóis e as cobertas. Até então a cama estava «desfeita». Não existia . E o resto era conversa de um filho preguiçoso. 
   Ainda hoje mantenho a mesma estranheza. Porque a expressão «fazer a cama» esconde algo que é essencial. Por debaixo da colcha é que está a verdade da cama. Por debaixo da aparência, está a obra de um anónimo carpinteiro ou de um desconhecido serralheiro. A linguagem  tem muitas vezes esse poder: mostra a construção e esconde a mão do construtor.
   Este encobrimento é comum. Contudo, no caso da cama, essa ocultação é mais do que injusta.  Porque nenhum outro objecto nos acompanha tanto e por tão longo tempo. Nascemos e morremos quase sempre sobre um leito. Grande parte da nossa vida é passada sobre uma cama. Apesar disso, não damos conta da sua existência . A sua presença só se adivinha pelo ranger da tábua, pelo chiar da mola ou pelo desconforto do colchão. A cama é como o nosso próprio corpo. Só
o sentimos quando nos dói.

Excerto de um conto de Mia Couto do livro , o universo num grão de areia

segunda-feira, 18 de maio de 2020

E eu que pensava que nunca mais chegaria este momento ...

   Estou vivas e de saúde, quem tresvariou, foi o blogger e a paciência ou falta dela para gastar tempo com este erro técnico  que há largos anos me faria perder noites ou a noite . Era viciante. BLOGUE é blogue e passei a encontrar mais vida para lá da blogosfera como já expliquei  a pessoas amigas que por aqui passam . Não sou totalmente desinteressada , não sou ingrata nem esquecida, só mudei de rumo.
   Achei a solução, mudei o visual desta casinha virtual  pois os tempos também são de mudança. COVIretitrada , como todos vós.
  Não foi o cabo das Tormentas, confinar, mas deixar de abraçar netos , o que já voltou ao normal e ter mãe de 92 anos longe de mim, mas bem, em sua casa e auto suficiente, não foi fácil 
Junho, será o mês da mãe.
   Breve farei a ronda  dos amigos blogueiros pois por hoje já me dou por satisfeita.

sábado, 25 de abril de 2020

O 25 de Abril confinado...



   Não foi um dia alegre, não senhor . Expectativas de festejos de janela, jã sabia que íam sair gorados.
   Para quem festeja o 25 de Abril de forma colectiva e alegre na Avenida da linda Lisboa, a da Liberdade e se vê em comemoraçoes televisivas , fica triste e deprimido. E chora . E eu chorei. 
Pela televisão revivermos toda uma história de vida de 46 anos. Umas vezes triste,  outra alegre.

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível

Ruy Belo

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Dia Mundial do Livro

   Nao, dia Mundial do Livro, não acabas sem eu te festejar . Escolho um de três livros entre mãos.
Esta biografia é longa, mas esclarecedora e poética.
Por ocasião da morte de Clarice, Drumond de Andrade escreveu, "Clarice, veio de um mistério e partiu para outro".

Duas sombras têm acompanhado a minha vida e estão aqui a meu lado... Minha mãe gastou-se a sonhar, só nervos e paixão; viu cair por terra todos os seus sonhos - e teimou em sonhar, atrevendo-se contra todo o universo! A realidade temerosa afastou-a sempre de si. Venceu-a. Deu-nos vida a todos. Alimentou'nos do mesmo sonho que a devorou até final, sem medo da morte, como se a morte fosse a continuação natural da vida. Foi dela que herdei a sensibilidade e o amor pelas árvores, pela água, e dela herdei também o sonho...
...
Raul Brandão, Memorias

Pintura de Joaquim Reis

terça-feira, 21 de abril de 2020

" «Amigo» é a solidão derrotada "

AMIGO

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,

Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço ùtil, um tempo fértil,
»Amigo vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, Poesias Completas

Pintura de Felix Vallotton