"o 1º de Maio é o dia em que a Natureza revive em cada poro, em cada átomo. O Inverno, que simboliza a noite milenária da Idade Média, com todos os seus horrores da escravidão, fome e morte, passou, com os seus gelos desolados e a sua nudez; está-se na Primavera - a quadra da beleza e da esperança, e das promessas de frutos deliciosos que hão-de sustentar as vidas; e esta quadra também simboliza a esperança e a promessa de muitos frutos que havemos de colher no Estio e no Outono da nossa futura mas próxima revolução " (14)
(14) O 1º de Maio, Porto, Maio, 1893 (nº único). Cf. Carlos da Fonseca , cit. pag. 46
Excerto das pag. 251/252 do livro O CÉU DA MEMÓRIA, de Fernando Catroga
"E a feminista Matilde de Jesus Pereira declamava: "Maio, o deslumbrante mês em que as flores embalsam o ambiente com os seus perfumes, foste tu o escolhido para as unânimes reclamações do povo trabalhador".
Dir-se-ia que, à mentalidade ainda rural de muito trabalhador português, não repugnaria aceitar, como o fazia o jornal das tabaqueiras do norte, que "certamente, desde longínquas datas, o primeiro de maio tinha o seu culto, remontando talvez na Irlanda à adoração de Baal, coincidindo, durante a Idade Média, com a abertura dos chamados jogos florais e cortes de amor, que importavam ainda assim o princípio da dignificação da mulher. Na Itália entregam-se neste dia ramos de flores, como forma de saudação amigável. Em Portugal, enfeitavam as portas e as janelas com flores e giestas, conservando-se por quase todas as nossas províncias ainda a tradição que se perde nos tempos" (13)
(13) Marius, "O 1º de Maio", in A Voz do Proletariado, XIII anno, nº 642, 1908
Do livro CÉU DA MEMÓRIA, pág. 251, de Fernando Catroga
No âmbito do Dia Mundial do Livro que se festeja dia 23, deixo AQUI um apontamento da razão da sua existência. Coisa recente...
Resolvi entrar na festa, partilhando o livro que ando a ler . Apresentações para quê ? O autor é cá da casa, entenda-se o espaço dos livros...
Tinha registado a dissertação sobre a cor da cidade de Lisboa, na página 15, a qual também tinha e tenho por hábito de chamar "cidade branca", por três razões :
1ª. porque gosto do branco.
2ª por influencia do filme , como refere MdeC.
3ª por ternura pela cidade que realmente de "branca" tem pouco.
Passo a transcrever o que tão bem o escritor descodifica, o homem que também me fez aprender a cor "magenta", através da leitura do seu livro, "A Sala Magenta". Cor de que parece muito gostar.
"Quanto à cor de Lisboa, de tons sempre variáveis com o fluir das estações e os caprichos dos sóis e das atmosferas, disponho-me a jurar e a declarar notarialmente que branca não é. Basta subir-se ao miradouro da Senhora do Monte, ali a S. Gens, ou ao terraço do Hotel Sheraton, ou àquele enorme edifício azul que fecha a alameda dom Afonso Henriques nos altos da Barão de Sabrosa, ou mesmo ao humilde convés dum cacilheiro, para poder verificar que a cidade, descontando o grená rugoso dos telhados, varia entre os rosas-suaves, os verdes esbatidos, os amarelos-doces, em milhentas tonalidades que não fazem mal à vista. Lá terá as suas brancuras aqui e além, mas estão preciosamente colocadas, para compor o todo.
Mas isto dos gostos e de cores, parece que não é para discutir. Já foi, mas agora não é para discutir.
...
O que importa asseverar por agora é que, ainda que a cor magenta não venha nos dicionários, o que quase a candidata à inexistência, lançada naquela rua, desmerece tanta gritaria e intolerância
Sempre gostei de Lisboa. Uma aprendizagem com o tempo e as circunstancias. Não sou lisboeta, mas quase... De cá para lá e de lá para cá, Lisboa/Cascais, mais a itinerância da vida de professora. E foi a atravessar o Tejo, de cacilheiro, durante quatro anos, e que a partir de Maio eu já me bronzeava e olhava apaixonadamente a partir do exterior do barco, a cidade, o Castelo de S.Jorge. Um enamoramento que por ironia do destino ou dos concursos, atirou comigo e em boa hora , para a escola da freguesia do Castelo, para uma escola desconhecida de muitos e muito bonita, onde fiquei durante 10 anos.
Dali, a cidade não parecia branca, mas "grená rugoso dos telhados".
Belissimo artigo que CFA * fez para o jornal Expresso desta semana, Revista, sobre a relação de Picasso para com as mulheres, a sua compulsão feminina, misoginia, e o sofrimento dessas mulheres , consentido . "Viver com ele era difícil, mas sem ele era pior . Com Picasso o mundo era a cores, sem ele reinava o cinzentismo".
Para além da obra pictórica que sempre me arrastou para um outro além, para além de algum tempo de vida com arte e artista que fez parte de um percurso de vida , e porque há sentimentos transversais aos artistas , em qualquer arte, a sua personalidade sempre me aguçou a curiosidade e o desejo de saber mais.
Comecei há tempo a ler uma grande biografia de Picasso que continuou em stand-by ...
Excerto.
Após uma visita de Marie-Thérése a Dora Maar
....
- Há muito tempo que me prometes casamento - disse-lhe ela tranquilamente . - (Marie-Therése)
Talvez pudesses tratar do teu divórcio .
Picasso defendeu-se como podia : tinha sessenta e um anos. Já não tinha idade para casar. foi então que apareceu subitamente Dora. Ela queria intervir na discussão, mostrar que a questão do casamento de Pablo com Marie-Thérèse nem sequer se punha :
- Mas então Picasso, tu amas-me - dizia-lhe ela.
Então Picasso, que se sentia intimidado a escolher, aplicou o golpe de misericórdia a Dora e disse-lhe :
- Dora, sabes bem que a única que amo é Marie-Thérèse , aqui presente ...
Esta última tirou da declaração do amante a força necessáriaa para dizer a Dora, apontando-lhe a porta:
- E agora, saia !
Que se iria passar? Picasso saboreou aquele instante.
Dora recusou sair.
Marie-Thérèse voltou a pressioná-la.
Nova recusa.
As das mulheres empurram-se violentamente e deram uma bofetada uma à outra.
Mas Marie-Thèrèse, que fazia ginástica e tinha uma musculatura mais desenvolvida, era decididamente mais forte.
Um empurrão lançou Dora para o patamar e a porta fechou-se com um estrondo.
E em seguida ?
Em seguida, nada se passou. Marie-Thérèse, depois de ter ouvido Pablo dizer-lhe: «Sabes o quanto te amo», fórmula em que não era avaro, restava-lhe descer, como habitualmente, as escadas do metropolitano, onde se juntava à enchente de passageiros ... Dora voltou para a Rue de Savoiene deitou-se na cama. Choraria durante muito tempo.
No dia seguinte, Pablo telefonou a Dora Maar para o ritual do almoço no Catalan, como se não tivesse passado nada. Mas, no fim de contas, segundo as suas pr´prias palavras, não são as mulheres«máquinas de sofrer»?
...
Eu, acrescento no dia de hoje, querido Pablo, 45 anos após a tua morte, 8 de Abril de 1973, meu" monstro" de duplo sentido, que a relação homem/mulher , mudou . Não tanto como o desejado, mas as relações sadomasoquistas e outros sentimentos, fazem parte da natureza humana ...
Já fiz viagens para ver exposições tuas. Para esta em Londres não dá.... Na minha tão gostosa Tate. Aguardo o catálogo.
* Clara Ferreira Alves Imagens do texto na Revista do Expresso. Excerto do livro PICASSO, de Henry Gidel
Hoje, a freguesia de São Miguel do Rio Torto, concelho de Abrantes, homenageou dois filhos da terra.
Ambos dois bons amigos, mas Fernando Catroga, de muito longa data, assim como sua mulher, a minha mais antiga e única amiga de adolescência, a Ana. Sou um "bibelot" que de tempo a tempo enfeita a sua casa e partilha emoções. Por isso, não posso deixar passar este dia em branco, no qual também fui atirar o meu foguete.
Deixo-vos o texto e poema de Antero que Fernando Catroga leu à porta da casa onde nasceu , assim como seu irmão Eduardo. Esta a sua ideia de pertença. Uma pérola.
Esses que amei
Pode-se ter dúvidas sobre o sentido da vida,
mas elas diminuem quando existe um diálogo sadio com as nossas raízes. A “terra
dos pais” é a nossa primeira pátria e alicerce da nossa “Pátria Grande”. E não
se pode esquecer que ter pátria é ter memória,
pois cada ausente traz consigo, colado à sola dos sapatos, o pó do solo sobre o
qual aprendeu a cair, para se levantar do chão e caminhar de novo. E quem fica
a amar a terra que o fez nascer nunca sai, verdadeiramente, do sítio de onde
partiu.
De certo modo, ele é a
nossa “mátria”, significado que a simples, densa e telúrica expressão a “minha
terra” bem exprime. Daí que, mesmo nos casos em que esta foi ingrata para
muitos dos seus filhos, perdure uma sensação de dívida e de gratidão para com
um lugar simultaneamente físico e simbólico, revivificado pela sucessão das
gerações, mas também pelas lições de futuro que podem ser bebidas na evocação
do melhor do seu passado.
Por tudo isto, ao
deambular por estas ruas, e ao olhar para as marcas do tempo inscritas nas
rugas das casas e nos rostos de quem as habita, também vejo o invisível, e, seguindo
o magistério de Antero de Quental, dou por mim a perguntar:
- O António disse simplesmente: "Tenho boas recordações da minha infância ... O meu pai levava-me à feira pela mão, comprava-me favos de mel e eu chupava-os. É bom saborear a cera que fica agarrada aos dentes, depois de se chuparem os favos. "
In,Jornal da Educação, excerto de crónica de João dos Santos Aprender a ler , Maio de 1980
Do meu pai, tenho todas as boas memórias que se pode ter uma uma pessoa infinitamente boa, integra e doce .
Tão doce como algodão doce que me comprava na grande feira que era a de S. João, na nossa cidade . Era.
A doçura de João dos Santos é muitas vezes comparável à doçura de meu pai .
Um dia destes, para vosso prazer também, deixo aqui a beleza desta crónica, que toca pai, avós e a aldeia que se teve ou não se tem. A "nossa terrinha".
Brita e Eu, auto-retrato com uma das filhas (1895), Carl Larsson
A propósito do Dia Mundial do Consumidor, tive vontade de transcrever um excerto do livro que estou a ler de Gonçalo M. Tavares, "UMA MENINA ESTÁ PERDIDA NO SÉCULO À PROCURA DO PAI "
Numa conversa entre Marius e o velho Terezin , que vivia num quarto de hotel .
"Terezin começou por elogiar o pouco peso que transportávamos.
- Há povos que demoram séculos a entender isso - disse ele, e depois riu como se tivesse acabado de contar uma anedota.
Hanna riu também - quase sempre respondia aos risos dos outros com uma gargalhada.
...
Explicou depois como era fundamental aquela questão do peso.
Eu levava a mochila às costas com as minhas coisas essenciais e com objectos de Hanna, incluindo a pequena caixa com os exercícios para pessoas com deficiência mental. Hanan nada levava.
- Não conheceram o meu quarto, disse o velho Terezin, quando voltarem convido-vos para irem lá. Vão ver - murmurou - como está vazio.
Vou dizer-vos o que existe no meu quarto : um colchão, quatro livros - um deles saberão qual, certamente; e depois ainda uma cadeira, uma mesa de madeira, os lençóis de cama e alguma roupa, pouca. Um outro par de sapatos que quase não usei. E tenho depois quatro pequenos objectos - não vou dizer quais, peço desculpa ; algumas folhas de papel, umas canetas... e está tudo.
Ao longo destas anos, pode parecer estranho continuou Terezin -, mas o quarto foi perdendo elemento, nada entrou e algumas coisas saíram.
...
- Vou dizer-lhe - lhe quanto pesa o meu quarto. Já alguma vez pensou nisto? - perguntou-me. - O peso de tudo o que está no quarto?
E começou a fazer a lista, dizendo alto o peso que correspondia a cada coisa, e escrevendo no papel :
Colchão - 1Kg
Mesa - Kg
Cadeira -2Kg
4 livros -2,Kg
Objectos vários -1,5Kg
E no final escrevera:
Eu - 63kg
....
- Não vale a pena grandes rodeios - disse-nos - , no limite é o nosso peso que está em jogo, é ele que temos de carregar para um lado ou par outro. Quando temos de fugir, podemos ter tempo para pegar num ou outro objecto, mas tal é raro. A rapidez com que se pega no próprio corpo e se foge de um lugar onde a nossa vida está em risco, esta rapidez depende muito do nosso trabalho anterior, de esvaziar o espaço á nossa volta.
...
Claro que numa emergência ninguém quererá carregar objectos consigo, numa emergência cada um tentará fugir o mais rápido possível ; a questão é o tempo que demora decisão de largar todas as coisas. O tempo que demora esta decisão vai ser determinante - uns vão sobreviver outros não. O tempo de que falo não é medido em minutos, nem em segundos, trata-se de milésimos de; segundo ; por vezes sobrevivemos, escapamos do lugar onde estamos, porque decidimos num milésimo do segundo correr dali, correr o mais rápido possível, sem olhar para trás; e esta decisão a de correr , a de nos afastarmos de um espaço, se demorar mais um milésimo de segundo pode tornar-se fatal. Pego nas minhas coisas ou não?