sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Quando não há palavras...

nem minhas ou dos outros, há ideias.
Sempre um bom motivo para ir passear até ao Principe Real.
Bom fim de semana.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

"creio que tudo é eterno num segundo"...

CREDO

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
creio na Deusa com olhos de diamantes,
creio em amores lunares com piano ao fundo,
creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

creio num engenho que falta mais fecundo
de harmonizar as partes dissonantes,
creio que tudo é eterno num segundo,
creio num céu futuro que houve dantes,

creio nos deuses de um astral mais puro,
na flor humilde que se encosta ao muro,
creio na carne que enfeitiça o além,

creio no incrível, nas coisas assombrosas,
na ocupação do mundo pelas rosas,
creio que o amor tem asas de ouro. Amém.


Natália Correia
Pintura de Picasso

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~ um dia já com muitos anos...

Uma canção que quero cantar em breve...

(fotografia tirada do FB do mural AMIGOS DE ZECA AFONSO

... "nenhum gesto a um gesto corresponde"...

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.
E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,
de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum –
– que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, Desencontro, poema

sábado, 21 de fevereiro de 2015

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

"lançamos o barco,sonhamos a viagem : quem viaja é sempre o mar", como na vida....



excerto de um pequeno livro de que muito gosto, MAR ME QUER, de Mia Couto, lançado durante a EXPO`98
ilustração escolhida a partir dos desenhos de Ana Biscaia,ilustradora infantil

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Luísa Dacosta, 1927-2015


Luísa Dacosta nasceu em 1927, em Vila Real de Trás-os-Montes. Formou-se na Faculdade de Letras de Lisboa, em Histórico-Filosóficas. 
Mas as suas "Universidades" foram as mulheres de A-Ver-O-Mar, que murcham aos trinta anos, vivem e morrem na resignação de ter filhos e de os perder, na rotina de um trabalho escravo, sem remuneração, espancadas como animais de carga (- Ele não me bate muito, só o preciso) e que, mesmo afeitas, num treino de gerações, ás vezes não aguentam e se suicidam (oh! Senhora das Neves! E tu permites!) depois de um parto, quando o mundo recomeça num vagido de criança! Ás mulheres de A-Ver-O-Mar "Deve" a língua ao rés do coloquial.
Foi professora do ciclo preparatório e alguma coisa deve também aos alunos: o ter ficado do lado do sonho. Isso a tem motivado a escrever para crianças.


Dois poemas de Luísa Dacosta

Entretenimento

Como quem procura conchas à beira do mar,
escolho as palavras para te dizer,
quando o silêncio dos teus braços
vestir o frio dos meus ombros.



Apelo

Atravessa os campos da noite
e vem.

A minha pele
ainda cálida de sol
te será margem.

Nas fontes, vivas,
do meu corpo
saciarás a tua sede.

Os ramos dos meus braços
serão sombra rumorejante
ao teu sono, exausto.

Atravessa os campos da noite
e vem.

A Maresia e o Sargaço dos Dias, Porto: Edições Asa, 2002

viva o cinema...


Nostalgia, nome do filme de Andrei Tarkovski, dedicado à sua mãe, conta a história de exílios e impedimentos políticos, questões ligadas às tantas impossibilidades de estar na vida e nos lugares, demonstrando, ao mesmo tempo, que estamos sempre em poder das lembranças que, muitas vezes, norteiam as nossas rotas.

Um filme há muito adiado. Foi hoje o meu serão. Para ver com todos os sentidos e calma.
Preferencialmente com o cabo USB ligado á televisão.
Primeiro filme que A. Tarkovki, filmou fora da URSS.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

a 16 de fevereiro de 1942 (não apaguem a memória)

1942
¾       Em Munique, aparecem as famosas frases grafitadas Fora com Hitler! Viva a liberdade! da autoria do grupohttp://static.fnac-static.com/multimedia/PT/images_produits/PT/ZoomPE/7/2/8/5602193326827.jpgestudantil Weiße Rose (Rosa Banca). Nesse ano, Hans Scholl, um estudante de medicina na universidade de Munique, a sua irmã Sophie, Christoph Probst, Willi Graf e Alexander Schmorell formam o movimento Weiße Rose, um dos poucos grupos alemães que se insurgiu publicamente contra a política genocida do regime nazi. A tirania do regime e apatia dos cidadãos alemães face aos crimes abomináveis choca os membros idealistas do grupo. Muitos sabiam já dos massacres de judeus polacos; Hans Scholl foi soldado na frente leste e pode testemunhar as deportações e os maus-tratos infligidos. O grupo expande-se então, tornando-se uma organização estudantil com ramificações em Hamburgo, Friburgo, Berlim e Viena. Correndo riscos incalculáveis, os membros da organização transportam e enviam folhetos mimeografados que denunciam o regime. Numa tentativa de parar o esforço de guerra, eles defendem a sabotagem da indústria de armamento. Não vamos ficar calados.Somos a vossa má consciênciaA Weiße Rose não vos deixará em paz!, escrevem aos seus colegas. Após a derrota do exército alemão em escrevem aos seus colegas, Estalinegrado no final de janeiro de 1943, os Scholls distribuem panfletos onde chamam à rebelião os estudantes de Munique. Mas, no mês seguinte, são denunciados à Gestapo por um zelador da universidade que os vê a distribuir os panfletos. Hans e Sophie Scholl e Christoph Probst são decapitados a 22 de fevereiro de 1943, condenados por traição. O professor de Filosofia Kurt Huber, mentor do grupo, também é preso e executado. (http://www.ushmm.org/wlc/en/article.php?ModuleId=10007188 )

É ou não verdade que todo o alemão honesto se envergonha atualmente do seu governo? Quem de entre nós tem alguma conceção das dimensões da vergonha que cairá sobre nós e sobre os nossos filhos quando um dia o véu cair dos nossos olhos e o mais horrível dos crimes - crimes que são infinitamente impossíveis de medir pelo ser humano - alcançar a luz do dia?
— Primeiro panfleto do movimento Weiße Rose

Paula Almeida
Técnica Superior
Departamento de Desenvolvimento Estratégico
Divisão de Animação, Promoção e Patrimónios Culturais

Câmara Municipal de Cascais
Espaço Memória dos Exílios
(excerto da página diária feita pela Drª Paula Alameida)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

sem palavras...


Retrato de Jacqueline de mãos cruzadas, Picasso, 1954

 Jacqueline, suicidou-se aos 60 anos de idade, depois da morte de Picasso.
Não foi a única companheira do artista a fazê-lo. 


"Para mim só há duas espécies de mulheres: as deusas e os capachos."




sábado, 14 de fevereiro de 2015

com beijo e sem beijo, o amor acontece...

O Beijo

Congresso de gaivotas neste céu 
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo. 
Querela de aves, pios, escarcéu. 
Ainda palpitante voa um beijo. 

Donde teria vindo! (Não é meu...) 
De algum quarto perdido no desejo? 
De algum jovem amor que recebeu 
Mandado de captura ou de despejo? 

É uma ave estranha: colorida, 
Vai batendo como a própria vida, 
Um coração vermelho pelo ar. 

E é a força sem fim de duas bocas, 
De duas bocas que se juntam, loucas! 
De inveja as gaivotas a gritar... 

Poema de Alexandre O´ Neill
Dolorosos delírios amorosos entre Rodin e Camile Claudel


Partidas de S. Valentim...



Entre a ficção e a realidade , mas onde o real é a parte negra vivida entre as décadas de 60-70, com factos verdadeiros de um Portugal que já não existe , mas que foi bom relembrar na magistral narrativa de Miguel Real, do considerado "o último grande amor português", O ÚLTIMO MINUTO NA VIDA DE S. Lê-se num golpe de tempo.
Forma tocante de exprimir o desamor e o Amor que aconteceu com carácter de urgência. Foi curto. Os amantes morreram no auge da paixão.
Outras paixões vão morrendo ao longo da curtas ou longas vidas que se vão vivendo. 


Excertos do livro de Miguel Real,  O ÚLTIMO MINUTO NA VIDA DE S.
FOTOGRAFIA DE LEeN MILLER

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

como eu gosto dos homens...

    
Jean Flandrin Hippolyte ( 1809-1864) , Jovem nu sentado à beira-mar, 1836 Museu do Louvre
.
Gravatas amadas, gravatas odiadas, mas como eu gosto mesmo dos homens.... Nuinhos e à beira-mar sentados... 
E, tudo parece ter vindo da China. AQUI, ou,  outrora, não fossem os chineses os vendedores de rua por excelência ,de "glavatas balatas".
Quem por Coimbra passou ou viveu, sabe bem disso.

               Em Todas as Ruas te Encontro

.....
Em todas as ruas te encontro 
em todas as ruas te perco 

Mário Cesariny, in "Pena Capital" (excerto)



a vida podia ser bela como as cerejas, ou as ginjas...

Cerejas ou ginjas?
Comem-se como as cerejas
Ou caem que nem ginjas?
Veremos....

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

87 belos anos, hoje, os de minha Mãe

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apagas
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

e, quem brinca com o fogo, queima-se

" O Governo grego quer defender a dignidade e a vida dos gregos e Passos Coelho não suporta esse atrevimento. Passos Coelho nem percebe como é que Tsipras não considera uma honra servir os poderosos deste mundo e lamber a sola cardada das suas botas, deleitando-se na volúpia da submissão. Passos Coelho não é mais papista que o Papa: é apenas mais alemão do que Angela Merkel e mais obsceno do que Miguel de Vasconcelos."
AQUI

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

na "mouche"...

O mês de Fevereiro,segundo Rafael Bordalo Pinheiro:
"Mês febril.
Pertence ao doutor.Pertence aos seus dignos colegas, aos boticários e à empresa funerária".

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Dia Ramalho Ortigão, no CCB, com "Farpas" e sem elas, mas com muita ternura




Para dar início ao centenário da morte de Ramalho Ortigão, hoje no Centro Cultural de Belém, e que terá o seu auge em setembro, várias pessoas foram convidadas para falar do sonhador da alma portuguesa. Todas as vertentes da sua vida foram tocadas e os oradores de excelência.  Tanta coisa que eu não sabia...
- "Histórias Cor de Rosa"- Vida e Obra
- "Arte Portuguesa I, II, III
- "As Farpas- Sociedade e a Geração de 70
Excerto do filme de Jorge Paixão da Costa, "O Mistério da Estrada de Sintra"

Todos os momentos foram elevados, mas ouvir José-Augusto França falar sobre "O Martens, modelo do Eça e e Ramalho", foi a cereja em cima do bolo.

Muito interessante , a vinda de muitos familiares, Ramalho Ortigão ou só Ortigão, nome oriundo de uma planta , urtiga ou urtigão (tanto pode ser com "o" como com "u") , que se aplicou a uma mulher da família que tinha muito mau  feitio. Picava.
Vieram do Porto, Crato, Lisboa e Algarve.
 Um encontro muito a jeito das famílias numerosas , com história, que se sente cada dia mais atual.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

porque ainda é sábado e daqui a nada domingo, bom fim de semana

Ainda que Mal

Ainda que mal pergunte, 
ainda que mal respondas; 
ainda que mal te entenda, 
ainda que mal repitas; 

 ainda que mal insista, 
ainda que mal desculpes; 
ainda que mal me exprima, 
ainda que mal me julgues; 
ainda que mal me mostre, 
ainda que mal me vejas; 
ainda que mal te encare, 
ainda que mal te furtes; 
ainda que mal te siga, 
ainda que mal te voltes; 
ainda que mal te ame, 
ainda que mal o saibas; 
ainda que mal te agarre, 
ainda que mal te mates; 
ainda assim te pergunto 
e me queimando em teu seio, 
me salvo e me dano: amor. 


Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'
Desenho de António Quadros

Olhares que me libertam do dia a dia...

                                              O "Beijo" de Magritte, segundo a fotografia de Lee Miller
Fotografia de Lee Miller, num lugar próximo de Siwa, Egipto, 1937

Olhares....

Lee Miller visto por Picasso, 1937

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

os contorcionismos da vida...



... ou um certo cansaço do circo. Ou porque a festa acabou... 
    Vida através da arte,  com Picasso nos seus Acrobates, 1930.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

"uma busca da imortalidade"

A epopeia de Gilgamesh é um antigo poema épico da Mesopotâmia, sendo uma das primeiras obras conhecidas da literatura mundial. Acredita-se que na sua origem estejam diversas lendas e poemas sumérios sobre o mitológico deus-herói Gilgamesh, que foram reunidos e compilados no século VII a. C. pelo rei Assurbanipal. Recebeu originalmente o título de Aquele que Viu a Profundeza (Sha naqba imuru) ou Aquele que se Eleva Sobre Todos os Outros Reis (Shutur eli sharri).
A sua história gira em torno da relação entre Gilgamesh e seu companheiro íntimo, Enkidu, um homem selvagem criado pelos deuses, para distrair o primeiro e evitar que ele oprimisse os cidadãos de Uruk. Juntos passam por diversas missões, que acabam por descontentar as divindades. A parte final do épico é centrada na reacção de Gilgamesh à morte de Enkidu, que acaba por tomar a forma de uma busca da imortalidade.

Versão de Pedro Tamen do texto inglês de N. K. Sandars.
Gilgamesh de Pedro Tamen

Encontro, hoje,  com o meu amigo Zé Manel, um leitor compulsivo, e por quem gosto deixar-me contagiar nos seus gostos e deleite pelas palavras.
Aqui deixo a marca e sugestão de leitura, qua segundo ele, tão importante como Homero e outros mais.

Sala dos Capelos, Coimbra. Aconteceu



Para os muitos brasileiros que por aqui vão passando, tendo em conta o contador, a alguns poderá interessar a cerimónia que aconteceu dia 28 de Janeiro, na Universidade de Coimbra, Sala dos Capelos, onde foi Doutorado Honoris Causa, João Murilo de Carvalho.
Para mim , foi a 1ª vez que assisti a um doutoramento deste gabarito.
Toda a cerimónia está no vídeo, mas os elogios e o resumo da sua obra, feita pelos Professores Doutores, Fernando Catroga e  João Bernardes, é feita a partir do minuto 32.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

a 2 de fevereiro de 1951, aconteceu... , mas a História não pára

¾     O industrial alemão Alfried Krupp é libertado da prisão; o valor da sua fortuna, avaliada em US 45,000000 e previamente confiscada, é-lhe devolvido. Após a Segunda Guerra Mundial, Alfried é condenado por crimes contra a humanidade devido à utilização de trabalhadores dos campos de concentração nas suas fábricas, fazendo de Alfried e da sua empresa cúmplices do Holocausto. Apesar de ter sido condenado a doze anos, cumpre apenas três por libertação prévia. A empresa familiar, conhecida formalmente como Friedrich Krupp AG Hoesch-Krupp, foi um dos principais fornecedores de armas e material ao regime nazi e à Wehrmacht durante a guerra. Em 1943, Krupp torna-se o único proprietário da empresa, na sequência da Lex Krupp (Lei de Krupp) decretada por Adolf Hitler. Durante a guerra, os lucros da empresa aumentaram significativamente e Alfried passa a controlar as fábricas na Europa ocupada pelos alemães. Quando o seu pai sofre um acidente vascular cerebral, torna-se Alfried Krupp file photoo líder de facto da empresa em 1941. Numa carta de 7 de Setembro de 1943, escreve: No que concerne à cooperação de nosso escritório técnico em Vratislávia, eu só posso dizer que entre aquele e Auschwitz existe um entendimento profundo e garantido para o futuro. De acordo com um de seus funcionários, mesmo quando ficou claro que a guerra estava perdida, Krupp considerou um dever que 520 meninas judias, algumas delas pouco mais do que crianças, trabalhassem sob condições desumanas, em Essen. Morre de cancro pulmonar em 1967.
Aumentar, aumentar a riqueza á custa de não olhar a quem.
63 anos depois a escravatura infantil continua.

Escultura de George Segal, realizadas a partir de moldes de seres vivos, evocando a tragicidade da condição humana.  "O Holocausto".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

São sonhos, senhores, são sonhos...

Há quem diga que todas as noites são de sonhos. 
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. 
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou
Marc Chagall, Sonho de Uma Noite de Verão, 1939
 acordado. (W. Shakespeare

ela está aí, "a indiferença"

Indiferença em Política

Um dos piores sintomas de desorganização social, que num povo livre se pode manifestar, é a indiferença da parte dos governados para o que diz respeito aos homens e às cousas do governo, porque, num povo livre, esses homens e essas cousas são os símbolos da actividade, das energias, da vida social, são os depositários da vontade e da soberania nacional. 
Que um povo de escravos folgue indiferente ou durma o sono solto enquanto em cima se forjam as algemas servis, enquanto sobre o seu mesmo peito, como em bigorna insensível se bate a espada que lho há-de trespassar, é triste, mas compreende-se porque esse sono é o da abjecção e da ignomínia. 
Mas quando é livre esse povo, quando a paz lhe é ainda convalescença para as feridas ganhadas em defesa dessa liberdade, quando começa a ter consciência de si e da sua soberania... que então, como tomado de vertigem, desvie os olhos do norte que tanto lhe custara a avistar e deixe correr indiferente a sabor do vento e da onda o navio que tanto risco lhe dera a lançar do porto; para esse povo é como de morte este sintoma, porque é o olvido da ideia que há pouco ainda lhe custara tanto suor tinto com tanto sangue, porque é renegar da bandeira da sua fé, porque é uma nação apóstata da religião das nações - a liberdade

in, Prosas da Época Coimbrã , Antero de Quental

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Com um dia de atraso, mas há sempre tempo para a História

                                                            31 e um de Janeiro de 1891, Porto