segunda-feira, 2 de novembro de 2015

domingo, 1 de novembro de 2015

Poema de Finados

Óleo de Vincent Van gog
POEMA DE FINADOS

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

© MANUEL BANDEIRA
In Libertinagem, 1930 

sábado, 31 de outubro de 2015

porque não gosto de bruxas....


As Fadas
...

Quem as ofende cautela! 
A mais risonha, a mais bela, 
Torna-se logo tão má, 
Tão cruel, tão vingativa! 
É inimiga agressiva, 
É serpente que ali está! 

E têm vinganças terríveis! 
Semeiam coisas horríveis, 
Que nascem logo no chão… 
Línguas de fogo, que estalam! 
Sapos com asas, que falam! 
Um anão preto! um dragão! 

Ou deitam sortes na gente… 
O nariz faz-se serpente, 
A dar pulos, a crescer… 

É-se morcego ou veado… 
E anda-se assim encantado, 
Enquanto a fada quiser! 

Por isso quem por estradas 
For, de noite, e vir as fadas 
Nos altos, mirando o céu, 
Deve com jeito falar-lhes, 
Muito cortês e tirar-lhes 
Até ao chão o chapéu. 

Porque a fortuna da gente 
Está às vezes somente 
Numa palavra que diz. 
Por uma palavra, engraça 
Uma fada com quem passa 
E torna-o logo feliz. 

... 

Sempre gostei muito deste poema de Antero de Quental  com o qual fiz algumas crianças felizes,  e eu própria,  quando o lia para mim mesma. Porque não gosto de bruxas nem de atos parecidos com "bruxarias", deixo-vos aqui na integra o poema,  AS FADAS

(imagem tirada do jornal Expresso de hoje)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

formas de olhar..

    
Em tempo de muros há outras barreiras que nos dão alguma visibilidade do que nos parece invisível.
Espreitar, não é pecar. Pecar, é devassar o que se espreita. E, como o "coiso", fora de questão o arrependimento. Porque estão sempre certos e nunca se enganam.
Vida.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

olhares...

Erwin Olaf, fotógrafo
Há metafisica bastante em não pensar em nada.

Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos,V

terça-feira, 20 de outubro de 2015

"és uma fonte de inspiração"...

Fotografia de Erwin Olaf


És uma fonte de inspiração como rodilhas de cozinha
para um fotógrafo gasto pela película velha de uma azinheira
em combustão. Ah, se eu sei como buscas crédito
entre os fantoches de um palco carcomido e pouco iluminado
como mandam os bons costumes de uma decadência encenada.
Escreveres, lá isso escreves, como quem limpa o cu,
como se fosse uma ardósia de maus costumes (e tu achas isso
adorável!) e esperas que te aplaudam ao som de brindes
dos novos gins num strip-tease que a idade, as mamas
de plástico e os cabelos engraxados não perdoam. Ai, prosador
de piscinas vazias pelos calotes tu sabes que um verso
é tão doloroso como a falta de hábito de ter tesão. Lamento por ti!
Mas isto de andar pelo mundo quando o mundo já passou
por ti sem que te desses conta não é fácil. É bom ver-te
ao longe nas festas das abóboras endinheiradas a falares de penicos
como quem enche a boca de genialidades literárias
ou frequentares os salões dos prémios na esperança que te toque
um ramalhete de clitóris rapados e surja na ponta
dos teus dedos repletos de artroses o texto sublime
para a antologia das alfaces voadoras e brasonadas
que tantas noites de insónia te provocaram nessa dolorosa
cama de pregos. O teu charme irresistível
de principezinho na reforma perde-se no teu sexo em vírgula
murcha com o valor da pausa que já não controlas.
Escreveres assim já não é tão natural como a tua sede.
Ólarilolé!
Luís Filipe Sarmento, «Gabinete de Curiosidades», 2015 ( surripiado no FB, porque muito gostei.)

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

sem título

ERWIN OLAF, fotógrafo

Meu coração é uma princesa morta.
Quem deixou?
Quem deixou entreaberta aquela porta
Onde passou?

Fernando Pessoa

sábado, 17 de outubro de 2015

mon Dieu...



Sob a chuva caminhar
é como partir lenha
para o próximo Inverno.

Rui Lage, Epílogo


Assim foi hoje que me senti envolta num tornado em plena rua, á 11h da manhã.
As ruas são um mar de lenha e ramos caídos, e a falta da minha árvore da vida, tive que me agarrar a um plátano para não ir pelos ares. Haja plátanos e outras espécies de árvores....

Bom fim de semana... ó Marias e Maneis

"viral", nas redes sociais. Deixei-me contagiar...
Bom fim de semana.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

O "bruá" é imenso, mas...


 Já Eugénio de Andrade glorificava o fascínio do silêncio em "Obscuro Domínio": 

"Quando a ternura/parece já do seu ofício fatigada,//e o sono, a mais incerta barca,/inda demora,//quando azuis irrompem/os teus olhos//e procuram/nos meus navegação segura,//é que eu te falo das palavras/desamparadas e desertas,//pelo silêncio fascinadas".

in, Expresso Díário